Entrevista com Nesrein El-Bakhshawangy: “O luto não admite fingimento”

Dez anos de silêncio e um livro escrito em cartas a uma amiga a morrer. Em conversa com o escritor português João Morgado, Nesrein El-Bakhshawangy fala de "Caminho Inverso", o primeiro romance que publica no Brasil, pela editora Rua do Sabão

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Nesrein El-Bakhshawagy é uma romancista, jornalista e tradutora egípcia, nascida em 1981 em Assuão . É membro da União de Escritores do Egito  e especializada em assuntos culturais, com textos publicados em vários jornais e revistas árabes de renome, como Al-Ahram, Al-Masry Al-Youm e Al-Majalla. Foto: divulgação/acervo pessoal
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Conversámos com Nesrein El-Bakhshawangy, romancista e jornalista cultural egípcia, que nos falou do livro que, em plena pandemia, escreveu contra a corrente. A memória, a ausência e o deslocamento atravessam toda a sua escrita, atenta às transformações silenciosas da vida interior e às paisagens psicológicas que moldam a identidade — e “Caminho Inverso”, o primeiro livro que publica no Brasil, não é excepção. Nasceu no confinamento e à cabeceira de um hospital.

Cartas a Iman, a amiga que lutava contra um cancro, e que não as chegou a ler. À volta desse luto foi crescendo o retrato de uma mãe em Cairo, Alexandria e Assuão, a arrastar dois filhos de escola em escola à procura de um sistema de ensino capaz. É também o livro que a trouxe de volta à escrita ao fim de dez anos de silêncio — devolvida à literatura, conta ela, por uma pergunta impiedosa do próprio filho.

O romance intitula-se “Caminho Inverso” e segue um percurso narrativo que convoca as memórias e o passado como forma de escapar ao isolamento e às pressões da pandemia. O que a levou a escolher este título?

O título é o ponto de partida de todo o conceito do livro. Estava a pensar em como, em tantos aspectos da minha vida, sigo sempre em sentido contrário: na forma como educo os meus filhos, no que espero da escola, nas opiniões que tenho sobre os mais variados assuntos e até no meu modo de olhar a vida.

O romance mergulha nos sentimentos íntimos da protagonista e nas suas angústias de mãe quanto à educação dos filhos, Yassin e Misk, e à criação de um ambiente psicológico seguro, em plena mudança das escolas e da sociedade. Dado serem culturas diferentes, como espera que os leitores brasileiros se identifiquem com esta experiência materna e com os seus pormenores mais íntimos?

Nesrein El-Bakhshawagy é uma romancista, jornalista e tradutora egípcia, nascida em 1981 em Assuão . É membro da União de Escritores do Egito  e especializada em assuntos culturais, com textos publicados em vários jornais e revistas árabes de renome, como Al-Ahram, Al-Masry Al-Youm e Al-Majalla. Foto: divulgação/acervo pessoal

A maternidade verdadeira ultrapassa as culturas; é uma das emoções mais nobres do ser humano. De uma maneira ou de outra, aquilo que vivi com os meus filhos há-de encontrar eco nas mães de qualquer sociedade. Acredito que todas as mães tiveram medo pelos filhos durante a pandemia, ou por causa dos videojogos violentos, ou das relações tóxicas — todas nós temos medos.

Os solilóquios da protagonista assentam nas cartas que escreve à amiga já falecida, Iman, recordando memórias e pormenores do quotidiano para lidar com a solidão. Que mensagem filosófica quis transmitir através deste diálogo indirecto e como vê o impacto da perda na escrita sobre a memória?

Para mim, o luto é a emoção mais verdadeira que o ser humano conhece. Um sentimento profundo que não se pode fingir como se finge o amor. Podemos fingir que amamos alguém; o luto não admite fingimento. Comecei a escrever o romance enquanto a minha amiga estava no hospital a lutar contra um cancro. Precisava imenso dela, queria muito falar com ela, e era impossível. Muitas vezes imaginei-me ao telefone com ela, a contar-lhe tudo o que me ia na cabeça. Foi daí que nasceu a ideia do livro: cartas que nunca chegaram a Iman e nunca chegarão. Creio que o impacto da perda se torna evidente na sinceridade da escrita, quando esta toca o coração do leitor.

A acção aborda as diferenças entre gerações — a relação da protagonista com a mãe, a sua posição perante os constrangimentos sociais e as zonas cinzentas. Até que ponto acha que o conflito entre a autonomia individual e as tradições sociais ultrapassa a cultura árabe e chega ao público brasileiro?

