Barómetro da Lusofonia: saúde, educação e desemprego são as principais preocupações dos cidadãos da CPLP

Num retrato inédito das prioridades sociais, perceções e vínculos simbólicos no espaço lusófono, o primeiro Barómetro da Lusofonia mostra que a saúde é a maior preocupação dos cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, seguida da educação e do desemprego

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Barómetro da Lusofonia contou com o apoio institucional da CPLP e de várias entidades académicas, culturais e diplomáticas. Foto: divulgação
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O Barómetro da Lusofonia, coordenado pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Económicas (IPESPE) do Brasil, foi lançado, dia 28 de janeiro, na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Lisboa, no âmbito das comemorações do 30.º aniversário da organização.

O Barómetro da Lusofonia é realizado pelo IPESPE, sob coordenação do professor Antonio Lavareda, tendo como principais objetivos “analisar e ampliar o conhecimento mútuo entre os países de língua portuguesa”.

Lançamento oficial e contributos académicos

O lançamento do Barómetro da Lusofonia integrou um programa formal de apresentação técnica e académica, sublinhando o carácter científico do estudo e a diversidade dos temas abordados. 

A sessão iniciou-se com receção e credenciamento, seguindo-se a abertura oficial com palavras de boas-vindas da secretária executiva da CPLP, embaixadora Maria de Fátima Jardim, bem como intervenções do representante permanente do Brasil junto da CPLP, embaixador Juliano Nascimento, e do representante da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) e da Universidade de Coimbra, professor João Nuno.

A apresentação geral sobre a conceção e os objetivos do Barómetro foi realizada pelo coordenador do estudo, professor Antonio Lavareda (IPESPE), seguida de uma explicação detalhada da metodologia e do questionário pela investigadora Marcela Montenegro (IPESPE).

A investigadora professora Edalina Rodrigues Sanches, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, abordou o tema “A vida nos países lusófonos: valores, fake news, voto e democracia”, aprofundando a forma como perceções sociais e desafios contemporâneos se refletem nos dados recolhidos. 

A temática das interações culturais e sociais no universo lusófono foi discutida pelo professor João Nuno, da Universidade de Coimbra e da AULP.

No final da sessão, o professor Marcelo Pimentel (IPESPE/Unitau) apresentou os próximos passos do Barómetro da Lusofonia, delineando o plano de disseminação dos dados e as atividades futuras. 

O encontro incluiu ainda um espaço aberto para manifestações dos presentes e terminou com um coquetel de encerramento.

Presente no evento, o presidente da Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais (Funcex), Antônio Carlos da Silveira Pinheiro, sublinhou à nossa reportagem que a iniciativa é “excelente” e que a apresentação do estudo ganha especial relevância uma vez que “a equipa e as instituições realizadoras são de notório conhecimento”.

“O que de fato chama a atenção é que há necessidade de realizar novas sequenciais de sondagens para ratificar ou não os primeiros resultados apresentados e ampliar o escopo das sondagens para um melhor conhecimento da geopolítica e geoeconomia desse Bloco. Todos os dados poderão auxiliar o trabalho da Funcex. O inteligente é apreender com a melhor experiência de terceiros”, reforçou este responsável, que explicou que “cabe sempre, por outro lado, aprimorar para assegurar a qualidade e a propriedade dos dados apurados, o que deve ocorrer tendo em conta a qualidade de todos os envolvidos”.

Intervenções institucionais

Na intervenção de abertura, a embaixadora Maria de Fátima Jardim considerou que o Barómetro da Lusofonia constitui um instrumento de grande valor estratégico, permitindo auscultar de forma sistemática prioridades, inquietações e expectativas das sociedades lusófonas.

Segundo a secretária executiva da CPLP, os indicadores apresentados fortalecem a oportunidade de programar o progresso e a cooperação, contribuindo para melhorar os debates e a ação multilateral concertada da organização.

O representante permanente do Brasil junto da CPLP sublinhou a qualidade do estudo, destacando o envolvimento de equipas nos Estados-membros e o valor inestimável do conteúdo, que retrata pela primeira vez este tipo de perceções de forma comparada.

Por seu lado, o coordenador do Barómetro da Lusofonia, professor Antonio Lavareda, salientou que os dados confirmam que a CPLP dispõe de um ativo político e simbólico de grande relevância, com uma legitimidade social ampla e reconhecida pelas populações nacionais de contextos muito distintos. 

Mais tarde, em declarações exclusivas à Agência Incomparáveis, António Lavareda sublinhou que a iniciativa ultrapassa o modelo clássico de pesquisa de opinião, assumindo-se como um instrumento estratégico de integração no espaço da língua portuguesa. 

Segundo o investigador, o principal objetivo do projeto é “ajudar a integrar ainda mais os países de língua portuguesa”, num contexto marcado por realidades geográficas, sociais e económicas muito distintas.

Lavareda destacou que, apesar de os países lusófonos não partilharem fronteiras físicas, existe um capital político, cultural e simbólico relevante que pode e deve ser mobilizado para reforçar a cooperação multilateral no âmbito da CPLP. 

