Atleta paraolímpico luso-brasileiro acumula conquistas e reconhecimento no Rio de Janeiro

Com paralisia cerebral desde o nascimento, Marcelo Guedes Pereira soma títulos no ténis de mesa, lidera rankings no Rio de Janeiro e projeta competir internacionalmente, mantendo vivas as ligações a Armamar e a Vila Nova de Gaia; familiares orgulham-se por ser um atleta paraolímpico com raízes em Portugal

Marcelo Guedes Pereira tem 53 anos, nasceu e vive no Rio de Janeiro, Brasil, é analista de telecomunicações e atleta paraolímpico há 15 anos. Foto: divulgação
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Marcelo Guedes Pereira tem 53 anos, nasceu e vive no Rio de Janeiro, Brasil, é analista de telecomunicações e atleta paraolímpico há 15 anos. Carrega duas nacionalidades, brasileira e portuguesa. As raízes familiares atravessam o Atlântico e fixam-se em Travanca, no concelho de Armamar, no Douro, por parte do pai, e em Vila Nova de Gaia, pelo lado materno. Os pais, ambos falecidos, emigraram para o Brasil em 1953. Uma união que gerou três frutos: Rogério, Marcelo e Thiago. A ligação da família a Portugal não ficou apenas na memória familiar. Está no sangue, como o atleta, o filho do meio, e também na prática desportiva.

Marcelo nasceu com paralisia cerebral, uma condição que impõe limites físicos claros. Não pode levantar pesos, tem cuidados redobrados ao caminhar e ao utilizar transportes. A doença acompanha-o desde o primeiro dia de vida. No entanto, o desporto abriu-lhe um caminho que não se mede apenas em medalhas.

Ainda jovem, jogava “pingue-pongue”. Ao conhecer a Associação Carioca de Ténis de Mesa, decidiu inscrever-se e ingressar no circuito federado. A partir daí, o ténis de mesa deixou de ser recreação e passou a ser disciplina, método e superação. Escolheu esta modalidade paralímpica porque, nas suas palavras, é um “desporto que trabalha a parte motora e exige concentração estratégica”.

Ao longo de 15 anos, construiu um percurso consistente. Compete anualmente no Circuito Estadual do Rio de Janeiro, no circuito nacional brasileiro e já participou em competições internacionais. Para já, soma dez títulos estaduais, cinco títulos brasileiros em equipa e quatro Copas do Brasil.

“Muitas vitórias ainda estão por vir”, dizem quem o vê jogar.

Medalhas demonstram superação

Entre as conquistas que mais o marcaram está a medalha de bronze no Campeonato Brasileiro de 2013, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Era a sua estreia num palco nacional. Poucos o conheciam, mas a sua garra e perseverança fizeram-no subir ao pódio.

Em 2025, terminou o “Cariocão” em primeiro lugar e liderou o ranking do Rio de Janeiro. Atribui o desempenho à disciplina, à alimentação adequada e à preparação física. Afirma que “não há jogos fáceis”, pois “cada campeonato tem uma história própria”. No Campeonato Brasileiro de Verão, em Blumenau, conquistou duas medalhas de bronze por equipas, num contexto de elevado nível técnico. Refere que “utilizou estratégias e estudou as equipas adversárias”. No individual geral do Campeonato Brasileiro alcançou o quinto lugar, após disputas ponto a ponto.

Para Marcelo, “o desporto paraolímpico não se resume a resultados. Fala de amizades, respeito e reconhecimento”. Diz que, no Rio de Janeiro, “vários atletas o veem como exemplo”, sendo muito elogiado. Geralmente, os treinos acontecem depois de um dia inteiro de trabalho. Marcelo sai do emprego e segue para o pavilhão. Mesmo cansado, afirma que vai “feliz, muito feliz”. Um percurso acompanhado de perto por amigos e pela família.

Em declarações à nossa reportagem, o irmão mais velho, Rogério, sublinha o ambiente desportivo que sempre marcou o cenário familiar.

“É uma satisfação ver o progresso do Marcelo. Em casa, todos nós sempre gostamos muito de desporto. Eu sempre pratiquei desporto a vida toda. O Marcelo também, mesmo com a dificuldade dele com a parte motora. Há alguns anos foi muito gratificante vê-lo começar a gostar, a se interessar e a se federar. Isso foi muito importante para começar a competir”, afirmou Rogério, que recorda o momento em que Marcelo anunciou que iria começar a competir.

“Eu lembro-me que na época foi uma surpresa quando ele comentou isso connosco, sobre começar a competir. E ele foi se desenvolvendo e a gente foi acompanhando”, acrescentou o irmão orgulhoso. Apesar de não conseguir acompanhá-lo em todos os campeonatos nacionais, devido às deslocações, garante presença em várias competições regionais e algumas internacionais realizadas no Rio de Janeiro.

“É muito gratificante ver como é que o Marcelo consegue se superar. Não só ele, mas como todos os atletas paraolímpicos. Ver os atletas jogando, treinando e competindo é fabuloso”, destacou Rogério, que sublinha que acompanha também as competições olímpicas e paralímpicas.

