Os incêndios florestais que todos os verões assolam Portugal não são apenas desastres “naturais” ou obra de alguns loucos isolados. Por detrás das labaredas escondem-se causas estruturais e poderosos interesses económicos. Em cada tragédia – vidas perdidas, aldeias em cinzas, património destruído – é possível vislumbrar a sombra de um sistema que lucra com o fogo ou dele tira abastados proveitos.
Indústria da madeira e monocultura do eucalipto: lucro das cinzas
Uma das peças centrais deste puzzle é a indústria da madeira e da celulose. Portugal é hoje o país com a maior percentagem de área florestal ocupada por eucalipto em todo o mundo (cerca de 26% dos povoamentos, quase 1 milhão de hectares)[i]. Apelidada de “árvore do fogo” – esta árvore de crescimento rápido tornou-se a matéria-prima predileta das grandes exportadoras de pasta de papel. Por isso temos hoje vastas áreas de monocultivos inflamáveis que secam o solo, reduzem a biodiversidade e actuam como rastilho perfeito para fogos descontrolados a que assistimos. Especialistas alertam que um eucaliptal denso funciona como “bomba-relógio” em verões quentes: alto teor de óleos nas folhas, casca que voa em chamas e capacidade de sobreviver aos fogos.[ii]
Em teoria, um incêndio deveria ser desastroso para as empresas que dependem de madeira, mas na prática, essas empresas conseguem tirar vantagens estratégicas das áreas ardidas. Primeiro, os incêndios geram um excedente de madeira queimada que precisa de ser removida rapidamente (para não apodrecer), o que baixa drasticamente o preço dessa madeira no mercado[iii]. Foi isso que aconteceu após o incêndio de 2017 na Mata Nacional de Leiria: uma investigação jornalística revelou reuniões secretas de grandes madeireiros da região que terão planeado o fogo para inundar o mercado com madeira barata e lucrar milhões[iv].
É uma estratégia “dois em um”. Além de baixarem o custo da matéria prima, muitas vezes compram os pinhais a famílias ou empresas que ficam economicamente vulneráveis, fazem emparcelamentos, recebem subsídios públicos para reflorestar as áreas ardidas e avançam… para os eucaliptais de crescimento rápido. Não é de admirar que ambientalistas acusem estas corporações de estarem “na origem do problema” e até de poderem vir a lucrar com o sucedido, ao expandirem negócios paralelos (bioenergia, pellets, hidrogénio verde)[v].
Especulação imobiliária: das cinzas ao betão.
Outra motivação frequentemente apontada para os incêndios florestais é a especulação imobiliária e urbanística. A lógica é simples: um terreno classificado como floresta não pode ser utilizado para construção – mas se essa floresta desaparecer, abre-se caminho a novos empreendimentos. Historicamente, houve casos escandalosos em que grandes incêndios precederam projetos urbanísticos de alto valor, levantando suspeitas fundadas. Para desmotivar esta prática, já houve uma lei que proibia a construção nos dez anos seguintes ao incêndio, mas tal foi eliminada pela Lei n.º 22/2020, que revogou o regime de gestão de área ardidas e os deveres impostos aos proprietários de terrenos por ela.
Mineração e Energia: Fogos para abrir caminho?
Nos últimos tempos levantou-se outra questão: a ideia de que fogos em áreas remotas estariam ligados a interesses de mineração (em causa, a exploração do lítio) ou à instalação de parques eólicos e solares. Desde 2023 até agora, coincidindo com anúncios de projetos mineiros, multiplicaram-se nas redes sociais mapas comparando focos de incêndio com zonas concessionadas para prospeção de lítio em Portugal. Os especialistas ligados a estas empresas, dizem que os fogos até são contraproducentes já que o fogo destrói vegetação, mas deixa cinzas que atrapalham os sensores remotos (satélite) usados para detetar anomalias de solo indicadoras de minerais, e a área ardida fica instável e de difícil acesso para equipas no terreno, retardando trabalhos de pesquisa. Nik Völker, responsável pelo Mapa do Minério (Portugal), afirma que a sobreposição de incêndios com áreas de lítio foi uma coincidência observada já em 2019 e 2022, sem que nada de concreto tenha sido apurado[vi]. E que os mapas usados incluiam todos os pedidos de prospeção (mesmo expirados), o que gerava percepção errada. Ainda assim, é um tema a merecer atenção cuidada, pois é um negócio que envolve milhões de euros e muitos lucros.
