A mesa que o Brasil herdou: cinco pratos do cotidiano com origem portuguesa

Da feijoada ao arroz doce, receitas trazidas por colonos e imigrantes portugueses moldaram hábitos alimentares no Brasil entre os séculos XVIII e XX

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Seja na imagem do comerciante Domingos Cunha ou na fachada da casa na Rua do Acre, o Bar e Restaurante Glória, no centro do Rio de Janeiro, exemplifica a permanência da gastronomia luso-brasileira desde 1945. Foto: José Luís Figueiredo/Agencia Incomparáveis
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Pratos como a feijoada, presente em refeições familiares frequentes, o bolinho de bacalhau do bar e a canja tradicionalmente associada ao cuidado doméstico têm algo em comum: todos teriam nascido em Portugal. Pesquisas em história da alimentação indicam que o paladar brasileiro contemporâneo é fortemente influenciado pela migração portuguesa, processo que consolidou tradições à mesa e moldou o cotidiano alimentar do país.

A nossa reportagem destaca cinco pratos consumidos regularmente no dia a dia brasileiro que contam com origem direta na gastronomia portuguesa: feijoada, arroz doce, caldo verde, bolinho de bacalhau e canja de galinha.

Segundo a historiografia alimentar, a feijoada deriva dos cozidos portugueses documentados na Europa desde a Idade Média. No Brasil, a preparação incorporou ingredientes locais e ganhou forma própria ao longo dos séculos XVIII e XIX, mantendo a lógica da cocção lenta de carnes e grãos. Hoje, o modelo disponível no país integra uma grande camada de afetividade brasileira e africana.

O arroz doce preservou a estrutura básica da sobremesa tradicional portuguesa, mesmo com variações regionais.

O caldo verde, originário do Minho, no norte de Portugal, mantém a base de batata, couve e enchidos.

O bolinho de bacalhau reflete a centralidade do pescado salgado na alimentação portuguesa e tornou-se petisco recorrente no Brasil.

A canja de galinha tem origem nas sopas leves da tradição doméstica portuguesa, associadas ao consumo cotidiano.

“Degustação” luso-brasileira na cidade maravilhosa

No Rio de Janeiro, uma das principais portas de entrada da imigração lusa, essa herança permanece visível no centro da cidade. O comerciante português Domingos Cunha, natural de Póvoa de Lanhoso, região Norte do país europeu, chegou ao Brasil em 1964, aos 14 anos, integrando o fluxo migratório que trouxe mais de 400 mil portugueses ao país entre 1950 e 1970. Aos 75 anos, comanda há mais de quatro décadas o Bar e Restaurante Glória, fundado em 1945 na Rua do Acre, 6, bairro da Saúde, junto à revitalizada praça Mauá.

O estabelecimento atravessou transformações urbanas e períodos de retração económica, mas, conseguiu manter no cardápio, além de pratos mais acessíveis para o dia a dia dos trabalhadores, uma ementa que inclui bacalhau, leitão à bairrada, feijoada, por exemplo.

“A longevidade do Glória e dessas receitas reforça como a cozinha de matriz portuguesa deixou de ser estrangeira para integrar-se ao cotidiano alimentar brasileiro. É como é bom poder usar e desfrutar dessa ligação”, comentou Domingos Cunha.  ■

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