Opinião: “Conectar também é salvar”, por Ana Poltera

“Setembro Amarelo, o poder das histórias e a conexão que pode devolver esperança”

53
Ana Poltera, empresária, mentora em Fertilidade & Identidade, criadora do Método Gerar e líder do movimento “E.L.A.S - Foram Chamadas para Gerar”. Foto: divulgação/acervo pessoal
- Publicidade -

Há pessoas pedindo ajuda sem dizer uma única palavra.

Elas continuam trabalhando, cuidando da família, cumprindo compromissos, respondendo mensagens e, muitas vezes, até sorrindo. Para quem olha de fora, parece que está tudo bem.

Mas nem sempre está.

O sofrimento emocional nem sempre faz barulho. Às vezes, ele aparece no silêncio, no isolamento, na mudança de comportamento, no cansaço emocional, na perda de esperança, na sensação de incapacidade ou naquele simples “está tudo bem” que pode esconder uma batalha inteira.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que podemos fazer a alguém não seja apenas:

“Está tudo bem?”

Mas:

“Como você está de verdade?”

É sobre isso que o Setembro Amarelo nos convida a falar. Mas essa conversa não pode terminar quando setembro acaba.

Saúde mental é assunto para janeiro, fevereiro, março e para todos os dias do ano.

Porque falar sobre saúde mental é também falar sobre prevenção, pertencimento, acolhimento e valorização da vida.

É falar sobre conexão.

Quando estar longe também pesa

Essa reflexão ganha uma dimensão ainda mais profunda quando pensamos na comunidade imigrante.

Morar em outro país pode significar a realização de um sonho, novas oportunidades e a possibilidade de construir uma nova história.

Mas existe um lado da imigração que nem sempre aparece nas fotografias.

A distância da família.

A saudade.

A solidão.

Um novo idioma.

As diferenças culturais.

A necessidade de reconstruir vínculos.

A sensação de não pertencer completamente a lugar nenhum.

E, muitas vezes, existe ainda uma pressão silenciosa: a necessidade de mostrar para quem ficou que “deu certo”.

Uma pessoa pode morar em um dos lugares mais bonitos do mundo e continuar profundamente sozinha.

Pode estar cercada de pessoas e não se sentir verdadeiramente vista.

Por isso, quando falamos sobre saúde mental entre imigrantes, precisamos falar também sobre pertencimento e conexão.

E é daí que nasce uma frase que carrega o propósito desta reflexão:

Conectar também é salvar.

Conectar é perceber.

É perguntar.

É ouvir sem julgar.

É acolher sem minimizar.

É fazer alguém perceber que sua existência importa.

Por que amarelo?

Existe uma história por trás da cor que se tornou símbolo mundial de conscientização sobre a prevenção do suicídio.

Ela está ligada a Mike Emme, um jovem de 17 anos, nos Estados Unidos. Após sua morte por suicídio, em 1994, familiares e amigos produziram mensagens em papel amarelo, acompanhadas de fitas da mesma cor, incentivando quem estivesse em sofrimento a procurar ajuda. Segundo o próprio Yellow Ribbon Suicide Prevention Program, 500 dessas mensagens foram preparadas para as cerimônias em sua memória e começaram a se espalhar.

E uma coisa nessa história é particularmente importante:

Nem sempre quem precisa de ajuda consegue encontrar as palavras para pedi-la.

Os cartões do movimento passaram justamente a funcionar como uma forma de dizer “preciso de ajuda” quando falar parecia impossível.

Talvez seja essa uma das maiores lições que podemos levar conosco.

Nós criamos a ideia de que, antes de procurar ajuda, precisamos compreender exatamente o que estamos sentindo.

Que precisamos encontrar as palavras certas.

Que precisamos conseguir falar sem chorar.

E talvez até provar que nossa dor é grave o suficiente para merecer a preocupação de alguém.

Não precisamos.

A sua dor não precisa passar por um teste para merecer cuidado.

Você não precisa esperar piorar.

Não precisa entender completamente o nó que existe dentro de você.

Às vezes, pedir ajuda começa apenas assim:

“Eu não sei explicar. Só sei que não estou bem.”

E isso já pode ser o começo de uma conversa.

O Efeito Papageno: quando uma história abre possibilidades

Existe também uma pesquisa que nos ajuda a compreender por que precisamos contar histórias de maneira responsável.

Em 2010, o pesquisador austríaco Thomas Niederkrotenthaler e seus colegas publicaram um estudo que apresentou o chamado Efeito Papageno, relacionado ao potencial protetor de narrativas que mostram pessoas enfrentando crises e encontrando formas construtivas de lidar com elas.

Isso nos ensina algo fundamental:

A maneira como contamos histórias importa.

Uma história de superação não deve ser usada para comparar dores.

Não é: “Se aquela pessoa conseguiu, você também tem obrigação de conseguir.”

É outra coisa.

É poder dizer:

“Você não é a única pessoa que já esteve em um lugar difícil. Talvez existam caminhos que hoje você ainda não consegue enxergar.”

É exatamente nesse ponto que o Efeito Papageno deixa, para mim, de ser apenas um conceito científico.

Porque eu também precisei descobrir que a minha história ainda não havia terminado.

A guerra que ninguém via

Houve um momento da minha vida em que eu estava no alto da minha cobertura e uma voz dentro de mim dizia:

“Pula, Ana. Pula.”