Também a instalação de grandes parques solares e eólicos está na ordem do dia. Muitas organizações ambientais denunciam que um incêndio “oportuno” pode remover obstáculos ambientais e facilitar o licenciamento numa paisagem já degradada e incapacitada para floresta ou agricultura[vii]. Este parques solares têm crescido de forma abundante, mesmo em quintas de forte implementação agrícola, em áreas desertificadas o licenciamento será mais facilitado.
Fogo: é uma indústria?
Cada vez ganha mais peso a ideia de que existe uma “indústria do fogo” que precisa de ser alimentada. Nas últimas duas décadas, muitos países – Portugal e Espanha incluídos – privatizaram boa parte dos meios aéreos e operacionais de combate, contratando helicópteros, aviões e equipas a empresas especializadas. Este é um negócio multimilionário pago pelo estado. Em Espanha, em 2017, veio a público a investigação do caso “Cartel do Fogo”: um processo judicial em Espanha que revelou que, desde 2001, um grupo de empresas (Avialsa, Faasa e outras) combinava entre si para dominar os concursos públicos de meios aéreos, através de subornos e ajustes fraudulentos. Estimou-se em 250 milhões de euros o valor defraudado em 20 anos de contratos manipulados [viii].
Não querendo referir casos particulares, e verdade é que em Portugal, também percebemos que os recursos públicos que deveriam ser investidos em gestão florestal e vigilância, foram sendo canalizados para contratos “de emergência” com privados. E o facto de o estado passar o negócio para privados, acabou por criar incentivos errados: se todos os anos se gastam fortunas no aluguer de meios aéreos, e na compra de equipamentos e materiais diversos, interessa a muita gente que os incêndios continuem (e até aumentem) para manter e ampliar esses mesmos negócios. Como resumiu o jornalista Daniel Toledo: “os fogos que arrasam a Península Ibérica alimentam-se não só de oxigénio e madeira, mas sobretudo de corrupção”[ix]
Em Portugal, todos os anos o Estado gasta dezenas de milhões de euros no dispositivo de combate e contratação de aeronaves. Em 2024, por exemplo, foram adjudicados 15 milhões de euros adicionais em contratos de aluguer de meios aéreos para reforçar o dispositivo de verão[x], num país que continua sem frota própria de combate. Em 2024 foi gasto cerca de 338 milhões de euros em alugueres de meios aéreos acumulados[xi] – dinheiro esse que alimenta grupos privados em vez de reforçar capacidade pública permanente. Quando existe tanto dinheiro envolvido, a tentação criminosa é real. E diz o povo, “quem está perto do fogo… aquece-se”.
Abandono do interior e negligência
Por fim, há uma causa profunda, estrutural, que serve de pano de fundo a todas as anteriores: o abandono dos territórios rurais. Muitos incêndios não precisam de mãos criminosas ocultas – eles são a consequência quase inevitável de décadas de políticas que fragilizaram o interior, despovoaram aldeias e converteram paisagens diversificadas em extensões homogéneas de mato e monocultura.
O Estado desmontou estruturas de prevenção (guardas florestais, postos de vigia, equipas sapadores) e delegou nos pequenos proprietários a responsabilidade de milhões de hectares. Ao mesmo tempo, a liberalização florestal facilitou a entrada de grandes grupos (celulose, resinagem, mobiliário) o que desincentivou a pequena silvicultura familiar. Assim, milhares de pequenos produtores florestais desistiram – venderam ou simplesmente deixaram as terras por limpar, saturadas de mato combustível.[xii] Quem ganhou com isso? As grandes empresas, que passaram a gerir imensas áreas através de arrendamentos ou parcerias, moldando a paisagem ao jeito do seu lucro rápido, eucalipto, pinho de corte rápido, etc. [xiii]
Este processo criou um cocktail explosivo: florestas densas e por limpar, sem descontinuidades, cheias de combustível fino; ausência de habitantes para vigiar e acorrer no início dos fogos; e interesses económicos concentrados em extrair lucros rápidos, sem preocupação de médio e longo prazo para as regiões. Marcelo Rebelo de Sousa deixa um alerta, é preciso “sensibilizar todo o país que aceita facilmente que, para circular numa grande metrópole, 100, 200, 300, 400 milhões sejam investidos nessa circulação e que não acha ou não percebe que é tão urgente investir 100, 200, 300 milhões na prevenção dos fogos”. [xiv]
Pode-se dizer assim, que que os incêndios são o sintoma extremo e visível da desertificação humana e do modelo económico que alastrou sem pensar no equilíbrio ambiental e humano. E o que acontece após cada grande incêndio? a pouca população que ainda resta desanima e pensa em sair.
