Empresário e consultor com mais de 30 anos de carreira nas áreas de marketing e vendas, Roni Szuchman, que conta com as nacionalidades brasileira, israelense e polaca, trocou Curitiba por Givat Shmuel, cidade da área metropolitana de Tel Aviv, Israel, onde vive há três anos com a sua companheira israelense. Garante que foi em Israel, mesmo sob constante tensão militar, que finalmente encontrou um sentimento pleno de pertença. “Aqui sinto-me em casa”, afirma.
Desde a sua chegada, o cenário geopolítico agravou-se, especialmente após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 e, mais recentemente, durante os bombardeamentos do Irão. Mesmo assim, Szuchman não considera deixar o país. Pelo contrário, defende que a sensação de segurança em Israel, onde muitos civis andam armados e há uma cultura de solidariedade comunitária, supera, com larga margem, a realidade das grandes cidades brasileiras. “Em Curitiba, eu olhava para os lados o tempo todo. Aqui ando até de madrugada, chego a contar dinheiro na rua”.
Em entrevista à nossa reportagem, Roni Szuchman relata como tem sido viver num país em guerra, comenta o posicionamento do Brasil no contexto do conflito e partilha a sua visão sobre o quotidiano israelense em tempos de alarme. Szuchman, que também atua como palestrante internacional, analisa ainda a forma como os israelenses enfrentam as ameaças, revela críticas à atuação da Embaixada do Brasil durante a crise e descreve momentos de tensão nos abrigos antibomba, num território onde a normalidade convive com o som das sirenes.
Como tem sido a sua experiência pessoal a viver em Israel, especialmente neste período marcado por tensões e conflitos?
Israel nunca esteve 100% em paz, sempre foi atacada desde a sua fundação. Cheguei há exatamente três anos, antes do ataque de 7 de outubro. Isso foi um choque aqui em Israel, foi muito triste ver covas de bebés, literalmente. Mas, em nenhum momento, pensei em voltar. Aqui, finalmente, eu me sinto em casa.
De que forma a atual situação de guerra afeta o seu dia a dia e o de outros brasileiros que vivem em Israel?
Se você é brasileiro e não está no exército ou não tem filhos no exército, a guerra basicamente não afeta em nada. Claro que existem os alarmes e ataques, que podem deixar a pessoa mais estressada, dependendo da personalidade, mas acredito que o brasileiro médio teve históricos de medos maiores no Brasil.
Como é viver num país onde a segurança é uma constante preocupação? Sente-se seguro?
Tenho nacionalidade polaca, mas aqui sinto-me mais seguro. Já viajei para mais de 20 países, alguns, várias vezes, e posso dizer que aqui é o lugar onde me sinto mais seguro. Comparando com o Brasil, não tenho dúvidas. Lá eu costumava olhar para os lados constantemente. Aqui, até de madrugada, é tranquilo. Chego ao ponto de contar dinheiro na rua. Somos como uma grande família, todos cuidam uns dos outros. Muitas pessoas andam armadas para o caso de haver um ataque terrorista. Mesmo com estes ataques, não se compara com os índices de violência da minha cidade natal, Curitiba.
Qual é a perceção que os israelenses têm sobre os estrangeiros, em especial os brasileiros, neste momento delicado?
Ser estrangeiro em Israel não tem o mesmo peso que no Brasil. Se a pessoa não tem um pai estrangeiro, provavelmente tem um avô. Existe uma diferença entre a perceção dos brasileiros que vivem em Israel e a visão que têm do Brasil atual. Sabe-se que o governo brasileiro atual é anti-Israel e antissemita, mas isso não se reflete em nada para nós aqui.
Como tem sido o apoio da comunidade brasileira e da Embaixada do Brasil em Israel nestes tempos de conflito?
A comunidade brasileira, no início da guerra, passou informações para que os brasileiros se adaptassem à nova realidade. Já a Embaixada do Brasil não entrou em contacto com os brasileiros sobreviventes do ataque de 7 de outubro. Ao contrário de alguns países que negociaram a libertação dos seus cidadãos, a negociação para o brasileiro sequestrado em Gaza nunca aconteceu, e ele morreu em cativeiro.
Que tipo de preparação ou medidas preventivas são recomendadas pelo governo local aos residentes em situações de emergência?
Na guerra de 12 dias contra o Irão, por exemplo, a mais perigosa desde que imigrei, recebíamos um alarme no telemóvel a avisar que mísseis estavam a caminho de Israel e devíamos dirigir-nos ao quarto seguro. Quando os alarmes soavam, era sinal de que o míssil estava na nossa direção e devíamos trancar o quarto. Nesse meio tempo, o sistema de defesa abatia os mísseis. Foram mais de 1.550 mísseis e drones lançados especificamente contra a população civil de Israel, que causaram a morte de 30 pessoas.
O que mais o surpreendeu na forma como os israelenses lidam com a guerra e as ameaças à segurança?
Nos ataques iranianos, em que os mísseis eram muito potentes, a minha namorada israelense ficou mais assustada do que eu, que sou brasileiro. Porém, no dia seguinte à guerra dos 12 dias, parecia que nada tinha acontecido. Fiquei impressionado com a naturalidade com que os israelenses lidam com estas situações.
Quando se avizinha um momento delicado, como Israel a ser bombardeado ou ações militares de Israel contra outros países, qual o protocolo a seguir? Pode narrar alguma situação mais tensa que tenha vivido?
No primeiro ataque iraniano no ano passado, estava num abrigo comunitário de um prédio e havia israelenses com mais medo do que eu imaginei. Foi um ataque muito forte. Os procedimentos são sempre os mesmos: dirigir-se rapidamente ao quarto seguro ou abrigo e aguardar. A coordenação da resposta é muito eficaz. ■