Fundão: “5.º Arraiá Luso-Brasileiro” volta a reunir culturas e comunidades na região Centro de Portugal

Cofundadora e presidente da “Associação de Apoio Brazuca e Amigos (AABA)”, Narion Coelho antecipa a quinta edição do evento, marcada para 3 de outubro, e aborda integração, participação comunitária e presença brasileira no concelho; evento regressa ao Pavilhão Multiusos do Fundão com gastronomia, música, atividades para famílias e uma proposta centrada no convívio entre comunidades

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Membros da “Associação de Apoio Brazuca e Amigos (AABA)” afinam últimos destalhes para a festa. Foto: divulgação
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A “Associação de Apoio Brazuca e Amigos (AABA)” prepara a quinta edição do “Arraiá Luso-Brasileiro”, marcada para 3 de outubro, no Pavilhão Multiusos do Fundão, região Centro de Portugal. A iniciativa volta a reunir cultura, gastronomia, música e convívio, num evento que tem vindo a afirmar-se como “espaço de encontro entre brasileiros, portugueses e residentes de outras nacionalidades no concelho”.

Criado com o objetivo de “partilhar referências da cultura brasileira e promover a aproximação entre comunidades”, o Arraiá chega à quinta edição depois de ter reunido cerca de 800 pessoas no ano passado. A programação prevê novamente barraquinhas, gastronomia, música, atividades para famílias e uma ambientação inspirada na literatura de cordel e em elementos da cultura popular brasileira. Algumas atrações encontram-se ainda em fase de confirmação.

A organização conta com o apoio da Câmara Municipal do Fundão e da União das Freguesias de Fundão, Valverde, Donas, Aldeia de Joanes e Aldeia Nova do Cabo. Para a associação, constituída por voluntários, estas parcerias são determinantes para assegurar a realização de uma iniciativa que cresceu em público, estrutura e participação ao longo das últimas edições.

À frente da AABA está Narion Coelho, 47 anos, natural de Guarapuava, no Paraná, Brasil, cofundadora e presidente da associação. Residente no Fundão desde 2021, é formada em Educação Física e desenvolve atualmente atividade comercial no concelho, onde é responsável pelo “Empório CWB”. Em entrevista à Agência Incomparáveis, Narion Coelho explica como nasceu o “Arraiá Luso-Brasileiro”, analisa o crescimento do evento, aborda o papel da comunidade brasileira no Fundão e fala sobre o trabalho desenvolvido pela associação nas áreas da integração, apoio a migrantes e participação comunitária.

O “5.º Arraiá Luso-Brasileiro” realiza-se a 3 de outubro, no Pavilhão Multiusos do Fundão, numa altura em que o evento chega já à quinta edição. Como nasceu esta iniciativa, que percurso fez desde a primeira edição e o que explica a sua continuidade no calendário associativo da região?

O Arraiá nasceu da vontade de criar no Fundão um momento em que pudéssemos celebrar e partilhar um pouco da cultura brasileira. Mas, desde a primeira edição, nunca quisemos fazer uma festa de brasileiros apenas para brasileiros. A ideia sempre foi usar a nossa cultura como uma forma de encontro. Começámos de uma maneira muito mais simples e fomos aprendendo a cada edição. O evento foi crescendo em público, em estrutura, em número de participantes e também em reconhecimento. Na edição do ano passado, recebemos cerca de 800 pessoas, o que é muito significativo para uma associação pequena como a nossa e que funciona exclusivamente através de trabalho voluntário. Acho que chegarmos à quinta edição mostra que o Arraiá encontrou o seu espaço no Fundão. Hoje já há pessoas que perguntam quando será o próximo, expositores que querem voltar e famílias que participam em diferentes edições. E talvez o mais interessante seja perceber que ele não é frequentado apenas pela comunidade brasileira. Temos portugueses, brasileiros e pessoas de outras nacionalidades. Para mim, é exatamente isso que explica a continuidade: a cultura brasileira é o ponto de partida, mas o encontro entre pessoas é o que realmente sustenta o evento.