O abandono é demográfico, mas também político. Até hoje, as vozes das aldeias ardidas raramente se fazem ouvir nos centros de decisão. Relatórios independentes após tragédias (como o de Pedrógão Grande 2017) diagnosticaram falhas e recomendaram reformas – do ordenamento florestal à reorganização da proteção civil. Contudo, passados anos, pouco mudou: o lobby dos interesses instalados trava reformas profundas.
Conclusão: Da Chama da Denúncia à Acção Política
Os incêndios florestais em Portugal e Espanha não são meros desastres naturais inevitáveis – são em grande medida desastres políticos e económicos. Como referi, uma floresta transformada em negócio de curto prazo, onde o eucalipto reina e arde; terras queimadas que viram oportunidades para construção, minas ou projetos “verdes” de fachada; um submundo de negócios pouco claros que gravitam em torno do fogo; e um interior esquecido, cuja vulnerabilidade não é obra do acaso, mas resultado de opções políticas ao longo das últimas décadas. Num primeiro olhar, é urgente promover mosaicos florestais diversificados em que se misturem espécies autóctones mais resistentes ao fogo; romper com o ciclo de abandono investindo nas zonas rurais – apoiando os agricultores, os pastores e os projetos locais que mantêm o território vivo e limpo; reabrir postos florestais, formar, equipar e valorizar a carreira de sapadores permanentes, para que façam prevenção todo o ano; redefinir a estratégia e operacionalidade da Protecção Civil, das cúpulas às estruturas municipais. No campo legal, é preciso implementar uma noção clara de “tolerância zero” para com os crimes de fogo. Reforçar os efectivos técnicos da Polícia Judiciária, GNR e ICNF para a investigação criminal nesta área. A mensagem tem de ser clara: quem queima para lucrar será apanhado e terá consequências duras. Mas muito há mais para fazer, para isso deverão ser chamados os especialistas que se multiplicam de televisão em televisão durante os incêndios, mas parecem hibernar como os ursos durante o inverno, pois ninguém os ouve.
A política deve colocar a segurança das pessoas e a proteção do ambiente acima dos lucros de uns quantos. Mas combater os incêndios é mais que combater os incêndios, é combater a desertificação, o que exige outro tipo de políticas mais vastas. O que se pode dizer hoje, no meio das cinzas, é que é preciso transformar a indignação em acção: mobilizar cidadãos, pressionar governos, expor os interesses obscuros. A tragédia dos incêndios não pode ser o nosso destino – do fogo da destruição deve erguer-se o fogo da mudança. ■
João Morgado
Escritor
Referências Bibliográficas:
Valente, S. (2024). Quem é que ganha com os incêndios? ZAP Notícias – zap.aeiou.pt
Leal, A. (2018). Reportagem TVI “A Máfia do Pinhal” – in ZAP Notícias – zap.aeiou.pt
Diário do Minho (2024). Máfia do Eucalipto e Incêndios em Portugal? Opinião de Gonçalo S. M. Bandeira – diariodominho.pt
Público / Jornal de Leiria (2020). Dados sobre área de eucalipto em Portugal – abrilabril.pt
Renascença (2024). Por detrás dos “interesses” nos incêndios, sobram teorias da conspiração – rr.pt
RTP (2007). Governo altera lei para permitir construção em áreas ardidas – via CM – cmjornal.pt
Lusa (2021). Despacho reconhece interesse público de central solar em área ardida – in: agroportal.pt
Civio (2015). España sigue en llamas: últimos cambios legislativos – civio.es
CTXT (2017). El cártel del fuego (I) – ctxt.es
