“A Língua não é pura”: Valter Hugo Mãe reflete sobre literatura e identidade no Brasil

Escritor português é o homenageado deste ano no Fliparacatu, festival literário em Minas Gerais; em entrevista, o autor fala sobre a transformação constante da língua e destaca o papel da literatura brasileira na sua obra

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Foto: Divulgação/Rita Rocha
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“Pureza é bom para a virgindade. Mas Língua nenhuma é virgem nem pura minimamente.” É desta forma que Valter Hugo Mãe encara a língua portuguesa, um organismo em permanente mutação, que se reinventa a cada expressão. Para o escritor português, homenageado na edição deste ano do Fliparacatu, no Brasil, falar é sempre um gesto de expansão, de invenção e de continuidade criativa.

A relação de Valter Hugo Mãe com a literatura brasileira é central na sua trajetória. O autor sublinha que os escritores do Brasil foram fundamentais para moldar a sua voz literária, marcada por uma busca consciente de liberdade estética. “A literatura brasileira fascina-me. Há uma infinidade de pessoas aí que escrevem maravilhas. A minha relação será sempre a de um atento admirador”, afirmou.

Entre os dias 27 e 31 de agosto, em Paracatu, Minas Gerais, o terceiro Festival Literário Internacional de Paracatu destacará a obra do escritor português, em especial o romance “A Desumanização”, inserido no tema central desta terceira edição: “Literatura, Encruzilhada e a Desumanização”. Para Valter Hugo Mãe, festivais como o Fliparacatu são “máquinas imensas de fazer cidadania”, espaços onde os livros assumem o poder de formar leitores e abrir caminhos para debates que unem Minas, o Brasil e o mundo lusófono.

Em entrevista à nossa reportagem, este cidadão das letras, e de Portugal, falou sobre a valorização da literatura nos países lusófonos, explicou o que entende por “universalidade da língua de Camões” e sublinhou a sua ligação ao universo literário brasileiro.

Como avalia hoje a sua ligação com o universo literário brasileiro?

Sempre fui leitor dos autores brasileiros. Eles foram fundamentais para definir minha própria voz, que nunca teve intenção de ser pura. Pureza é bom para a virgindade. Mas Língua nenhuma é virgem nem pura minimamente. Gosto de procurar expressões e inventar expressões. Falar é para aumentar, para ser mais do que já foi. A literatura brasileira fascina-me. Há uma infinidade de pessoas aí que escrevem maravilhas. A minha relação será sempre a de um atento admirador.

Como Brasil e Portugal podem auxiliar na universalidade da língua de Camões?

Gostaria que nunca nos deixássemos de entender. Mas o nome que devemos dar à Língua que falamos pode virar outra coisa. Não há como deter o processo. Talvez tenhamos de conceber que se falará outra coisa resultante do exercício do português. Seria, contudo, uma maravilha podermos seguir disfrutando do que se fala nos vários continentes a partir dessa dispersão do português. Julgo que seria importante a popularização de edições custeadas pelos Estados para chegarem a preços simbólicos às mãos dos leitores. Livros escolhidos por académicos, críticos e leitores que possam motivar a multidão a conhecer melhor a Língua e o imaginário do que são os povos que se unem por esta expressão.

Como vê o papel do Fliparacatu na valorização da literatura e nas relações do Brasil, e de Minas Gerais, com os países lusófonos?

Todos os grandes festivais literários são afirmações da maturação dos povos. Um povo dotado de livros é um povo que se prepara para o diálogo, prepara-se para debater e exigir saber mais. O livro é o poder que chega às mãos de um leitor. Quem não lê fica bastante mais excluído, bastante mais indefeso. Os festivais são máquinas imensas de fazer cidadania. Fliparacatu não será excepção. É o evento que prova que o povo quer, o povo precisa de um espaço de atendimento de ideias mais complexas e completas, onde o assunto se debata com maior rigor e com maior brio. Assim, sempre se colocam como ocasiões perfeitas para se diagnosticar questões e apontar caminhos. Seja para Minas, seja para o Brasil ou para o Brasil com o Mundo. Tudo se pode debater e, melhor ainda, tudo pode chegar mais perto de uma solução. ■

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