Venho de um meio conservador, em Assuão, no Alto Egipto, onde a autoridade familiar e as tradições sociais são parte essencial da identidade; talvez tenha sido isso que me levou a escrever sobre este conflito com tanta profundidade e franqueza. Creio que a tentativa do indivíduo de conquistar a sua independência sem perder o sentimento de pertença à família é uma luta humana universal, que ultrapassa as fronteiras da cultura árabe. Não sei até que ponto os contornos desse conflito serão semelhantes no Brasil, mas imagino que cada sociedade tenha a sua forma própria de tensão entre o indivíduo e o grupo — e talvez seja aí que está o verdadeiro ponto de encontro entre o leitor e o texto.

A passagem por diferentes sistemas de ensino e a procura de um ambiente que aceite a diferença ocupam um lugar central no texto. O que quis dizer sobre os desafios da educação contemporânea?

O que a protagonista queria era proporcionar aos filhos um percurso escolar estimulante e seguro, capaz de responder ao entusiasmo de duas crianças muito inteligentes e curiosas. Mas esbarra num sistema de ensino cujo objectivo é mais o lucro do que o próprio conhecimento. Assim, de cada vez que mudava os filhos de escola, era recebida por slogans publicitários a apregoar um produto de grande qualidade — e, na prática, descobria o logro.

O romance transmite pormenores muito vivos do dia a dia no Egipto — Cairo, Alexandria e Assuão —, o ambiente das ruas e dos cafés em plena pandemia de covid-19. O que espera que os leitores do Brasil descubram sobre a sociedade egípcia actual através desta tradução?

A pandemia foi um período duro para toda a gente e as reacções foram muito diferentes. Uma parte significativa da população achava que não havia nada a temer e aderiu a teorias da conspiração, mas a maioria tinha medo e não sabia o que o futuro lhe reservava. A maior parte das pessoas viveu na incerteza, e é aí que entra o romance: para deixar uma crónica social e humana do que se passou naquele tempo difícil.

Depois de um interregno na escrita, “Sentido Inverso” marcou uma viragem no seu percurso literário. O que a levou a regressar ao romance neste momento e como se foi formando a ideia do livro?

Em 2013 vivi um período de grande criatividade e escrevi três obras em simultâneo: o romance «Atr Shah», uma colectânea de contos brevíssimos intitulada «Pormenores» e um conjunto de textos com o título «Bailarina». Foram sendo publicados uns a seguir aos outros e depois parei de escrever durante dez anos, em que me entreguei por inteiro à maternidade e atravessei uma depressão. Mas uma frase do meu filho trouxe-me de volta à vida. Estava a censurá-lo por não estudar nem fazer nada de útil e ele perguntou-me: «E tu, o que é que fazes além de jogar Candy Crush no telemóvel?» Foi uma pergunta chocante, mas honesta — e foi como se, na manhã seguinte, eu tivesse nascido de novo.

A sua obra trata questões decisivas como a construção da identidade, as interrogações da maternidade, a desconstrução da memória e o confronto com a perda. De que forma estes temas se reflectem no seu percurso pessoal e criativo enquanto escritora?

Foto: divulgação/acervo pessoal

Considero “Caminho Inverso” um renascimento enquanto escritora, não só por o ter escrito depois de uma longa paragem, mas também porque mudei muito, pessoal e intelectualmente. Antes, escrevia com medo do que a minha família fosse pensar, sentia o peso da autocensura e da pressão familiar. Quando comecei «Caminho Inverso» — e, mais tarde, «Sem Deixar Rasto» —, decidi escrever com honestidade e liberdade. Libertei-me de todos os constrangimentos e ganhei a certeza de que um texto escrito com sinceridade chega ao leitor com muito mais profundidade e força.

Como vê a sua voz literária a chegar a outra língua e a uma cultura diferente, como a brasileira? Que espaço humano comum espera que os leitores estrangeiros encontrem nos seus textos?

A tradução é o sonho de qualquer criador, em qualquer lugar e em qualquer época. Quando escrevi «Caminho Inverso», alguns amigos criticaram-me e houve muitas opiniões negativas, por causa da natureza sensível do tema. Mas, no fundo, sentia que aquilo que tinha escrito merecia ser lido — ainda que nunca esperasse que o romance viesse a ter tanto êxito no mundo árabe. Quanto ao leitor brasileiro, acredito que há um espaço humano comum que nos une: a capacidade de encontrar calor humano. ■

Entrevista e texto:

João Morgado

Escritor português

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