PCP/Avante (2025). Declarações de Paulo Raimundo sobre incêndios e privatizações – correiodamanhacanada.com
Funchal Notícias (2025). Incêndios no Norte: razões e interesses por trás do flagelo – funchalnoticias.net
EDJNet/Voxeurop (2023). Portugal: wildfires and the eucalyptus curse – europeandatajournalism.eu
Greenpeace Espanha (2013). ¿Quién quema el monte? (dados sobre intencionalidade) – archivo-es.greenpeace.org
VerificaRTVE (2025). Teorías conspiranoicas sobre montes quemados – rtve.es
Quercus (1988-2017). Dossiês “Desertos Verdes” e crítica à Lei do Eucalipto – funchalnoticias.net
Notícias ao Minuto (2025). Rede de protesto contra eucaliptais e incêndios – noticiasaominuto.com
Euronews (2024). Why are Portuguese forests so flammable? (Inês Trindade) – euronews.com
[i] https://www.abrilabril.pt/nacional/incendios-hora-de-recordar-navigator-e-o-seu-ceo#:~:text=Segundo%20dados%20de%202020%2C%20o,a%20quinto%20a%20n%C3%ADvel%20global
[ii] https://funchalnoticias.net/2025/08/20/incendios-na-regiao-norte-de-portugal-razoes-e-interesses-por-tras-do-flagelo/#:~:text=A%20regi%C3%A3o%20Norte%20concentra%20extensas,aceleram%20a%20propaga%C3%A7%C3%A3o%20do%20fogo
[iii] https://zap.aeiou.pt/quem-e-que-ganha-com-os-incendios-627843#:~:text=A%20ind%C3%BAstria%20da%20madeira%20tamb%C3%A9m,empresas%20que%20actuam%20nesta%20%C3%A1rea
[iv] https://zap.aeiou.pt/madeireiros-incendio-pinhal-leiria-199180#:~:text=A%20TVI%20apurou%20que%2C%20cerca,ter%20a%20madeira%20mais%20barata%E2%80%9D
[v] https://rr.pt/fotoreportagem/pais/2024/09/23/por-detras-dos-interesses-nos-incendios-sobram-teorias-da-conspiracao/394494/#:~:text=As%20empresas%20da%20celulose%2C%20entende,em%20que%20est%C3%A3o%20a%20investir
[vi] https://rr.pt/fotoreportagem/pais/2024/09/23/por-detras-dos-interesses-nos-incendios-sobram-teorias-da-conspiracao/394494/#:~:text=%C3%80%20Renascen%C3%A7a%2C%20Nik%20V%C3%B6lker%2C%20membro,caso%20de%20%E2%80%9Cvi%C3%A9s%20de%20confirma%C3%A7%C3%A3o%E2%80%9D
[vii] https://www.agroportal.pt/governo-viabiliza-construcao-de-central-fotovoltaica-em-areas-ardidas-em-ovar/#:~:text=O%20Minist%C3%A9rio%20do%20Ambiente%20reconheceu,2017%20e%202019%2C%20antes%20interditadas
[viii] https://ctxt.es/es/20170906/Politica/14827/ctxt-incendios-corrupci%C3%B3n-portugal-Avialsa-Faasa.htm#:~:text=los%20pir%C3%B3manos,20%20a%C3%B1os%20de%20concursos%20ama%C3%B1ados
[ix] https://ctxt.es/es/20170906/Politica/14827/ctxt-incendios-corrupci%C3%B3n-portugal-Avialsa-Faasa.htm#:~:text=otra%20causa%20que%20no%20sea,hacia%20otro%20lado%2C%20y%20permite
[x] https://rr.pt/fotoreportagem/pais/2024/09/23/por-detras-dos-interesses-nos-incendios-sobram-teorias-da-conspiracao/394494/#:~:text=Desde%20que%20tomou%20posse%2C%20segundo,primeiros%20quatro%20meses%20do%20ano
[xi] https://www.correiodamanhacanada.com/pcp-diz-que-dimensao-dos-incendios-e-resultado-de-cortes-e-privatizacoes/#:~:text=consequ%C3%AAncias%20que%20assistimos%E2%80%9D%2C%20criticou
[xii] https://www.correiodamanhacanada.com/pcp-diz-que-dimensao-dos-incendios-e-resultado-de-cortes-e-privatizacoes/#:~:text=%E2%80%9CQuando%20olhamos%20para%20a%20floresta,as%20consequ%C3%AAncias%20que%20assistimos%E2%80%9D%2C%20criticou
[xiii] https://www.europeandatajournalism.eu/cp_data_news/portugal-wildfires-and-the-eucalyptus-curse/#:~:text=%E2%80%9CIn%20the%201970s%20and%201980s%2C,annual%20income%20for%20the%20owners
[xiv] https://rr.pt/noticia/politica/2025/08/23/marcelo-exige-investimento-a-serio-na-prevencao-de-incendios/437176/