Opinião: “A língua portuguesa é uma mãe em parto contínuo, sempre grávida de futuro”, por João Morgado

“Os filhos e netos dos nossos emigrantes não aprenderão português apenas por saudade dos avós ou dos primos distantes, mas sim porque o português será, cada vez mais, uma língua de cultura, de ciência, diplomacia, tecnologia e negócios”

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Escritor João Morgado. Foto: Agência Incomparáveis
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No Dia Mundial da Língua Portuguesa, importa celebrá-la não como peça de museu, mas como organismo vivo. Uma língua não se conserva embalsamando-a. Pelo contrário, conserva-se falando-a, escrevendo-a, amando-a, discutindo-a, levando-a para a escola, para a ciência, para a empresa, para a poesia e para a rua.

O português cresceu por encontro, mistura, viagem, conflito, comércio, oração, canto e literatura. Em cada tempo, em cada porto, recebeu um sopro; em cada povo, ganhou uma cadência, um sotaque. No Brasil, alargou o corpo, agigantou-se. Em África, ganhou música, força e juventude; também sustentou crioulos que são memória de dor e de superação.

Mas uma língua viva evolui como uma árvore. Cresce por dentro, pelas raízes, pela seiva dos falantes; não por cirurgias plásticas decretadas em gabinetes ou grupos de alfaiates da palavra. Tampouco por expurgações ideológicas que, em nome de uma falsa virtude, levantam nuvens sobre determinados termos e querem proibir  expressões antes de as compreenderem. A língua não precisa de pretensos higienistas, precisa sim, de leitores, professores, escritores, tradutores, crianças que perguntem, emigrantes que sintam o seu apelo, e estrangeiros que nela encontrem uma chave de futuro.

Os filhos e netos dos nossos emigrantes não aprenderão português apenas por saudade dos avós ou dos primos distantes, mas sim porque o português será, cada vez mais, uma língua de cultura, de ciência, diplomacia, tecnologia e negócios. Aprendê-lo-ão quando perceberem que ele abre mercados, universidades, bibliotecas, afectos e une continentes.

Defender a língua portuguesa não é fechá-la num cofre, nem condená-la à cirurgia estética das tendências. Defender a língua portuguesa é dar-lhe mundo. É deixá-la respirar, errar, criar, recriar, renascer. A língua portuguesa é mãe porque gera; e é futuro porque ainda não acabou de nascer. ■

João Morgado

Escritor

www.joaomorgado.net 

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

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