Especialista considera “resiliência e vulnerabilidade” pontos centrais na saúde mental dos imigrantes em Portugal

Prof.ª Doutora Thabata Telles revela experiência com a imigração através de consultas online da EME Saúde, com sede no Porto; profissional brasileira, a residir em Portugal há seis anos, expõe desafios culturais, emocionais e identitários vividos por migrantes

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Prof.ª Doutora Thabata Telles, psicóloga com atuação na área clínica. Foto: divulgação
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A realização de consultas psicológicas online tem vindo a afirmar-se como uma resposta concreta às necessidades de saúde mental das comunidades emigrantes, particularmente num contexto marcado por mobilidade, instabilidade e afastamento das redes de apoio tradicionais. 

Em Portugal, este cenário não é diferente. No âmbito da EME Saúde, localizada no Porto, a Prof.ª Doutora Thabata Telles acompanha pessoas em diferentes fases do percurso migratório, cruzando a prática clínica com uma leitura culturalmente informada do sofrimento psicológico. Esta especialista sublinha que, “de modo geral, considero que a saúde mental dos imigrantes em Portugal caracteriza-se por uma combinação de resiliência e vulnerabilidade”, num cenário em que a adaptação a novos códigos sociais, linguísticos e profissionais convive com sentimentos persistentes de solidão e desenraizamento.

Em entrevista à nossa reportagem, Thabata Telles emerge a ideia de que emigrar é um processo que ultrapassa a dimensão geográfica e administrativa, envolvendo perdas profundas nem sempre reconhecidas por quem as vive. “Emigrar não envolve apenas mudar de país, mas também lidar com perdas afetivas, culturais e simbólicas”, afirma, apontando para a existência de um luto migratório que atravessa identidades, expetativas e pertenças. A partir da sua experiência em psicopatologia cultural e da prática de consultas online, Thabata Telles analisa como as diferenças culturais moldam a expressão do sofrimento, influenciam diagnósticos e exigem uma escuta clínica ajustada, capaz de distinguir entre patologia e respostas humanas a contextos de transição prolongada.

Tendo por base o trabalho desenvolvido no âmbito da EME Saúde, como é que a Prof.ª Doutora Thabata Telles identifica as principais dificuldades psicológicas enfrentadas por emigrantes que recorrem a consultas online, sobretudo no que respeita à adaptação cultural e ao sentimento de pertença em contextos sociais distintos?

Atendo diferentes perfis de pessoas migrantes. Há aqueles que emigram a partir de uma decisão planeada e aqueles que estão em situação de vulnerabilidade extrema e não tiveram tempo para elaborar este tipo de decisão, a exemplo de refugiados e requerentes de asilo e proteção internacional. Neste sentido, as dores entre estes grupos são bem diferentes, apesar de, em comum, enfrentarem um terreno desconhecido e um processo necessário de adaptação cultural. Muitos referem sentimentos persistentes de não-pertença, mesmo após anos no país de acolhimento, o que gera conflitos identitários e uma sensação de estar “entre dois mundos”. Emigrar não envolve apenas mudar de país, mas também lidar com perdas afetivas, culturais e simbólicas. Há um luto migratório com necessárias ressignificações que nem sempre é reconhecido por quem vive. Percebo que parte das dificuldades enfrentadas por migrantes estão ligadas a um tipo de solidão peculiar. A adaptação cultural não é um processo linear, pois envolve, além das perdas já referidas, a apropriação de outra língua e formas de se comunicar, uma reelaboração das redes de apoio, uma apropriação dos códigos culturais implícitos etc. E todos estes campos se desenvolvem em tempo e modo específicos a partir de cada personalidade e história de vida, com impacto significativo na saúde mental. Por mais que possamos ajudar, o processo será enfrentado única e exclusivamente por quem o vive. Em contexto de consulta online, os pacientes curiosamente nem sempre percebem estes fenómenos de forma direta. Queixam-se inicialmente da dificuldade de encontrar trabalho, de se relacionar, da má qualidade do sono ou stress, por exemplo, e depois, ao longo das sessões, encontramos que o cerne da questão está em outros aspectos – não raramente a questão da solidão, o sentimento de não-pertença e as dificuldades na adaptação cultural.

Na sua experiência clínica, de que forma as diferenças culturais influenciam a manifestação de perturbações de humor, como ansiedade e depressão, entre emigrantes, e que especificidades este público-alvo apresenta quando comparado com pacientes residentes no país de origem?

