
O Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC) entrou numa nova fase sob a liderança de Luiz Nilton Corrêa, antropólogo e historiador com percurso académico entre os Açores e Salamanca, assumindo a presidência com a meta de consolidar a instituição no cenário digital e global. Aos 130 anos de existência, o IHGSC mantém-se como referência na construção da identidade catarinense, num Estado marcado por sucessivas matrizes migratórias e por um processo histórico de afirmação territorial e cultural. A nova gestão tem como eixo estruturante a digitalização e democratização do acervo, que inclui milhares de fotografias históricas, mapas, manuscritos e periódicos, ampliando o acesso público e académico à memória documental do Estado.
No plano institucional, a presidência de Luiz Nilton reforça a dimensão internacional do Instituto, destacando a relação entre a entidade e a Região Autónoma dos Açores, descrita como marcada por uma proximidade singular, materializada em projetos conjuntos, intercâmbios científicos e na consolidação da Biblioteca Açoriana Machado Pires como centro de referência no Sul do Brasil.
Para assinalar os 130 anos, o Instituto organiza o seu primeiro Congresso Internacional, dedicado ao tema da identidade em construção, iniciativa que pretende projetar Santa Catarina no debate académico global e reafirmar o papel histórico da entidade na articulação entre memória, ciência e futuro.
Em entrevista à nossa reportagem, Luiz Nilton Corrêa, 48 anos, antropólogo, historiador e presidente do Instituto, falou sobre os novos projetos e as ações previstas, além da ligação aos Açores.

Nova Diretoria do IHGSC
Ao assumir a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, quais foram as prioridades de gestão definidas e que mudanças estruturais procurou implementar na entidade?
Assumir a presidência de uma instituição como o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (IHGSC), com seus 130 anos de protagonismo na formação da identidade catarinense, é aceitar uma responsabilidade de magnitude singular. Santa Catarina é, por definição, um mosaico cultural. Com uma população que se aproxima dos oito milhões de habitantes, o estado abriga uma herança plural: estima-se a presença de três milhões de descendentes de italianos, dois milhões de alemães e 1,5 milhão de açorianos. Essa base se entrelaça com matrizes africanas e correntes migratórias austríacas, polonesas, ucranianas, holandesas, húngaras e japonesas, consolidando uma diversidade rara. A construção de uma identidade coesa nesse cenário exigiu o esforço contínuo de identificar heróis e ícones que nos unissem, como o poeta Cruz e Sousa, a heroína Anita Garibaldi e o mestre Victor Meirelles. O IHGSC foi o arquiteto desse processo, promovendo marcos como o Congresso Internacional de História de 1948, que foi o divisor de águas na afirmação da identidade açoriana no litoral. A nossa missão remonta às origens do Estado. A primeira grande tarefa do Instituto foi a consolidação do território catarinense durante a Questão do Contestado; missão que levou os nossos pesquisadores até os arquivos de Lisboa em busca dos fundamentos jurídicos que garantiram nossas fronteiras. O IHGSC não apenas ajudou a definir o mapa de Santa Catarina, mas também a alma de seu povo.
O Instituto tem desempenhado um papel central na preservação da memória catarinense. Como avalia hoje o impacto do trabalho desenvolvido pela instituição na produção e difusão do conhecimento histórico e geográfico do Estado?
Com 130 anos de trajetória, o IHGSC consolidou-se, durante décadas, como a única instituição dedicada à salvaguarda da memória catarinense. É imperativo notar que as primeiras universidades do Estado surgiram apenas sete décadas após a fundação do Instituto: a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1960 e a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) em 1965. Até esse marco, o IHGSC não apenas preservava, mas exercia um papel ativo na construção e modulação da memória e da identidade regional, protagonismo que mantém até hoje através de rigorosa produção científica e eventos acadêmicos que influenciam a historiografia do Estado. Um exemplo contemporâneo dessa atuação decisiva ocorreu em 2015, quando o Instituto apresentou o estudo que redefiniu a data de fundação de Florianópolis. O marco inicial, anteriormente fixado em 1723, foi retificado para 1673, comprovando que o povoamento iniciou-se com a chegada de Francisco Dias Velho. Tal descoberta não apenas alterou a idade da capital, mas reafirmou o compromisso do IHGSC em atuar, de forma viva e técnica, na revisão e no fortalecimento da nossa história.
O projeto de digitalização das imagens e acervos de Santa Catarina, conhecido nos últimos dias, representa um avanço importante na democratização do acesso à memória. Em que fase se encontra essa iniciativa e quais os principais desafios técnicos e financeiros enfrentados?
