
António José Seguro, antigo líder do Partido Socialista (PS) regressado à vida política após uma década de afastamento, venceu a primeira volta das eleições presidenciais portuguesas.
Com 31,1% dos votos, o candidato socialista enfrentará na segunda volta André Ventura, líder do partido Chega, que alcançou 23,5%, uma vez que nenhum dos 11 candidatos obteve maioria absoluta, levando o país a uma segunda ronda eleitoral no próximo dia 8 de fevereiro.
Embora sem forte apoio inicial dentro do próprio partido e partindo de expectativas modestas, o socialista conseguiu impor-se como o candidato mais votado, apresentando-se agora como a alternativa moderada frente ao avanço da direita radical.
No discurso após a divulgação dos resultados, Seguro apelou à união dos democratas para “derrotar o extremismo e quem semeia o ódio”, sublinhando que entre si e Ventura “há um oceano de diferenças”.
André Ventura, por sua vez, celebrou o resultado histórico que coloca, pela primeira vez, um candidato de um partido não tradicional (PS ou PSD) com hipóteses de chegar à Presidência da República.
O líder do Chega avalia a segunda volta como uma confrontação entre “o espaço socialista e o espaço não socialista” e responsabilizou os partidos tradicionais pela situação política do país, desafiando as forças da direita a apoiarem a sua candidatura.
A primeira volta ficou também marcada pelo forte revés da direita tradicional: Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro e pelo respetivo partido do governo (PSD), obteve apenas 11,3% dos votos, ficando atrás do liberal João Cotrim de Figueiredo (15,9%) e do independente Henrique Gouveia e Melo (12,3%).
Vários analistas consideram que o resultado de Marques Mendes representa uma derrota significativa para o PSD e para o governo, que apostaram fortemente na candidatura deste candidato.
Do lado da esquerda, os candidatos derrotados Catarina Martins (Bloco de Esquerda) e Jorge Pinto (Livre) já apelaram ao voto em Seguro na segunda volta, procurando travar a ascensão da direita radical.
À direita, permanece a incerteza quanto ao posicionamento dos eleitores dos candidatos eliminados, embora nas últimas horas tenham começado a surgir figuras do PSD e da Iniciativa Liberal a sinalizar apoio a António José Seguro, por exemplo, o presidente social-democrata do município do Porto, Pedro Duarte, ou o antigo ministro do PSD Miguel Poiares Maduro.
Especialistas indicam que o confronto de 8 de fevereiro entre Seguro e Ventura simboliza duas visões opostas para o futuro do país: “de um lado, um político experiente, discreto e conciliador; do outro, um líder carismático e combativo, que tem procurado capitalizar o descontentamento social e político”.
A segunda volta de umas eleições presidenciais, que em mais de 50 anos de democracia portuguesa apenas ocorreu uma vez – no confronto entre Mário Soares e Freitas do Amaral, em 1986 -, promete ter um impacto significativo no equilíbrio institucional do país nos próximos anos.
Portugal, enquanto república semipresidencialista, confere ao inquilino do Palácio de Belém, residência oficial do presidente da República, poderes relevantes para, por exemplo, dissolver o Parlamento, convocar eleições, vetar leis ou assumir o cargo de chefe supremo das Forças Armadas. ■