Por acaso este é um tema que gosto bastante. A área de psicopatologia cultural foi foco do meu mestrado, realizado na Universidade de Fortaleza, no Brasil, mas contou com um curto período de aprimoramento no Departamento de Psiquiatria Cultural na Universidade de McGill, no Canadá. Tive a honra de estudar com grandes nomes: o Prof. Dr. Lawrence Kirmayer e seus colaboradores, no Canadá, e a Profa. Dra. Virginia Moreira, no Brasil, e que até hoje colabora com o Departamento de Global Mental Health, em Harvard. A partir destes estudos, entendo que há desde sintomatologias diferentes para uma mesma perturbação (ou seja, pessoas que possuem um quadro de depressão ou ansiedade, por exemplo, mas com diferentes sintomas devido a diferentes culturas) até fenómenos que só existem em determinado grupo ou que só fazem sentido em determinada cultura ou religião, mas que podem ser facilmente diagnosticadas como um transtorno por nós, se não tivermos um olhar mais atento – os casos de stress pós-traumático são um bom exemplo disso, pois há na literatura erros de diagnóstico devido à má compreensão de vivências culturais distintas. Por isso é tão importante que o psicólogo que trabalhe com este público tenha um bom know-how na área. Além disso, queixas como cansaço, irritabilidade, má qualidade do sono e dificuldades de concentração podem ser facilmente associadas a uma perturbação mental quando às vezes são respostas pontuais a uma situação que pode ser considerada de modo não-patológico. Em alguns casos, diagnostica-se um transtorno e sugere-se encaminhamento para a toma de medicação; já em outros, sessões de psicoeducação e mudanças comportamentais são bastante eficazes. Nem todo sofrimento é sinónimo de patologia ou transtorno. É necessária ainda uma boa compreensão da experiência vivida destas pessoas, que podem apresentar maior autocobrança, medo do fracasso e uma necessidade intensa de corresponder às expectativas familiares e sociais associadas ao projeto migratório, além das próprias expectativas pessoais. Pode existir ainda certa tendência para a normalização do sofrimento — como se o mal-estar fosse “o preço a pagar” pela emigração — o que pode atrasar a procura de ajuda psicológica e aprofundar quadros depressivos ou ansiosos, dentre outros.

Que desafios adicionais surgem na prática da psicologia online com populações emigrantes, nomeadamente ao nível da comunicação, da leitura do contexto emocional e da construção da relação terapêutica à distância?

Isso também varia bastante. Atendo desde falantes de língua portuguesa, como portugueses, brasileiros, angolanos e cabo-verdianos a nativos de língua inglesa, francesa, espanhola, como também pessoas que não possuem estes idiomas como nativos, mas que conseguem se comunicar em alguma delas, e trabalho ainda com auxílio de intérpretes especializados no caso de outras línguas. Neste sentido, encontramos desde brasileiros que já são muito habituados a expressar suas emoções em contexto de psicoterapia, como oriundos de comunidades autóctones que demoram a perceber como este processo funciona, pois sequer sabem que existe a figura do psicólogo. O principal desafio no contexto online é, sem dúvida, criar um espaço de escuta seguro e acolhedor à distância, para que possamos criar um forte vínculo terapêutico. A ausência do espaço físico partilhado exige uma escuta ainda mais atenta aos detalhes da comunicação verbal, ao ritmo da fala e às pausas, que muitas vezes revelam conteúdos emocionalmente significativos. Além disso, fatores como diferenças de fuso horário, condições habitacionais precárias ou falta de privacidade podem interferir no setting terapêutico. Por outro lado, os atendimentos online tornam mais possível que o paciente encontre um profissional que possa validar a sua experiência migratória, compreendendo-a de forma empática, autêntica e sem julgamentos. Muitas das vezes, eles não conseguirão encontrar este tipo de escuta especializada no local onde estão a viver.

Como avalia o impacto do sedentarismo, da inatividade física e das exigências profissionais associadas à emigração na saúde mental dos pacientes que acompanha através da EME Saúde, e que estratégias têm revelado maior eficácia neste contexto?

O sedentarismo e a inatividade física consistem em um grande problema de saúde pública atual e que merece atenção em toda a população. Estes são pontos fulcrais porque o corpo em movimento e em contato com o ambiente e os outros, seja em contexto de trabalho ou de lazer, é das ferramentas mais potentes para nossa inserção e adaptação em um novo contexto, além de ótimas ferramentas para a criação de rotinas. Por isso, tento trabalhar este aspecto desde as primeiras consultas. Inserir boas doses de movimento no dia-a-dia ajuda a estabelecer uma rotina mais saudável, melhora o sono e o humor, auxilia na concentração e no gerenciamento do stress e ainda pode ajudar a se vincular com o novo ambiente e as pessoas à volta. Qual a melhor forma de se conhecer uma cidade ou bairro novo? Andando. Qual a melhor forma de conhecer pessoas? Convivendo com elas. Também, gosto bastante de prescrever arte, seja como forma de vinculação à cultura de origem ou como importante ferramenta de adaptação cultural no local de morada. Além disso, engajar-se em grupos musicais, de dança ou teatro, por exemplo, pode ser outro recurso para se movimentar, cuidar da rotina, conhecer pessoas e estabelecer vínculos.

De que modo a sua formação em psicopatologia cultural e a abordagem humanista-fenomenológica contribuem para uma resposta clínica mais ajustada às necessidades específicas dos emigrantes, particularmente daqueles que vivem processos prolongados de transição identitária e pressão de adaptação social?

