
Samaritana Pasquier vive na Suíça há 36 anos, onde estudou Ciências Sociais em Genebra, Etnologia, em Neuchâtel, e aprofundou os seus conhecimentos por meio de formações contínuas, tornando-se professora de francês para adultos migrantes. É casada, mãe de duas filhas, vive atualmente em Villars-sur-Glâne, no cantão de Fribourg.
Em junho deste ano, com o apoio da In-Finita Editorial, apresentou a sua mais recente obra literária na Feira do Livro de Lisboa. “Do Brasil à Suíça” chega à sua terceira edição, com um forte apelo pela valorização dos fluxos migratórios e das experiências individuais de cada migrante.
“A terceira edição do meu livro é um marco importante para alcançar o público lusófono na Europa e, assim, partilhar a minha experiência de migração e integração com leitores sensíveis a esses temas tão atuais no mundo de hoje”, disse Samaritana Pasquier, que sublinha que o livro “aborda a resiliência de uma mulher migrante”.
“Este livro é um ensaio autobiográfico, mas articula-se entre o individual e o coletivo. Digo sempre que, por meio desse relato de vida, espero despertar no leitor a empatia pela sua dimensão humana, levando também à reflexão. No contexto atual de grande fluxo migratório, a empatia conduz-nos à compreensão mútua no cotidiano das nossas diferenças culturais, favorecendo uma convivência baseada no acolhimento e na abertura ao outro”, explicou a autora.
“Falo, por exemplo, da minha infância, atravessada pela pobreza, e do meu sonho de criança. Por volta dos sete anos, quando tinha fome e não havia nada para comer em casa, dobrava o meu braço e o meu antebraço transportava-me à imagem de um pequeno pão francês (petite baguette parisienne), que eu imaginava quentinho e delicioso com manteiga”, recordou.
A obra está marcada também pelo relato da experiência de migração e de integração na Suíça da autora, nascida em 1957, em Coelho Neto, Interior do Estado do Maranhão, no Brasil, onde foi professora do ensino secundário.
Samaritana Pasquier celebra o facto de o livro contar com um prefácio assinado por alguém de grande relevância no país helvético.
“É uma imensa honra para mim que o prefácio do meu livro tenha sido escrito pelo embaixador suíço Jean-Pierre Argeu de Dardel. À época, embaixador da Suíça em França e no Principado de Mônaco, ele leu o meu livro na versão francesa, ficou profundamente tocado e, em seguida, fui convidada à Embaixada suíça para um almoço, com ele e a sua esposa. Quando foi publicada a edição em português, ele não hesitou em escrever o prefácio, gesto pelo qual serei eternamente grata”, confirmou Pasquier.
Currículo literário e “humano”
A viver na Suíça há cerca de quatro décadas, Samaritana Pasquier construiu “um itinerário de novos conhecimentos que impulsionaram a sua inserção profissional e permitiram-lhe assumir cargos de responsabilidade na trajetória de migração e integração”.
“Uma experiência profissional muito marcante para mim foi exercer a função de professora de francês para adultos migrantes. Trabalhei com operários, trabalhadores migrantes e também com a população ucraniana exilada pela guerra no seu país. Como todos sabem, ensinar a língua do país é, geralmente, uma tarefa reservada aos nativos, o que é compreensível, já que se trata da língua materna. No entanto, ao atuar nas instituições suíças como professora de francês, interrompi esse paradigma, pois, ali estava eu, migrante, ocupando um espaço que normalmente é reservado aos locais. E, nessa sensação tão agradável, pensava: “Estou no lugar certo.” Esse foi mais um passo na minha integração!”, afirmou.
Com este livro, Pasquier espera transmitir a outras mulheres migrantes uma mensagem de apoio e esperança.
“Partilho reflexões de uma vida repleta de provações, mas também marcada pela resiliência, e foi assim que encontrei a força necessária para seguir adiante, sem perder o sentido e a alegria de viver nas coisas simples da vida. No contexto da migração, experimentamos a diversidade cultural e, ao mesmo tempo, a unidade do ser humano. A minha constatação, ao longo desses anos, é que todos nós, em algum momento da vida, precisamos uns dos outros. Esse reconhecimento coloca-nos no mesmo patamar na relação com o outro, e, assim, podemos estabelecer verdadeiras pontes de diálogo e de compreensão recíproca”, esclareceu Pasquier, que elogiou o trabalho da sua editora em Portugal.
“Foi muito importante que a In-Finita Editorial estivesse, e continue estando, atenta à escuta dos seus autores. Por meio da sua responsável, Adriana Mayrinck, a editora demonstrou, ao longo de todo o processo de publicação do livro, grande flexibilidade para ajustes, correções de texto, entre outros detalhes. Outro aspeto fundamental é o compromisso com a difusão e divulgação da obra”, atestou.
Legado e multiculturalidade
“Do Brasil à Suíça” está publicado também em francês: “Suis-je devenue Suisse? – La résilience d’une femme migrante”. Em setembro deste ano, será lançada a segunda edição em francês.
“Estou feliz e grata por mais essa realização”, confessou Pasquier, que, na Suíça, convive com a comunidade portuguesa e brasileira em “diversos momentos culturais, com o objetivo de estimular, nesses encontros, o conhecimento e a valorização mútua das nossas tradições”.
“A Suíça tornou-se o meu país de adoção. Para mim, viver aqui é estar num ambiente cosmopolita, de encontros com diversas culturas, e, consequentemente, de abertura ao mundo e respeito ao outro, com todas as singularidades que cada um traz consigo”, avançou Pasquier, que chegou ao país europeu para “realizar estudos académicos”.
Sobre como vive o coração do imigrante na Suíça, a nossa entrevistada é enfática.
“Acredito que o mais importante é sentir-se bem onde se vive, sem jamais esquecer as próprias raízes e origens culturais. Não se deve idealizar um país, tanto a Suíça como o Brasil, que têm as suas riquezas culturais, mas têm também os seus próprios desafios”, finalizou Samaritana Pasquier. ■