Este projeto marca o compromisso inicial de minha gestão: a digitalização e a democratização do acesso a um acervo de mais de oito mil fotografias históricas. São registros que retratam conflitos, momentos políticos decisivos, paisagens e marcos que moldaram o território catarinense nos últimos dois séculos. Este é apenas o passo inaugural. As imagens serão disponibilizadas no portal do IHGSC em alta resolução e sob licença de uso livre, mediante apenas o crédito à nossa instituição. O nosso horizonte, contudo, é ainda mais vasto. Guardamos mais de 350 mapas antigos, milhares de manuscritos e uma biblioteca que abriga obras raras e seculares. Destaco também a nossa coleção de periódicos, como a Revista do IHGSC, cujas edições iniciais remontam a 1902. Todo este tesouro documental será gradualmente transposto para o meio digital, fomentando a pesquisa e o desenvolvimento científico. É fundamental ressaltar que tais conquistas não decorrem de orçamentos cativos, mas de uma busca incansável por fomento. Cada iniciativa é fruto de projetos submetidos a editais e de um esforço contínuo de “bater às portas” em busca de recursos. Muitas vezes, o êxito não vem na primeira tentativa; elaborar o projeto é, talvez, a etapa mais célere diante do desafio persistente da viabilização financeira.
De que forma a digitalização do acervo pode contribuir para investigadores, escolas, universidades e para a própria valorização da identidade catarinense no contexto nacional e internacional?
A democratização deste acervo não é apenas um ato administrativo, mas a abertura de um portal para novas possibilidades de pesquisa e compreensão da identidade catarinense e, por extensão, da brasileira. Cada estado do Brasil encerra uma realidade singular, com contextos e origens de difícil comparação. As imagens que estamos disponibilizando possuem o poder de transmutar a imaginação em formas concretas. Sejam paisagens, tipos humanos ou eventos decisivos, elas conferem materialidade ao que os textos narram, elevando a fotografia do papel de mera ilustração ao status de fonte primária de análise. Uma vez integradas à rede, essas fontes estarão acessíveis a pesquisadores em qualquer parte do globo, materializando a promessa original da internet: o acesso universal à informação de qualidade, chancelado pelo rigor de uma instituição centenária como o IHGSC.
Ao completar 130 anos de existência, que significado institucional e simbólico atribui a esta marca histórica para o Instituto e para o Estado de Santa Catarina?
Sustento que o IHGSC preserva, com justiça, o título de principal instituição cultural do Estado. Essa primazia não decorre apenas da sua longevidade, mas de seu papel vital nas ciências humanas, materializado em inúmeras publicações anuais e na custódia de acervos singulares. O nosso corpo social é composto por mais de 300 pesquisadores, entre membros eméritos, efetivos e correspondentes, distribuídos globalmente. Contamos com personalidades da vida política do Brasil e de Portugal, diretores de renomadas instituições internacionais e acadêmicos laureados com vasta produção bibliográfica. São intelectuais de diversas gerações e áreas de atuação, todos conscientes da sua responsabilidade institucional na construção contínua da identidade catarinense. Para uma entidade sem fins lucrativos, movida pelo trabalho honorífico e pela vocação de serviço público, alcançar os 130 anos em plena vigência de suas atividades é um marco de profunda relevância simbólica.
Estão previstas celebrações ou ações comemorativas pelos 130 anos? Que tipo de programação está a ser organizada e qual o público que pretendem alcançar?
Fundado em 7 de setembro de 1896, o IHGSC aproxima-se de um marco histórico extraordinário. Para celebrar este jubileu, planejamos uma agenda de eventos que culminará na realização do I Congresso Internacional do IHGSC. Nesta edição inaugural, o tema central será a “Identidade como elemento em constante construção”, um reflexo da própria essência desta Casa. Alinhado à tradição de rigor científico que norteia os congressos que organizo, em parceria com renomados pesquisadores e instituições, este certame pretende consolidar-se como uma atividade perene. Mais do que celebrar a longevidade do Instituto, este congresso internacional é o testemunho vivo de sua vitalidade, reafirmando nossa projeção acadêmica e nosso compromisso com o futuro de Santa Catarina.
Olhando para o futuro, quais são os principais projetos estratégicos do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina e como a entidade pretende manter-se relevante num cenário cada vez mais digital e globalizado?
O Instituto precisa ocupar o seu espaço neste cenário de transformações disruptivas. A tecnologia hoje atua como uma ferramenta de produção intelectual que potencializa a missão do IHGSC. Através da Inteligência Artificial e da digitalização, as nossas ações ganham escala, mas o que impulsiona esse crescimento é, essencialmente, a necessidade humana de preservação identitária.
Atravessamos uma transição de paradigma que rivaliza com a Revolução Industrial, marcada por uma celeridade que desafia as adaptações sociais. Nesse contexto, a cultura e a história tornam-se os principais ativos de estabilidade e sentido. Se o autoconhecimento é a chave para navegar o futuro, ele passa, obrigatoriamente, pela decifração do nosso passado. O IHGSC, portanto, reafirma a sua relevância como o guardião da base necessária para essa nova etapa da experiência humana.
Qual o papel dos açorianos na formação de Florianópolis e de Santa Catarina no geral?
