Opinião: “Temos de ter a noção que a diversidade não nos enfraquece, mas sobretudo enriquece-nos”, por João Paulo Rocha

“Somos um país de partidas, onde por muitas décadas, milhares de portugueses fizeram as malas, deixaram famílias, aldeias e cidades e partiram à procura de uma vida melhor”

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João Paulo Rocha, primeiro-secretário da Federação das Associações da Diáspora (FAD)
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A força de sermos portugueses não esmorece na diáspora amplifica o sentimento de pertença a um país que continua longe daqueles que partiram. No entanto muito tem sido feito, mas muito fica aquém das expectativas, é do interesse de todos nós portugueses que a ligação umbilical das gerações de luso descendentes nunca seja cortada, pois seria uma perda identitária.

E sim existe algo que Portugal nunca soube fazer inteiramente: perceber que a sua fronteira não termina onde acaba o território nacional.

Somos um país de partidas, onde por muitas décadas, milhares de portugueses fizeram as malas, deixaram famílias, aldeias e cidades e partiram à procura de uma vida melhor.

Foram para França, para a Alemanha, para a Suíça, para o Luxemburgo, para o Brasil, para a Venezuela, para a África do Sul, para o Canadá, para os Estados Unidos e para tantos outros lugares por este mundo fora.

A verdade é que os portugueses são como uma semente esvoaçando ao vento, que criam raízes onde pousarão.

Milhares de mulheres e de Homens partiram com saudades antes mesmo de saberem o que era viver longe.

Levaram pouco muito pouco na bagagem, mas sobretudo levaram muito dentro de si.

Levaram a língua, os costumes, as tradições, o fado, as receitas das mães e avôs, as histórias dos avós as saudades dos pais e uma maneira muito própria de olhar para a vida.

Acima de tudo Levaram Portugal.

E Portugal, apesar disso, nem sempre soube acompanhá-los.

Sim é verdade que nos últimos anos muito mudou, tem-se assistido a um crescente interesse nomeadamente por parte  dos últimos secretários de estado das comunidades  que tem demonstrado  uma maior consciência da importância das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, claro que provavelmente gostaríamos de mais apoios mas temos de ter em conta as condições económicas de um mundo cada vez mais disruptivo em que vivemos e sobretudo as alterações mundiais quer ao nível social quer ao nível das catástrofes que por vezes drenam parte substancial dos apoios programados anualmente para apoiar as associações e outras atividades socio culturais tão necessárias a persecução da língua e cultura Portuguesa.

E é nesse campo que as associações portuguesas fazem um trabalho extraordinário, junto das escolas onde se leciona o português com o apoio do Instituto Camões, iniciativas culturais e pessoas que, muitas vezes sem qualquer reconhecimento, dedicam à vida a manter viva a nossa língua e as nossas tradições.

Mas não podemos esconder aquilo que ainda faz falta protagonizar.

Porque uma coisa é reconhecer a importância da diáspora.

A outra, que é bem diferente, é fazê-la sentir que pertence verdadeiramente ao país.

E essa diferença é sobretudo fundamental e a pedra basilar de um todo.

Pois não podemos continuar a olhar para os portugueses espalhados pelo mundo apenas como uma comunidade a visitar em períodos eleitorais, em cerimónias oficiais ou em datas simbólicas. A ligação a Portugal não pode depender de discursos ocasionais nem de gestos protocolares.

Tem de ser uma relação permanente.

Sobretudo porque o tempo não para e a primeira geração da diáspora esta envelhecida, os seus percussores já nasceram em uma nova realidade social, cultural e económica e o testemunho aos netos que em muitos dos casos completamente integrados nos países onde vivem.

É aqui que se joga uma parte importante do nosso futuro.

Se nada fizermos, a ligação vai naturalmente enfraquecer.

Não por falta de amor a Portugal, mas porque nenhuma identidade sobrevive apenas através da memória dos antepassados.

É preciso alimentá-la, mantê-la viva.

É sobretudo neste ponto que a FAD quer ser o player principal

Torna-se essencial que um jovem lusodescendente tenha acesso à língua portuguesa. Que conheça a nossa história. Que possa visitar Portugal e compreender melhor as suas raízes. Que encontre espaços onde a cultura portuguesa não seja apenas uma recordação dos avós, mas uma realidade viva.

Sobretudo é preciso compreender uma coisa simples: ninguém pode exigir a um jovem que se sinta português apenas porque os seus avós nasceram em Portugal.

O sentimento de pertença não se decreta.

Constrói-se.

É por isso que a responsabilidade também é nossa. Portugal tem de saber falar com as novas gerações da diáspora. Não pode esperar que sejam elas a procurar eternamente um país que, muitas vezes, pouco fez para se aproximar delas.

Torna-se essencial, criar uma ligação através das associações, dar formação aos novos dirigentes ou aqueles que queremos que se tornem novos dirigentes das associações da diáspora, embaixadores do país dos seus avôs, que contagiem os seus amigos, as suas faculdades os seus locais de trabalho, que possam semear a semente da língua, da cultura portuguesa, esta será a forma também de sermos evadidos pela positiva, com investidores, mentes brilhantes, mão de obra altamente qualificada.

E não estamos a falar de criar portugueses de segunda categoria nem de obrigar ninguém a escolher entre o país onde nasceu e o país dos seus antepassados.

Trata-se exatamente do contrário.

Trata-se de dizer a esses jovens que podem pertencer a várias culturas sem terem de renunciar a nenhuma. Que podem ser plenamente franceses, suíços, canadianos, brasileiros ou venezuelanos e, ao mesmo tempo, sentir orgulho das suas raízes portuguesas.

Temos de ter a noção que essa diversidade não nos enfraquece.

Enriquece-nos.

A diáspora portuguesa é uma das maiores expressões da nossa capacidade de adaptação e de sobrevivência. Portugal chegou a lugares onde talvez nunca tivesse chegado de outra maneira. Chegou através de pessoas comuns que trabalharam, criaram famílias, abriram negócios, construíram comunidades e deram aos filhos oportunidades que muitas vezes eles próprios nunca tiveram.

Esses portugueses também construíram Portugal.

É por isso que não podemos aceitar que a distância se transforme em esquecimento.

A ligação umbilical entre Portugal e a sua diáspora tem de permanecer viva. Não por saudosismo, não por obrigação e muito menos por uma visão romântica de um passado que já não existe.

Tem de permanecer viva porque existe uma história comum.

E porque perder essa ligação seria perder uma parte da nossa própria identidade.

Portugal precisa de olhar para os portugueses no mundo não como quem olha para quem ficou para trás, mas como quem olha para uma parte de si que está lá fora.

Talvez seja essa a mudança de mentalidade que ainda nos falta.

Porque a verdade é simples: eles podem ter saído de Portugal.

Mas Portugal nunca saiu deles.

E enquanto houver alguém, em qualquer parte do mundo, que ensine um filho a dizer as primeiras palavras em português, que prepare uma receita da avó, que cante uma canção portuguesa, que conte a história da aldeia de onde a família partiu ou que atravesse milhares de quilómetros para regressar à terra dos seus pais, essa ligação continuará viva.

A nossa obrigação de todos nós, mas acima de tudo da Federação das Associações da Diaspora é garantir que não seja a última geração a fazê-lo.

Portugal não pode perder os portugueses que estão longe.

Porque, no fundo, eles nunca deixaram de ser parte de Portugal. ■

João Paulo Rocha

Primeiro-secretário da Federação das Associações da Diáspora (FAD)

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