Neurocientista português alerta para risco de vírus Nipah em Portugal devido a fluxos migratórios e turísticos

Fabiano de Abreu enfatizou a necessidade de reforçar a vigilância epidemiológica em Portugal face ao vírus Nipah, uma infeção emergente com elevada taxa de letalidade, num contexto de surtos recentes na Índia e de aumento dos fluxos migratórios e turísticos provenientes de regiões endémicas

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Fabiano de Abreu é pós-doutorado em Neurociências pela Universidade da Califórnia e membro da Society for Neuroscience (SFN) e da Sigma Xi. Foto: divulgação
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Em declarações à MF Press Global, o neurocientista português Fabiano de Abreu alertou que a localização geográfica de Portugal e a sua abertura demográfica aumentam a exposição a agentes infecciosos emergentes, como o vírus Nipah (NiV). 

Segundo o especialista, a introdução do vírus pode ocorrer através de viajantes ou migrantes assintomáticos provenientes de zonas endémicas, nomeadamente do sul e do sudeste da Ásia, apesar de o risco de introdução do vírus ser atualmente considerado baixo pelas autoridades internacionais.

O vírus Nipah é transmitido principalmente por morcegos frugívoros, podendo também ocorrer transmissão interpessoal através do contacto próximo com fluidos corporais infetados. 

Nos últimos dias, autoridades indianas confirmaram novos casos em Bengala Ocidental, incluindo entre profissionais de saúde, levando vários países asiáticos a reforçar os controlos sanitários em aeroportos, já que a taxa de letalidade do NiV pode atingir os 75%, tornando-o uma das infeções virais mais mortais conhecidas.

O especialista destacou ainda o impacto particularmente grave do vírus no sistema nervoso central: o NiV consegue atravessar a barreira hematoencefálica utilizando células do sistema imunitário, infetando neurónios e células da glia e provocando encefalite aguda e inflamação severa. 

Entre os sobreviventes, são frequentes sequelas neurológicas e neuropsiquiátricas persistentes, como défices cognitivos, ansiedade, depressão e perturbação de stress pós-traumático, com forte impacto na qualidade de vida e reintegração social.

A heterogeneidade clínica da infeção, que pode variar entre quadros assintomáticos e encefalite fulminante, dificulta o diagnóstico e o controlo da doença, sendo que fatores como a virulência da estirpe, a resposta imunitária individual e a presença de comorbilidades influenciam a evolução clínica.

O vírus Nipah integra a lista de prioridades da Organização Mundial da Saúde como ameaça emergente com potencial pandémico, reforçando a necessidade de uma resposta coordenada a nível nacional e global.

Atualmente, não existe tratamento antiviral específico nem vacina aprovada contra o vírus Nipah, o que leva o neurocientista, perante este cenário, a defender uma articulação mais estreita entre a comunidade científica e os sistemas de saúde, incluindo vigilância reforçada em portos e aeroportos, desenvolvimento de estratégias diagnósticas e preventivas e acompanhamento multidisciplinar a longo prazo dos sobreviventes.  ■

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