
À medida que os dias passam, percebemos que o duplo terramoto que atingiu a Venezuela a 24 de junho de 2026 transformou-se numa das maiores catástrofes humanitárias da história recente desse país. Segundo o último balanço oficial divulgado pelo governo venezuelano, o número de vítimas mortais subiu tragicamente para quase 2000 pessoas, com mais de 10.000 feridos e estimativa dolorosa da ONU que aponta para cerca de 50.000 desaparecidos, com especial destruição na região de La Guaira e Caracas.
Atrás destes números frios e avassaladores, temos vidas humanas e milhares de histórias de vida interrompidas. Para a maioria da comunidade de portugueses e lusófonos que residem na diáspora, a distância geográfica atua como um amplificador da dor. Receber notícias de uma tragédia desta magnitude à distância gera emoções profundas de impotência, sentimentos de culpa por estarem a salvo, ansiedade severa por falta de previsibilidade e futuro, e ainda um luto complexo, muitas vezes privado dos tão necessários rituais de despedida dos entes queridos.
Como psicólogo clínico e psicoterapeuta interpessoal, defendo que, como tudo na vida, devemos partir da premissa que a vida é o que fazemos com o que nos acontece. Assim, o suporte a estas vítimas deve cruzar a eficácia da Psicoterapia Interpessoal, a visão de futuro da Psicologia Positiva (Modelo PERMA) e a resiliência intemporal da Filosofia Estóica.
Não existindo soluções para realidades duras como esta, podemos, contudo, sugerir cinco estratégias clínicas fundamentais de atuação para ajudar os enlutados a lidar com esta dor devastadora no país de acolhimento:
- Aplicar o princípio da Dicotomia do Controlo perante a impotência – virtude da sabedoria
A ansiedade severa após uma catástrofe alimenta-se do desejo de mudar o que já aconteceu. O estoicismo ensina-nos que a primeira atitude perante a crise é distinguir o que depende de nós do que não depende. Neste sentido, o sismo e a perda física estão fora do controlo do enlutado. Contudo, a forma como reagimos hoje, o cuidado com a nossa própria saúde e o apoio logístico ou financeiro que podemos enviar para os sobreviventes na Venezuela dependem inteiramente de quem pode e escolher ajudar. Direcionar a energia mental para ações tangíveis (contacto com consulados, organização de bens, envio de suporte) reduz o estado de paralisia emocional;
- Reconstruir vínculos e combater o isolamento na diáspora – foco interpessoal
Num dos modelos cientificamente validados para intervir no luto, como é a Psicoterapia Interpessoal (TIP), o luto é validado pelo sofrimento significativo devido a uma rutura drástica num vínculo fortemente importante. Na transição de papel que o estatuto de migrante exige, a dor é agravada pelo isolamento cultural no país de acolhimento. Assim, é imperativo criar, potenciar e frequentar redes de suporte social locais compostas por outros lusófonos. Procurar a comunidade com a qual nos identificamos e aumentar a frequência dessas interações. Chorar e partilhar a dor na língua materna permite uma validação emocional que nenhum outro idioma alcança, pela proximidade às experiências do desenvolvimento. O restabelecimento de contactos comunitários ajuda a preencher o vazio relacional e protege o enlutado do desenvolvimento de quadros de depressão clínica reativa. Se necessário, procurar ajuda clínica online com profissionais de saúde mental de língua materna (ex. Stoicnet.pt);
- Procurar a Temperança Emocional na aceitação gentil da dor
A virtude estóica da Temperança (ou moderação emocional) não é a supressão ou negação dos sentimentos (erro clínico comum de quem não percebe de estoicismo), mas sim no autodomínio para não ser engolido pelo desespero crónico. Isso é um treino possível através de processos de comunicação e aperfeiçoamento das narrativas do sofrimento. Quem sofre de dores crónicas ou passou por traumas agudos compreende que a dor exige ser sentida para ser processada, através da linguagem e narrativa da comunicação utilizada. Desta forma e clinicamente falando, o sofrimento inicial (o choro, o eco do choque, a tristeza profunda) é uma resposta biológica saudável e necessária para lidar com o corte súbito do vínculo. Deve-se permitir o espaço para o sofrimento, com o choro e manifestação física associada, sem o julgar ou tentar acelerar. Manifestar sofrimento e choro é parte integrante do processo saudável do luto. O acolhimento compassivo da própria dor evita o aparecimento do luto patológico ou de somatizações graves;