Cultura, gastronomia, tradições e convívio estão no centro da proposta do Arraiá, que este ano anuncia comidas típicas, barraquinhas, música ao vivo, atrações e atividades para as famílias. Que programa está já definido para esta quinta edição e que novidades poderão os visitantes encontrar em relação aos anos anteriores?

Ainda estamos a fechar algumas atrações e, por isso, prefiro não anunciar aquilo que ainda não está confirmado. Mas já podemos dizer que teremos novamente as barraquinhas, gastronomia, música, atividades e espaços de convívio para toda a família. A gastronomia é sempre uma parte muito importante do Arraiá. Além de trazer sabores que fazem parte da memória afetiva de muitos brasileiros, as barraquinhas também permitem envolver pequenos empreendedores e pessoas da própria comunidade na realização da festa. Este ano estamos dedicando uma atenção especial também à ambientação do Pavilhão Multiusos. Estamos preparando uma decoração inspirada na literatura de cordel e em elementos da cultura popular brasileira, além, claro, das tradicionais bandeirinhas. Queremos que a pessoa entre no pavilhão e imediatamente perceba que chegou a um Arraiá. Ao mesmo tempo, não queremos transformar o evento em algo excessivamente produzido e perder a espontaneidade que sempre teve. Queremos continuar com aquele ambiente em que as pessoas comem, conversam, encontram amigos, conhecem gente nova, ouvem música e ficam à vontade. A cada edição procuramos melhorar, corrigir o que não funcionou tão bem e introduzir algumas novidades, mas preservando essa essência.

Para além da componente festiva, que objetivos sociais e de integração estão associados ao Arraiá Luso-Brasileiro? De que forma um evento desta natureza pode contribuir para aproximar brasileiros e portugueses e criar espaços de participação conjunta no Fundão?

Para mim, essa é uma das partes mais importantes do Arraiá. Quando se fala em integração de migrantes, muitas vezes pensamos imediatamente em documentação, emprego, habitação ou acesso aos serviços. Tudo isso é fundamental, claro, mas integração também acontece nas relações do dia a dia. Acontece quando as pessoas têm oportunidade de sentar juntas, conversar, ouvir música, experimentar uma comida que não conheciam, descobrir uma tradição diferente ou simplesmente passar algumas horas no mesmo espaço. O Arraiá proporciona isso de uma forma muito natural. Ninguém precisa ir a uma atividade com o objetivo declarado de “se integrar”. A pessoa vai porque quer se divertir e, naquele ambiente, acaba convivendo com pessoas que talvez não encontrasse no seu círculo habitual. E há uma coisa que considero muito importante: integração não significa que quem chega precise abandonar a sua identidade para fazer parte do lugar onde vive. É possível manter e partilhar a nossa cultura e, ao mesmo tempo, conhecer, respeitar e participar da cultura local. Não queremos criar uma comunidade brasileira isolada dentro do Fundão. Queremos justamente criar pontes.

O próprio conceito “luso-brasileiro” pressupõe a participação das duas comunidades. Como caracteriza hoje a relação entre a comunidade brasileira e a população portuguesa no Fundão e na região, e de que forma os portugueses têm participado e contribuído para o crescimento deste evento?

A nossa experiência através da associação tem sido de uma convivência bastante próxima. Evidentemente, um processo migratório tem desafios e não podemos dizer que todas as pessoas têm exatamente a mesma experiência, mas encontramos no Fundão muita abertura para colaboração e para o desenvolvimento de iniciativas em conjunto. O próprio crescimento do Arraiá demonstra isso. Os portugueses não estão apenas entre o público. Ao longo das edições tivemos portugueses colaborando, participando, divulgando e contribuindo de diferentes maneiras para que o evento acontecesse. O apoio das instituições locais também faz parte dessa construção. E é justamente por isso que fazemos questão de chamar o evento de “Arraiá Luso-Brasileiro”. Não estamos tentando transportar uma festa brasileira pronta e simplesmente colocá-la dentro do Fundão. Ela nasce das nossas referências brasileiras, mas é realizada aqui, com pessoas daqui, para quem vive aqui. Depois de cinco edições, ela também já carrega um pouco da identidade que foi construindo no Fundão.