À semelhança do restante das Américas, o território que hoje compreende Santa Catarina já era densamente habitado quando da chegada dos primeiros europeus. O cenário era o prolongamento do contexto vivido na Europa: o fim da Idade Média e o desfecho das Guerras de Reconquista na Península Ibérica, cujas táticas e mentalidades se estenderam ao Novo Mundo. Com o declínio drástico das populações originárias, surgiu a necessidade premente de povoamento para a consolidação da posse lusa sob o princípio do uti possidetis. Nesse panorama, os açorianos, que já haviam protagonizado levas migratórias em direção ao Grão-Pará e Maranhão no século anterior, aportaram em Santa Catarina em meados do século XVIII, a partir de 1748. A sua chegada marcou o início de um processo de urbanização singular: as comunidades eram semeadas em torno de pequenas praças centrais, presididas por capelas e igrejas, criando núcleos que deram origem às principais cidades do litoral catarinense e gaúcho. Esse pioneirismo conferiu aos açorianos o protagonismo na fundação das primeiras malhas urbanas do Estado, precedendo em um século a imigração germânica e italiana. Mais do que construções físicas, esse período gerou um amálgama cultural profundo: a herança açoriana absorveu e preservou saberes dos povos locais, o que se reflete ainda hoje na toponímia de nossas cidades. Lugares como Itajaí, Camboriú e Garopaba exibem essa dualidade fascinante: nomes de raiz indígena que guardam uma história de matriz açoriana.
Que traços ainda hoje persistem? O Instituto tem projetos específicos sobre esta história comum entre Santa Catarina e os Açores?
O IHGSC mantém parcerias sólidas e históricas com instituições de prestígio, como a Universidade dos Açores e o Governo Regional dos Açores. O histórico marco de 1948 não foi apenas o despertar de uma identidade até então silenciada, mas o alicerce para décadas de cooperação científica. Exemplo disso foi o congresso de 2018, alusivo aos 270 anos da presença açoriana em Santa Catarina, que reuniu autoridades, pesquisadores e professores de ambos os lados do Atlântico sob a coordenação desta Casa. Esse esforço estendeu-se ao Maranhão, onde o IHGSC colaborou ativamente na fundação da Casa dos Açores do Maranhão durante o congresso dos 400 anos da presença açoriana naquele Estado. Para o futuro, a nossa meta é fortalecer este arco de cooperação transatlântica. Pretendemos não apenas ampliar o volume de publicações conjuntas, mas também estabelecer programas de formação e apoio para alunos brasileiros em instituições açorianas. São iniciativas exequíveis que reafirmam o papel do IHGSC como uma ponte entre o passado comum e o futuro compartilhado.
Qual a relação do IHGSC com o governo açoriano?
A relação entre o IHGSC e a Região Autônoma dos Açores é marcada por uma proximidade singular, distinguindo-se das demais matrizes migratórias de Santa Catarina. Essa conexão transatlântica materializa-se de forma exemplar na Biblioteca Açoriana Machado Pires, sediada nas dependências do nosso Instituto. Fruto do projeto da professora Vilca Merízio, culminou com a doação da Direção Regional das Comunidades, de um acervo que reúne obras fundamentais de autores açorianos, servindo como um centro de referência para pesquisadores e interessados na cultura insular. Mais do que um repositório de livros, a Biblioteca Machado Pires é o símbolo vivo da cooperação técnico-científica e diplomática que une o IHGSC ao Governo dos Açores, consolidando o Instituto como o principal guardião dessa memória no Sul do Brasil.
O que pode o Instituto fazer pelo Estado e vice-versa?
A continuidade das atividades do IHGSC é vital para Santa Catarina, transcendendo o valor de seu acervo histórico e documental. Partimos do princípio de que a identidade é um sistema mutável, um organismo vivo em constante construção. Hoje, novas dinâmicas migratórias, que incluem haitianos, venezuelanos, russos e diversos outros povos, somam-se às matrizes tradicionais para reconfigurar a demografia e a cultura catarinense. O papel do Instituto, portanto, não é estático; ele se renova ao decodificar essas novas camadas da nossa formação humana. Em contrapartida, o Estado encontra no IHGSC a base técnica e científica para compreender sua própria evolução. É uma relação de mútua necessidade: enquanto o Instituto oferece o lastro histórico e a análise crítica, o Estado fornece o dinamismo social que mantém nossa missão em constante desenvolvimento e atualização.
Por fim, quem é Luiz Niton?
Luiz Nilton Corrêa é um pesquisador cuja trajetória pessoal e acadêmica reflete o próprio movimento transatlântico que estuda. Catarinense, iniciou sua imersão na identidade açoriana em 2001, influenciado pelo Grupo Arcos. Esse despertar levou-o a um percurso de quase duas décadas na Europa, onde conciliou o trabalho para a subsistência com a vida acadêmica e a participação ativa no folclore da Relva, nos Açores. Licenciado em História e Mestre em História Insular e Atlântica pela Universidade dos Açores, dedicou o seu mestrado à migração de açorianos micaelenses para a República Dominicana em 1940, obra publicada em Portugal e pela Academia Dominicana de História. Doutor em Antropologia pela Universidade de Salamanca, com foco nas Festas do Divino Espírito Santo, Luiz Nilton hoje preside o IHGSC, onde coordena o programa de pós-doutorado e mantém sua atuação como professor convidado em instituições na Espanha e em Portugal, unindo a experiência do emigrante ao olhar do cientista social. ■




