Chico Pedrosa, cordelista brasileiro, recorda trabalho que conquistou os palcos portugueses

Do sertão brasileiro ao palco europeu, o mestre da poesia popular reafirma, em entrevista, um percurso de oito décadas marcado por livros, recitais e reconhecimento institucional

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Chico Pedrosa participou na Fliporto 2025, em Recife, a convite da editora IMEPH. Foto: Agência Incomparáveis
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A nossa entrevista a Chico Pedrosa, nome artístico de Francisco Pedrosa Galvão, confirma a dimensão histórica de um dos maiores representantes da poesia popular e da literatura de cordel no Brasil. Nascido na Paraíba, a 14 de março de 1936, com raízes em Guarabira, o poeta construiu ao longo de quase nove décadas uma obra que se confunde com a própria memória cultural do Nordeste. Radicado há décadas entre Recife e Olinda, tornou-se uma referência viva da palavra dita, cantada e impressa em folhetos que continuam a circular entre palcos, feiras e festivais literários.

O reconhecimento institucional acompanha esse percurso. Em 2022, Chico Pedrosa recebeu o título de Cidadão Pernambucano atribuído pela Assembleia Legislativa de Pernambuco, distinção que formalizou a ligação profunda entre o autor e o Estado onde consolidou a sua carreira. Nos anos seguintes, o seu nome manteve-se central na agenda cultural nordestina, com homenagens sucessivas em eventos de grande projeção, entre os quais a Fliporto Cordel 2025 e a Bienal do Livro de Pernambuco, espaços onde o cordel voltou a ocupar lugar de destaque no diálogo com novos públicos. Andanças que contam com o apoio da editora IMEPH, liderada por Lucinda Marques.

Durante a entrevista, o poeta recordou uma das obras mais conhecidas do seu repertório, “Briga na Procissão”, também conhecida como “Jesus na Cadeia”, poema que atravessou gerações e ultrapassou fronteiras.

“Não é um livro grande, é um poema”, explicou, ao lembrar que o texto ganhou adaptação teatral em Portugal, sendo apresentado em Setúbal e em Lisboa, em 2009. Segundo Chico, o convite partiu de produtores portugueses, que o contactaram para autorização formal da montagem.

“Achei bom aquilo, porque a gente trabalha para isso”, afirmou, sublinhando a importância do reconhecimento do trabalho autoral fora do Brasil.

“vazio informativo nas zonas rurais do Nordeste”

A ligação a Portugal não se limita a essa experiência teatral. Chico Pedrosa destacou a circulação dos seus livros no país através da IMEPH, editora com a qual mantém colaboração regular e que esteve presente na Fliporto 2025 com títulos do autor expostos ao público.

“O convite da IMEPH é sempre um prazer enorme. A gente participa desses eventos com alegria”, disse.

Com uma carreira que o próprio estima em cerca de 80 anos de atividade, o poeta mantém uma leitura clara sobre o papel histórico do cordel. Ao explicar o género para públicos que não cresceram nesse universo, lembrou que, nas décadas de 1950 e 1960, o cordel funcionava como “o jornal do sertão”. As histórias impressas relatavam acontecimentos, conflitos e notícias que circulavam oralmente e em papel, preenchendo um vazio informativo nas zonas rurais do Nordeste. Essa função social, conforme defende, ajuda a compreender a permanência do cordel como forma de comunicação e memória coletiva.

Questionado sobre a relação cultural entre Brasil e Portugal, Chico Pedrosa falou em continuidade linguística e afetiva.

“De lá veio o nosso idioma”, afirmou, acrescentando que participar em eventos portugueses representa sempre um gesto de reconhecimento dessa herança comum. Entre as referências culturais portuguesas que mais aprecia, destacou o fado, género musical que descreveu como marcante pela carga emocional e pela capacidade de criar identificação imediata.

Aos 89 anos, o poeta mantém uma rotina ativa. Em março de 2025, celebrou mais um aniversário com recitais em Recife, reforçando o estatuto de baluarte da poesia viva. Na entrevista, definiu-se como cordelista, escritor, declamador e poeta, funções que se acumulam numa trajetória construída na oralidade e no livro, no palco e na feira, sempre em contacto direto com o público.

A conversa encerrou-se com um tom de gratidão e continuidade. Chico Pedrosa permanece em cena, não como memória do passado, mas como presença ativa num campo literário que encontra no cordel uma das suas expressões mais consistentes. A sua obra, reconhecida por instituições, festivais e leitores em ambos os lados do Atlântico, confirma que a poesia popular segue viva, em movimento e com voz própria no espaço lusófono.

Para Lucinda Marques, Chico Pedrosa é um dos grandes nomes do cordel nordestino, ajudando a promover a língua portuguesa, a cultura brasileira.

“O Chico Pedrosa está na lista de autores da IMEPH pela qualidade da sua obra, pela sua história, pela sua forma de espalhar conhecimento e literatura através das letras”, finalizou Lucinda Marques.  ■

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