Nesse sentido, evocou Fernando Pessoa para sintetizar a centralidade do idioma comum, afirmando que “a pátria nossa é a língua portuguesa”, entendida como um espaço simbólico de pertença que facilita o intercâmbio cultural, social, institucional e económico entre os Estados-Membros.

Lavareda conclui sublinhando que o Barómetro da Lusofonia introduz uma dimensão inovadora ao analisar não apenas as preocupações internas das populações, mas também o grau de conhecimento, interesse e perceção que os cidadãos têm uns dos outros. 

Resultados por país

O estudo inédito resulta de um inquérito realizado a 5.400 pessoas de oito países de língua portuguesa – tendo a Guiné Equatorial ficado de fora desta primeira edição – e propõe um retrato inovador das preocupações, aspirações e vínculos simbólicos das sociedades que partilham a língua portuguesa.

O retrato traçado pelo Barómetro da Lusofonia evidencia diferenças significativas entre países, demonstrando como as prioridades sociais variam em função dos contextos nacionais. 

Ainda assim, sobressaem preocupações transversais, com destaque para a pressão sobre os sistemas de saúde (53% do total dos inquiridos), os desafios educativos (43%) e as dificuldades no acesso ao emprego (34%) em várias geografias da lusofonia.

A investigação assentou numa metodologia quantitativa híbrida, combinando entrevistas presenciais, telefónicas e online, e revela não apenas desafios estruturais comuns, mas também dimensões culturais partilhadas, como a imigração e o futebol, entendidos como elementos de ligação social e simbólica entre os países da CPLP.

Portugal

Em Portugal, a saúde ocupa o primeiro lugar no ranking das preocupações, sendo mencionada por 55% dos inquiridos, refletindo a perceção de fragilidades no Serviço Nacional de Saúde. A educação surge em segundo plano, associada à qualidade do ensino e às condições das escolas, enquanto a economia e o desemprego apresentam uma expressão mais reduzida quando comparados com outros países da CPLP, embora continuem presentes no debate público.

Brasil

No Brasil, a saúde lidera igualmente as preocupações, com 45% das respostas, seguida da educação. O estudo destaca ainda a relevância da violência, que assume uma dimensão significativa no retrato do país e o diferencia de outros membros da CPLP, enquanto o desemprego, apesar de relevante, surge atrás destas áreas.

Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP)

Nos PALOP, o barómetro identifica contextos marcados por maiores vulnerabilidades sociais.

A Guiné-Bissau destaca-se pelos níveis mais elevados de preocupação com a saúde (85%) e a educação (78%) em todo o universo analisado, refletindo fragilidades profundas na resposta do Estado em áreas básicas.

Em São Tomé e Príncipe, as questões relacionadas com a saúde lideram as preocupações, com 48% das referências dos inquiridos, enquanto o desemprego e a educação ocupam, respetivamente, o segundo e o terceiro lugar.

Em Moçambique, a educação surge como a principal prioridade (35%), acompanhada por inquietações relacionadas com o desemprego e a evolução económica. Angola apresenta um perfil semelhante, embora com incidência particularmente elevada das preocupações educativas (53%) e do acesso ao emprego (45%), ambas acima da média registada no conjunto dos países estudados.

Em Cabo Verde, o desemprego lidera claramente as prioridades (60%), seguido da saúde, com a violência a assumir um peso semelhante ao registado no Brasil. A inflação e o aumento do custo de vida surgem igualmente como temas relevantes, com um dos valores mais elevados entre os países analisados.

Já em Timor-Leste, a maioria dos inquiridos do país lusófono do Sudeste Asiático associa simultaneamente saúde, educação e emprego a problemas estruturais (60%), revelando uma perceção alargada de instabilidade social.

Outras áreas temáticas e sentimento de pertença

Para além das três principais preocupações, o Barómetro da Lusofonia identifica ainda temas emergentes como a inflação, as migrações, o acesso a serviços básicos e o futebol, entendido como um elemento cultural e social estruturante em vários países. 

O estudo inclui igualmente um “retrato da comunidade”, sublinhando uma perceção generalizada de pertença ao espaço lusófono, apesar das desigualdades económicas e sociais existentes entre os Estados-membros.

Segundo os responsáveis pelo barómetro, os resultados pretendem servir de base à reflexão política e académica, contribuindo para a definição de políticas públicas e estratégias de cooperação no espaço da lusofonia.

Próximos passos do Barómetro da Lusofonia

Com periodicidade bienal, os resultados do primeiro Barómetro da Lusofonia darão origem a um livro, em versões física e digital, bem como a uma base de dados aberta, que será disponibilizada a instituições de ensino e investigação ligadas à AULP. 

Está igualmente previsto um ciclo de seminários internacionais, a iniciar em Lisboa já em fevereiro e posteriormente noutros países membros.

Para além da CPLP, a iniciativa conta com o apoio do Ministério da Cultura do Brasil, da Missão do Brasil junto da CPLP, da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da Fundação Itaú, da FGV Conhecimento, da Fundação Joaquim Nabuco, da Universidade de Coimbra e de várias outras instituições académicas e culturais.  ■

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