- Encontrar Sentido e Legado através da Psicologia Positiva
O modelo PERMA de Martin Seligman demonstra que a resiliência e o bem-estar psicológico dependem diretamente do pilar do *Significado* (Meaning). Perante quase duas mil mortes confirmadas, a mente humana procura desesperadamente uma resposta à pergunta: “Porquê?”. Mesmo que não tenhamos uma explicação lógica para a fúria da natureza, podemos escolher *o que fazer* com a memória dos que partiram. Honrar as vítimas através da virtude estóica da Justiça, significa transformar a dor num legado de valor: criar iniciativas em nome dos familiares, manter vivas as tradições que eles defendiam ou focar-se em apoiar os órfãos e desalojados da tragédia. O sofrimento transforma-se quando ganha um propósito altruísta;
- Desenhar Rituais de Despedida simbólicos à distância
Geralmente, uma das maiores barreiras ao fecho psicológico no luto migratório é a impossibilidade de estar presente nas cerimónias fúnebres e de ver o terreno onde a perda ocorreu. A nossa natureza, dados os rituais culturais simbólicos moralmente aprendidos, necessita de marcos concretos para processar a irreversibilidade da morte. Dito isto, perante os milhares de desaparecidos e a impossibilidade de viajar, nós, clínicos experientes que lidam com o sofrimento do luto humano, incentivamos a realização de memoriais simbólicos no país de acolhimento. Acender uma vela comunitária, realizar uma cerimónia ecuménica local ou criar um espaço digital de homenagem partilhada permite que a comunidade se despeça com dignidade, oferecendo uma âncora psicológica no meio do caos;
- Uma ferramenta simples que pode ajudar é criar um Diário de Resiliência no Luto
Escrever é uma ferramenta poderosa para ajudar à regulação emocional e desenvolvimento da temperança, fazendo um mapeamento do que se controla e do que não se controla. Dividindo uma folha em 2 partes, de um lado escreva tudo o que o atormenta e que não pode alterar e do outro lado, todas as pequenas ações que pode realizar hoje e nos próximos dias (ex. qualidade do meu sono esta noite, comer uma refeição nutritiva para manter as minhas forças, ligar para o meu familiar sobrevivente, fazer uma doação institucional, escrever um texto em memória de quem partiu, etc.). A regulação emocional será colocar o foco sobre a lista do lado da folha que consegue controlar. Reflicta sobre o que o seu familiar pensaria: “Se eu tivesse partido nesta catástrofe e o meu familiar estivesse vivo na diáspora, o que é que eu gostaria que ele estivesse a fazer agora? Desejava que ele se destruísse em culpa ou que vivesse com dignidade e saúde?”.
Concluindo, a tragédia deste terramoto na Venezuela, para além das já dificuldades políticas, socioeconómicas que o país atravessava, pede a nossa solidariedade e exige dos profissionais de saúde uma sensibilidade extrema, assim como uma responsabilidade corajosa aos políticos que têm poder. Unir a estrutura científica da psicologia à dignidade das virtudes estóicas é o caminho para garantir que a dor se transforme, eventualmente, em amor memorável e resiliência.
A dor e sofrimento, quando partilhada com quem nos apoia, torna sempre a vida mais leve e fluída, para dar sentido à vida. ■
Ivandro Soares Monteiro
Psicólogo Clínico & Psicoterapeuta doutorado | Professor Universitário @ICBAS
Fundador & CEO da EME & Academia de Psicoterapia Interpessoal & STOICNET – Clube dos Estóicos
Psicólogo das Organizações | Associate partner CROWE PT
https://www.linkedin.com/in/ivandrosoaresmonteiro/
*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social