Documentos do Município do Fundão identificam a Associação de Apoio Brazuca e Amigos como uma “rede de apoio para migrantes brasileiros e de outras nacionalidades” e apontam a comunidade brasileira como “uma das mais representativas no concelho”. Que peso tem hoje esta comunidade na vida social, económica e cultural do Fundão e que contributo considera que tem dado para o desenvolvimento da região?

Hoje a presença brasileira é bastante visível no quotidiano do Fundão. Encontramos brasileiros no comércio, nos serviços, nas empresas, nas escolas, no empreendedorismo, nas atividades culturais e nas associações. Mas acho importante não olharmos para uma comunidade migrante apenas como mão de obra ou como um número numa estatística de imigração. Quando uma pessoa passa a viver aqui, ela trabalha, consome no comércio local, paga impostos, coloca os filhos na escola, participa das atividades, cria empresas, faz amizades e estabelece relações.

Foto: divulgação

Aos poucos, passa também a fazer parte da vida do território. E traz consigo experiências profissionais, conhecimentos, hábitos, gastronomia, música e referências culturais. Essa diversidade pode ser muito enriquecedora para uma região. Ao mesmo tempo, acredito que existe uma responsabilidade de quem chega. Integração é uma via de mão dupla. Não podemos chegar a Portugal esperando simplesmente reproduzir aqui a vida que tínhamos no Brasil. Precisamos conhecer o lugar onde escolhemos viver, respeitar as suas regras e costumes, relacionar-nos com as pessoas e participar da comunidade. Quando existe abertura dos dois lados, todos ganham.

A quinta edição conta com o apoio da Câmara Municipal do Fundão e da Junta de Freguesia do Fundão. O que representa este apoio institucional para a consolidação do Arraiá e quais são as expectativas da associação em termos de participação do público e de crescimento futuro da iniciativa?

Esse apoio é fundamental. A AABA é uma associação de dimensão relativamente pequena, não temos funcionários e todo o trabalho desenvolvido pela associação é voluntário. Ninguém recebe qualquer remuneração pelo trabalho que realiza na AABA. Por isso, seria muito difícil realizar um evento da dimensão que o Arraiá atingiu sem estabelecer parcerias. O apoio da Câmara Municipal do Fundão e da União das Freguesias de Fundão, Valverde, Donas, Aldeia de Joanes e Aldeia Nova do Cabo não representa apenas uma ajuda prática. Para nós, também significa o reconhecimento de que uma iniciativa que nasceu dentro da comunidade brasileira pode contribuir para a programação cultural, para o convívio e para a própria vida do concelho. Na edição anterior tivemos cerca de 800 pessoas e, naturalmente, esperamos novamente uma participação muito boa este ano. Mas eu não gostaria de medir o crescimento do Arraiá apenas pelo número de pessoas. Se conseguirmos reunir novamente brasileiros, portugueses e pessoas de outras nacionalidades, famílias inteiras, diferentes gerações, e se as pessoas saírem de lá querendo voltar na próxima edição, para nós isso já é um excelente resultado. Queremos crescer, sim, mas de maneira sustentável e compatível com a capacidade da associação. Não queremos que o Arraiá cresça tanto que perca justamente o caráter comunitário que fez com que chegasse até aqui.

Por que decidiu deixar o Brasil?

A decisão de deixar o Brasil foi sobretudo uma decisão familiar. Procurávamos uma melhor qualidade de vida, principalmente em relação à segurança, à educação e à possibilidade de termos mais tempo para a família, os amigos e o lazer. Também queríamos proporcionar aos nossos filhos uma maior diversidade de experiências. Era importante para nós que eles tivessem a oportunidade de conviver com pessoas de diferentes culturas, nacionalidades, religiões e formas de ver o mundo. Acreditamos que esse contacto amplia horizontes e é muito importante para a formação deles enquanto pessoas. Portugal surgiu dentro desse projeto de vida e acabámos por escolher o Fundão para construir essa nova etapa.

Por fim, fale um pouco sobre a existência e atividades da Associação de Apoio Brazuca e Amigos.