Ninguém via a guerra que estava acontecendo dentro de mim.

Por fora, a vida continuava.

Por dentro, eu ouvia:

“Você é uma fracassada.”

“Você não presta para nada.”

“Você não faz nada direito.”

E, durante algum tempo, eu acreditei naquela voz.

Porque por trás dela existiam vergonha, medo, culpa e uma sensação devastadora de ter falhado.

Em 2010, fui à bancarrota com uma loja de luxo, acumulando mais de um milhão em prejuízos.

Naquele momento, achei que tinha perdido tudo.

O negócio havia fracassado e, sem perceber, comecei a transformar o fracasso de uma experiência na definição da minha própria identidade.

Até que precisei compreender uma das lições mais importantes da minha vida:

Eu fracassei em algo. Mas eu não era uma fracassada.

Existe uma diferença enorme entre essas duas frases.

E foi justamente naquela queda que começou a nascer uma nova Ana.

A empresária.

A estrategista.

A palestrante.

A mulher que aprendeu a se reinventar.

Mas, principalmente, a mulher que decidiu se dar uma chance.

Em algum lugar dentro de mim, nasceu uma decisão:

“Agora eu quero viver.”

Os capítulos que eu ainda não conhecia

Naquele momento, eu não sabia tudo o que ainda existia depois daquele dia.

Hoje vejo meus filhos correndo pela casa.

Construí minha família.

Sou casada com um norueguês.

Reconstruí minha trajetória profissional e conquistei mais do que o dobro daquilo que, um dia, acreditei ter perdido.

Mas a maior conquista não cabe em números.

Eu estava aqui para viver tudo isso.

Eu só pude conhecer a mulher que me tornaria porque dei àquela Ana a oportunidade de continuar.

E é por isso que conto a minha história.

Não para romantizar a dor.

Não para dizer que todas as histórias são iguais.

Não para oferecer uma fórmula de superação.

Conto porque eu não conseguia enxergar o amanhã que hoje estou vivendo.

E talvez alguém que esteja lendo estas palavras também não consiga enxergar o seu.

É aqui que o Efeito Papageno encontra, para mim, a vida real.

Uma história compartilhada com responsabilidade pode se tornar uma ponte.

Pode chegar até alguém que acredita estar sozinho e dizer:

“Talvez a sua história também tenha capítulos que você ainda não conhece.”

Foi também dessa compreensão que nasceu o propósito do projeto “Chamadas para Gerar”.

Porque histórias conectam.

Histórias despertam esperança.

Histórias podem abrir conversas.

E uma conversa pode ser o primeiro passo de um recomeço.

Não transforme um capítulo em sentença

Talvez hoje alguma parte da sua vida pareça um fracasso.

Não transforme um capítulo em sentença.

Eu não sabia, naquela cobertura, dos meus filhos correndo pela casa.

Não sabia da família que construiria.

Não sabia da mulher que me tornaria.

Não sabia das pessoas que um dia ouviriam a minha história.

Você também não sabe tudo o que ainda poderá viver.

Por isso, talvez a pergunta não seja somente:

“O que eu perdi?”

Talvez seja:

“O que ainda pode nascer a partir de mim?”

Qual parte de você ainda quer viver?

Qual medo, culpa, vergonha ou definição sobre você mesmo precisa ficar para trás para que um novo capítulo possa começar?

Eu dei uma chance à minha história.

E descobri que ainda havia muito para viver, amar, construir e gerar.

Você ainda pode recomeçar.

Você ainda pode gerar.

E, se hoje você não consegue enxergar sozinho o próximo passo, não precisa encontrá-lo sozinho.

Peça ajuda.

Converse.

Procure alguém de confiança ou apoio profissional.

Permita que alguém caminhe ao seu lado.

Porque uma história pode encontrar outra história.

Uma conversa pode abrir uma porta.

Uma conexão pode devolver esperança.

Conectar também é salvar

É desse propósito que nasce também o Conexão Global Suíça – Edição Setembro Amarelo.

Nos dias 25, 26 e 27 de setembro, em Lausanne, palestras, Talk Shows, histórias e conexões vão criar espaços para falar sobre saúde mental, prevenção, acolhimento e valorização da vida.

Mas nosso propósito não termina no dia 27.

Queremos construir e fortalecer uma conexão que atravesse fronteiras:

Suíça. Portugal. Brasil.

Uma rede internacional capaz de aproximar pessoas, histórias, conhecimento e iniciativas, dando continuidade ao diálogo para além de setembro.

Porque saúde mental não é assunto de um mês.

Prevenção não é assunto de um mês.

Valorizar a vida não é assunto de um mês.

É um compromisso diário.

Hoje, quando olho para trás, compreendo que eu não precisava conhecer todo o caminho.

Precisava apenas ter a oportunidade de continuar.

Talvez você também ainda não consiga enxergar tudo o que existe depois do seu hoje.

Mas o capítulo que você está vivendo agora não precisa ser o último.

É por isso que Conectar Também é Salvar deixou de ser apenas o tema de um encontro.

Para mim, tornou-se uma missão.

Conectar é perceber.
Conectar é ouvir.
Conectar é acolher.
Conectar é gerar esperança.

Conectar também é salvar. ■

Ana Poltera

Empresária, mentora em Fertilidade & Identidade, criadora do Método Gerar e líder do movimento “E.L.A.S – Foram Chamadas para Gerar”

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.