Opinião: “A cruz que repetimos na Páscoa: você ainda precisa de um Cristo sofrendo ou já suporta um Cristo vivo?”, por Andrea Francomano

“Através de Jesus Cristo, a humanidade recebeu um dos códigos simbólicos mais poderosos já inscritos na história. E, no entanto, talvez seja também um dos mais mal compreendidos”

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Andrea Francomano, especialista em Apometria Sistémica e Mesa Radiônica Acessus. Foto: divulgação
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Essa coisa estranha acontece todos os anos na chamada temporada de Páscoa… Milhões de pessoas concentram sua atenção, emoção e imaginação no mesmo ponto narrativo: sofrimento, dor, crucificação. Reencenações públicas, filmes, rituais e discursos mantêm uma imagem que, quando repetida tantas vezes, constrói densidade psíquica e força coletiva.

Isso não é apenas religião. É a criação de uma egrégora. Uma egrégora é um campo que é nutrido e se forma por meio do pensamento repetido. Onde há repetição emocional, há condensação energética. E quando um grande número de pessoas, por séculos, é forçado a focar seu olhar no mesmo símbolo que tem sido tão denso de dor por séculos, esse símbolo deixa de ser meramente um evento histórico ou memória e assume o caráter de uma estrutura viva no inconsciente coletivo.

A questão não é a memória. Está na fixação. A crucificação – algo entendido através do prisma de um rito iniciático – foi transformada em um espetáculo periódico de sofrimento. E há uma provocação desconfortável: por que continuamos a insistir em manter Cristo pregado na cruz por quase dois mil anos?

O que era para ser uma passagem foi transformado em uma morada. Não há cruz no final da história original. Termina em superação. O ponto nunca foi o sofrimento, mas a travessia. A carne sangra, mas o espírito supera. A morte, neste caso, não é derrota: é transmutação.

Mas o que fizemos com esse código? Santificamos o sofrimento; instituímos a culpa; transformamos um ensinamento de libertação em um sistema de vigilância moral. A cruz se tornou uma sentença. Cristo, um réu eterno. E, de fato, quase instintivamente, replicamos essa rotina diariamente. Crucificamos todos os dias. Crucificamos no julgamento rápido que fazemos, na condenação alheia, na incapacidade de lidar com o erro do outro. Crucificamos quando exigimos perfeição dos pais, quando cobramos lealdade absoluta dos parceiros, quando projetamos salvadores em líderes e depois os destruímos ao primeiro sinal de falha.

E talvez, acima de tudo, nós mesmos nos crucificamos. Quanto tempo em sua própria história alguém permanece preso e repete culpa, vergonha e autocrítica como se fossem virtudes? Com que frequência se pensa que o sofrimento é evolução? Há uma espécie de aliança muda com o sofrimento que precisa ser questionada. Isso não é espiritualidade. É apego ao sofrimento. O ensinamento de Cristo aponta em uma direção diferente. Não para um salvador externo carregado com o fardo da humanidade, mas para uma centelha interna, uma inteligência viva que caminha pela experiência humana com consciência.

“Cristo” não é uma figura na história de forma alguma. É o estado no indivíduo, um estado de ser possível. Uma consciência desperta. A religião corre o risco de se tornar um sistema de manutenção da imaturidade espiritual. Alimenta-se a ideia de que alguém precisa pagar por nós, sofrer por nós, resolver por nós. Isso infantiliza o ser humano e o afasta da própria responsabilidade.

Não se trata de lembrar o sofrimento de outro — trata-se de reconhecer a própria travessia — a Páscoa, nesse sentido, deveria ser mais sobre superar a si mesmo. Não tanto ação quanto absorção. Menos culpa, mais consciência. A ressurreição não é um momento no tempo distante. É um movimento íntimo.

Toda vez que alguém interrompe esse ciclo de julgamento; cada instância em que optam pela clareza em vez da resposta reflexa; cada vez que escolhem não fazer violência, nem mesmo no fundo de suas mentes; cada vez que alguém abraça em vez de condenar outra pessoa… algo renasce. Talvez o verdadeiro escândalo não seja tanto a crucificação em si, mas o fato de ainda insistirmos nela como centro da narrativa. Porque enquanto mantemos o olhar fixo na dor, evitamos assumir o que vem depois: responsabilidade.

E responsabilidade implica maturidade. A questão que a Páscoa deixa, quando movida além do domínio do automatismo religioso, é direta e desconfortável: Você ainda precisa de um Cristo crucificado ou está pronto para viver como um Cristo consciente? A resposta não está localizada em templos; nem em encenações. Está nas escolhas mais silenciosas, aquelas que ninguém aplaude, mas que transformam a vida de dentro para fora.

Quando não é repetida, a cruz deixa de ser uma prisão. E talvez seja exatamente isso que ainda estamos evitando. Porque descer da cruz dá trabalho. ■

Andrea Francomano

Especialista em Apometria Sistémica e Mesa Radiônica Acessus

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

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