A AABA nasceu no Fundão a partir de uma necessidade que nós próprios percebíamos enquanto migrantes. A associação foi fundada por mim, pela Juliana e pelo meu marido, quando também estávamos construindo uma vida nova em Portugal e percebíamos como fazia diferença ter acesso à informação, conhecer pessoas e criar uma rede de apoio. Apesar do nome Associação de Apoio Brazuca e Amigos e da nossa ligação muito forte com a comunidade brasileira, nunca pretendemos ser uma associação exclusivamente para brasileiros. Procuramos apoiar também migrantes de outras nacionalidades e, sobretudo, criar pontes entre quem chega e a comunidade que já vive aqui. Ao longo dos anos fomos desenvolvendo, apoiando e participando em projetos de diferentes formas. Um exemplo é o “Bem-Vind@s à Escola! 2.0”, desenvolvido em parceria com a “Associação Aldeia dos Girassóis”. O projeto é dirigido a crianças e jovens migrantes nas escolas do concelho do Fundão e procura facilitar a sua integração no ambiente escolar. Para além do acompanhamento dos alunos, são desenvolvidas atividades que envolvem também as turmas, trabalhando questões como diversidade, empatia, não discriminação e sentimento de pertença. Também apoiámos o “WIW – Welcome Immigrant Women”, projeto desenvolvido pela Patrícia, integrante da nossa direção. A iniciativa foi pensada especialmente para mulheres imigrantes e promoveu encontros nos quais foram abordadas questões muito práticas da vida de quem chega a Portugal, como escola, saúde, serviços e apoio social. Ao mesmo tempo, procurou criar um espaço de encontro, troca de experiências e construção de uma rede de apoio entre essas mulheres. A AABA também tem sido convidada a participar das ações da “Academia A+ Integração”, projeto da associação “O Lugar Comum”. Nesses encontros, participamos como convidados, partilhando a experiência adquirida no contacto direto com a comunidade migrante. É uma oportunidade de levar para esses espaços aquilo que encontramos no dia a dia, as dificuldades que chegam até nós, as experiências que funcionaram e também a perspectiva de quem viveu o próprio processo migratório. Mais recentemente, recebemos também o convite para integrar o consórcio do “Projeto MATRIZ”, promovido pelo Centro Assistencial Cultural e Formativo do Fundão (CACFF). O projeto trabalha com crianças e jovens, procurando promover a inclusão social, a participação, o desenvolvimento de competências e a criação de oportunidades através de diferentes atividades e do envolvimento de várias entidades da comunidade.

Foto: divulgação

A AABA foi convidada a integrar o consórcio e a contribuir também a partir da sua experiência com a população migrante. Para nós, esse convite é muito significativo, porque mostra que a associação vem conquistando o seu espaço dentro da rede local e que podemos contribuir para projetos que não são dirigidos exclusivamente à comunidade brasileira ou migrante, mas que procuram responder a desafios da própria comunidade do Fundão. E temos, naturalmente, a vertente cultural e de convivência, da qual o “Arraiá Luso-Brasileiro” é hoje a iniciativa de maior dimensão e visibilidade. Acreditamos muito que cultura e lazer também são ferramentas de integração. Às vezes, uma festa, uma atividade cultural ou simplesmente um espaço onde as pessoas possam estar juntas cria relações que dificilmente surgiriam numa ação mais formal. Todo o trabalho da AABA é voluntário e procuramos trabalhar muito através de parcerias. Não precisamos ser os autores de tudo para contribuir. Podemos desenvolver uma iniciativa, apoiar uma ideia que nasce dentro da própria comunidade, ser parceiros num projeto de outra associação, partilhar a nossa experiência ou integrar uma rede com várias entidades. Para nós, o importante é perceber onde podemos ser úteis e somar ao trabalho que já existe. No fundo, a AABA procura acolher, informar, aproximar e criar oportunidades de participação. Queremos que quem chegue ao Fundão encontre apoio quando precisar, mas também que estabeleça relações, participe da vida da comunidade e, com o tempo, deixe de se sentir simplesmente alguém que veio de fora e possa sentir que também faz parte daqui. ■

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