Com emoção, refere que, recentemente, Marcelo recebeu uma placa de melhor jogador de 2025 na sua categoria no Estado do Rio de Janeiro, durante uma competição.

“É muito bonito ver o que Marcelo faz e o que o atleta paraolímpico faz”, concluiu Rogério.

Conversamos também com outros familiares residentes na Europa. Maria de Lourdes Fonseca Pereira Cruz, natural de Travanca, no concelho de Armamar, Portugal, e residente em Biasca, na Suíça, afirma acompanhar à distância o percurso do primo.

“Sigo de longe a trajetória do meu primo Marcelo Guedes e queria lhe dizer que sinto um grande orgulho nas suas conquistas no ténis de mesa de Paraolímpicos e de todas as medalhas que ele conquistou nos campeonatos brasileiros, não sendo fácil. O Marcelo é uma força da natureza”, afirmou Lurdes, sublinhando o impacto das vitórias no seio da família com raízes durienses e hoje dispersa pela diáspora.

Já a prima Maria José Pereira, que após o casamento chama-se Maria José Giardelli, residente em Aquarossa, também na Suíça, destaca o significado das conquistas do atleta lusodescendente.

“Quando tive conhecimento e vi o meu primo no jogo ténis de mesa no Brasil, quando ele chegou à penúltima classificação, foi um grande orgulho. Deu a toda a família uma grande alegria. O Marcelo é filho de um dos meus tios, o último de sete irmãos, no qual cinco emigraram para o Brasil. Marcelo nasceu com uma deficiência nas pernas, mas os pais, desde sempre, o incentivaram. Com a sua força, que eu admiro tanto, lançou-se no desporto que ele ama, até que o seu esforço foi premiado”, declarou Maria José Giardelli, evidenciando o percurso de superação acompanhado pela família entre Portugal, Brasil e Suíça.

Por seu turno, Ricardo Paralta, natural de Lisboa e atualmente residente no cantão do Ticino, na Suíça, também sente orgulho nas conquistas do primo.

“Para mim é um grande orgulho acompanhar as conquistas do nosso primo “Marcelinho”. O percurso dele como atleta paraolímpico no Rio de Janeiro é um verdadeiro exemplo de superação, dedicação e força de vontade”, afirmou Ricardo, ao sublinhar a dimensão do trajeto construído no desporto adaptado.

“A carreira dele mostra que, com trabalho e perseverança, é possível alcançar grandes objetivos, independentemente das dificuldades. Mesmo vivendo fora de Portugal, sentimos um enorme orgulho quando vemos um dos nossos chegar tão longe. O Marcelo é uma inspiração para todos nós. É uma grande emoção ver o nome dele representar tão bem a nossa família e o nosso país”, acrescentou, associando as conquistas desportivas à identidade familiar e às raízes portuguesas que atravessam gerações.

Identidade lusodescendente

Marcelo define-se como um “atleta estratega, dedicado e determinado”. Quer competir num novo campeonato internacional em abril e tem como meta “tornar-se técnico de ténis de mesa”. O percurso não está fechado. Está em construção.

A identidade luso-brasileira é assumida. Tem boas recordações de quando treinava na Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria, no bairro da Tijuca, zona Norte do Rio de Janeiro, onde existia a prática de ténis de mesa. Olha para esta experiência como positiva, jogando com amigos atletas ligados à comunidade portuguesa. Sobre Portugal, considera que é “um país em crescimento”. Quanto à comunidade portuguesa no Rio de Janeiro, entende que “enfrenta falta de renovação geracional”.

Marcelo já visitou Portugal, há vários anos. Porém, mantém a ligação afetiva e cultural. Entre a mesa de jogo e as raízes familiares, constrói uma narrativa de pertença dupla.

Questionado sobre o que menos aprecia no percurso competitivo, aponta a “concentração antes dos jogos”. Ainda assim, afirma sentir-se motivado em todos os momentos. A mensagem que deixa é direta: “tudo deve ser feito com rigor. Caso contrário, não vale a pena”.

“Quero agradecer de coração a cada pessoa que torce por mim e acredita no meu trabalho. Ser atleta paraolímpico e confederado do ténis de mesa é mais do que competir, é superar limites todos os dias, é cair e levantar com mais força, é transformar desafios em motivação. Cada treino, cada vitória e até cada derrota são parte dessa jornada que não vivo sozinho. Todos, com o apoio e a energia que me dão, são parte fundamental de cada conquista. Espero que a minha história mostre que não importa de onde viemos ou quais barreiras encontramos: com amor pelo que fazemos, disciplina e fé, é possível ir muito além do que imaginamos. Cada conquista carrega garra, entrega e muita fé no caminho. Não é só sobre subir no pódio, mas também sobre acreditar, insistir e seguir em frente”, finalizou Marcelo Guedes, hoje atleta de alto nível confederado de ténis de mesa paraolímpico. 

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