A formação em psicopatologia cultural permite-me compreender o sofrimento psicológico não apenas como um fenómeno individual, mas como uma experiência profundamente influenciada por contextos sociais, culturais e históricos. Aliada à abordagem humanista-fenomenológica, esta perspectiva possibilita uma escuta centrada no significado que o próprio paciente atribui à sua vivência migratória, compreendendo o sofrimento para além dos sintomas. Sem dúvidas tanto a psicopatologia cultural como a perspectiva humanista-fenomenológica são eixos basilares e me permitem uma leitura mais individualizada e acolhedora de cada caso, mas incluiria ainda a parte da cognição e das neurociências. O conhecimento dos processos cognitivos básicos e dos avanços mais recentes na área das neurociências me permite intervenções mais concretas e de psicoeducação, a exemplo das relações corpo-mente-ambiente, dos processos perceptivos, dos mecanismos de atenção e memória, dentre outros.

Pode explicar como surgiu a oportunidade de atuar junto da EME Saúde, sobretudo com o perfil de atendimento a emigrantes?

Este projeto realizado conjuntamente com a EME Saúde surgiu de forma natural, na convergência entre a minha experiência clínica, meu percurso académico, o interesse pelo trabalho com populações em mobilidade e a crescente procura por acompanhamento psicológico online por parte de migrantes. A EME Saúde apresenta um modelo de cuidado que reconhece as especificidades desta população e valoriza uma abordagem ética, humanizada e culturalmente sensível, alinhada com a forma como entendo e exerço a psicologia.

Quais os principais desafios encontrados na sua atividade?

Primeiramente, o financeiro. São pessoas em situação de vulnerabilidade emocional, que às vezes conseguem trabalhar e custear as despesas da psicoterapia, mas em muitos casos dependem de auxílios, seja de parentes, entidades não-governamentais, subsídios ou financiamentos de projetos. Depois, é preciso entender de geopolítica, porque em muitos casos isso muda bastante a compreensão do processo. Não se trata apenas de atender em um idioma ou outro, mas de poder ter a capacidade de enxergar nas entrelinhas, o não-dito que muitas vezes marca uma cultura e faz toda a diferença em uma experiência vivida. A prática online exige também uma atenção constante à qualidade do vínculo terapêutico e à manutenção de um setting clínico consistente, apesar da distância física. Ainda, acompanhar histórias complexas, marcadas por mudanças profundas, solidão e pressão por adaptação, sem perder de vista a singularidade de cada pessoa, exige de nós importantes estratégias de autocuidado para estarmos aptos a oferecer um serviço de qualidade.

Como caracteriza a saúde mental/emocional dos emigrantes em Portugal?

Somos seres mundanos e gregários, ou seja, muito mais ligados ao mundo e às pessoas ao nosso redor do que por vezes imaginamos. Dito isto, enfrentamos em Portugal (e diria no restante do mundo) um cenário de incerteza, com instabilidade económica, política e nas relações interpessoais. Isto não seria diferente com as pessoas migrantes. De modo geral, considero que a saúde mental dos imigrantes em Portugal caracteriza-se por uma combinação de resiliência e vulnerabilidade. Muitos demonstram grande capacidade de adaptação, mas vivem sob elevados níveis de stress, ansiedade e solidão emocional. Questões como precariedade laboral, discriminação (mesmo quando sutil), dificuldades linguísticas e afastamento da rede de apoio contribuem para o agravamento do sofrimento psicológico. Ainda assim, quando têm acesso a acompanhamento psicológico adequado, é possível promover maior equilíbrio emocional, integração da experiência migratória e fortalecimento pessoal.

Por fim, quem é Thabata Telles?

As minhas áreas de intervenção são Adaptação Cultural, Alta Performance, Perturbações de Humor (ansiedade, depressão), Psicologia do Desporto, Reabilitação Psicológica de Atletas Lesionados, Saúde Mental em Diferentes Culturas e Sedentarismo e Inatividade Física.

Sou psicóloga com sólida formação académica e uma vasta experiência na área clínica. Licenciada em Psicologia desde 2009, especializei-me em psicologia clínica, tendo aprofundado os meus estudos com um mestrado em psicopatologia cultural, concluído em 2012. Em 2018, obtive o doutoramento em Psicologia, com destaque para o período de investigação em Fenomenologia nos Arquivos Husserl, em Paris. Complementando a minha formação, realizei um pós-doutoramento em Educação Física e Desporto.

Com abordagem humanista-fenomenológica, sou psicoterapeuta e atuo também no campo da psicologia do desporto. Membro ativa de organizações internacionais e nacionais, como a European Federation of Sport Psychology (FEPSAC) e a Sociedade Portuguesa de Psicologia do Desporto (SPPD). Além disso, colaboro como conselheira na Associação UAI e na área de comportamento no projeto Olhar Brasileiro.

Sou fluente em português, inglês e francês, o que facilita o acompanhamento de uma diversidade de pacientes, promovendo uma comunicação eficaz e personalizada.  ■

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