
A terapeuta e palestrante Joice Yane, de 30 anos, brasileira com nacionalidade portuguesa e mentora no portal “The ProjectJoy”, participou no primeiro dia do Congresso Metamorfose da Alma, em Lisboa, onde defendeu a necessidade de “ampliar a compreensão da realidade a partir da perceção, da intenção e de múltiplas dimensões de consciência”. A sua intervenção integrou a programação do encontro, que reuniu participantes e especialistas luso-brasileiros em torno de propostas de reflexão e desenvolvimento pessoal.
Como avalia o congresso este ano?
O congresso foi incrível. Foram dois dias muito profundos em conhecimento e reconexão. Acredito que todos os participantes tiveram uma experiência marcante para as suas vidas.
Como você avalia a sua participação?
Avalio positivamente, porque consegui transmitir as minhas ideias de forma clara e gerar debate. O ponto mais positivo foi a conexão genuína com palestrantes e alunos, que sentiram que finalmente alguém validava as suas experiências.
Quais foram os seus objetivos?
O meu objetivo era abalar as estruturas pragmáticas da nossa mente humana. Acredito que foi cumprido, pois muitos comentaram que ficaram com as suas mentes “explodindo”.

Como enquadrar o conceito de realidades paralelas no contexto da construção da realidade individual?
Primeiramente, precisamos compreender que as realidades paralelas são estruturas multidimensionais que formam o prisma daquilo que chamamos de “real”. Toda a estrutura da existência é fragmentada em partes e subpartes, formando realidades coletivas que se fragmentam várias vezes até se tornarem realidades individuais.
De que forma o “The Project Joy” aborda a manifestação da realidade a partir de múltiplas dimensões da consciência?
O “The Project Joy” aborda a manifestação da realidade, não oferecendo respostas definitivas, mas sim ferramentas lógicas e concretas para que cada pessoa organize conceitos complexos que já acontecem dentro dela, muitas vezes de forma confusa ou inconsciente. O método não é uma verdade fixa; é um sistema vivo que se adapta à experiência de cada um. O objetivo não é explicar o que é a realidade, mas dar uma linguagem clara e lógica para que a pessoa navegue pelas suas próprias camadas de consciência e, a partir daí, manifeste com mais clareza a realidade que escolhe viver.
Que fundamentos sustentam a ideia de que existem diferentes camadas ou níveis de realidade acessíveis ao indivíduo? Como explicar esse tema ao público?
Existem pistas interessantes em várias áreas, da física quântica à neurociência, passando por certas tradições filosóficas, de que a realidade pode ter diferentes camadas ou níveis. A ciência ainda não tem uma resposta unificada, mas essas pistas convidam-nos a pensar de forma mais aberta. Para o público, o melhor caminho são exemplos didáticos que respeitem a complexidade sem assustar.

Na sua perspetiva, qual é o papel da perceção e da intenção no processo de manifestação?
A perceção está associada à forma como você “recebe” uma informação. A forma como você recebe a informação dita a forma como você reage a ela. Se você não tiver consciência de como essa informação está a ser processada em você, não terá controlo sobre a sua reação e, consequentemente, irá colocar-se na frequência associada a essa resposta. Já a intenção está associada à forma como você “entrega” uma informação. E a forma como você entrega pode estar condicionada pela forma como você percebe a realidade, levando a reações inconscientes aos desafios da vida e a estados de incapacidade e vitimismo. Mas, quando você se torna consciente desses processos, desenvolve a capacidade de navegar pela vida sem se prender a bloqueios. Assim, quando perceção e intenção atuam em consciência, você não reage ao mundo: você cocria a sua experiência.
Que desafios identifica na compreensão pública de conceitos como realidades paralelas, muitas vezes associadas a abordagens não convencionais?
Os principais desafios são o ceticismo automático, que confunde “não explicado” com “falso”; a falta de referências didáticas acessíveis; o receio de que aceitar realidades paralelas desmorone a noção de verdade única; e a dificuldade em traduzir conceitos da física teórica sem perder rigor. Mas, como eu já fui cética, sei que é possível superar esses desafios com paciência e bons exemplos.
Como essa compreensão pode ajudar a nossa sociedade, a humanidade?
Esta compreensão pode libertar do medo da morte, reduzir a ansiedade e abrir espaço para viver com mais presença e coragem. Mostra que cada intenção cria uma realidade, incentivando responsabilidade, compaixão e cuidado com os outros. Também oferece um sentido para o sofrimento, entendendo cada desafio como uma camada de ilusão a ser retirada. Na sociedade, pode reduzir a violência e a competição predatória, ao reconhecer que não há “inimigos” separados. Não se trata de fuga da realidade, mas de uma expansão que permite agir com mais lucidez, menos medo e mais cooperação.

De que forma a sua intervenção procurou traduzir esses conceitos em aplicações práticas no quotidiano das pessoas?
Eu trabalho bastante com terapeutas, médiuns, médicos e professores. Por isso, a minha intervenção está focada em ajudar aqueles que já estão a aceder a outras camadas da realidade, mas não entendem por completo o que está a acontecer ou por quê. Eu faço essa gestão da parte racional da pessoa, ajudando-a a ter clareza sobre o que está a ser processado dentro dela.
Que resultados ou mudanças têm sido observados nos participantes que acompanham o seu trabalho?
O principal feedback que eu recebo é de que eles finalmente estão a conseguir entender o que está a acontecer e porquê. Consequentemente, sentem-se mais livres para explorar os seus dons e ferramentas de cura, ajudando cada vez mais pessoas.
O que espera acrescentar ao debate internacional promovido por este congresso, particularmente para o público em Lisboa?
Ao debate internacional, acrescento uma ponte prática entre a física teórica e a experiência subjetiva. Lisboa tem sido um ponto de encontro entre culturas, e o meu objetivo é oferecer uma linguagem que dialogue tanto com o cético quanto com o curioso, sem infantilizar nem dogmatizar.
Por fim, quem é Joice Yane?

Nasci no Brasil e mudei-me para Portugal aos seis anos. Vivi e trabalhei em Lisboa antes de me mudar, em 2018, para o Qatar, onde fui comissária de bordo. Criei o projeto “The ProjectJoy” em 2020 e regressei a Portugal no final de 2021. Desde 2024, dedico-me exclusivamente ao desenvolvimento da iniciativa. ■




