A fadista portuguesa Maria Alcina faleceu esta manhã (28/01), às 9h32, aos 86 anos, nas instalações do hospital Casa de Portugal do Rio de Janeiro, onde estava internada há vários dias. Natural de Castro Daire e residente no Brasil há décadas, Maria Alcina morreu na sequência de uma “falência múltipla de órgãos”, segundo informação confirmada por familiares. As cerimónias fúnebres serão amanhã, quinta-feira, dia 29, das 10 às 14 horas, no Salão Nobre da Casa de Trás os Montes e Alto D’ouro, entidade localizada na Avenida Melo Matos, 15/19, bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. A última despedida será na Capela 01 no Cemitério Memorial do Carmo, na Rua Monsenhor Manuel Gomes, 287, no Caju, Rio de Janeiro, das 14h30 às 16h30.
A notícia do falecimento apanhou de surpresa a comunidade portuguesa no Brasil, que reagiu com consternação ao desaparecimento de uma das vozes do fado ligadas à diáspora lusa no Rio de Janeiro. Ao longo da manhã, multiplicaram-se manifestações de pesar por parte de representantes da comunidade luso-brasileira, de autoridades portuguesas e de responsáveis cariocas ligados à vida cultural e associativa, sublinhando o papel de Maria Alcina na preservação e divulgação do fado fora de Portugal.

Com um percurso marcado pela ligação contínua à cultura portuguesa em território brasileiro, Maria Alcina construiu, a partir do Rio de Janeiro, uma presença regular em espaços associativos e culturais, tornando-se uma referência para várias gerações de portugueses e luso-descendentes. A sua morte encerra um capítulo relevante da história recente do fado na diáspora, deixando um sentimento de perda transversal entre Portugal e Brasil.
Amor e trabalho por Brasil e Portugal
Natural de Cetos, concelho de Castro Daire, no distrito de Viseu, Portugal, Maria Alcina nasceu a 12 de março de 1939.
Radicada no Rio de Janeiro desde 1953, onde chegou aos 14 anos juntamente com a sua mãe, foi pioneira no fado no Brasil, sendo reconhecida como a voz que fez renascer o género em solo sul-americano. Uma mulher de palco, de alma fadista, de presença firme e de coração profundamente português. No Rio de Janeiro, começou a cantar fado e fez do estilo musical mais característico de Portugal uma autêntica forma de vida.
Durante a sua vida artística, Alcina atuou com grandes nomes do fado, como Amália Rodrigues e Carlos do Carmo. Cantou em casas no eixo Rio-São Paulo e teve a sua própria casa de fados, “A Desgarrada”, na zona Sul carioca. Maria Alcina é e foi presença frequente em programas de televisão, radiofónicos e chegou a ter o seu próprio programa de rádio. Lançou LPs, compactos, dois CDs, DVD e foi protagonista, em 2015, do livro-reportagem “Maria Alcina, a força infinita do Fado”, de autoria do jornalista luso-brasileiro Ígor Lopes. Foi também uma das quatro personagens destacadas na obra “Luso-Brasilidade Musical – A influência da música na ligação entre o Brasil e Portugal”, do mesmo autor, um livro editado pela Funarte.
A fadista participou também em peças de teatro e foi personagem em documentários premiados pelos críticos. É detentora de diversos prémios, distinções e comendas. Foi homenageada recentemente pela Academia Luso-Brasileira de Letras e pela Academia de Filosofia e Ciências Humanísticas Lucentina. Participou em telenovelas, minisséries e assinou a banda sonora de muitos trabalhos televisivos.
Apaixonada pelo Brasil, Alcina vivia no Rio de Janeiro. É mãe de três filhas: Ângela, Alcineli e Eliane e viúva do empresário português João Duarte, falecido em 2014, com quem compartilhou um segundo casamento.
No universo luso-brasileiro, é conhecida por ser “uma mulher de garra e voz visceral”. A sua história é repleta de desafios, como o início difícil, incluindo episódios de violência doméstica no seu primeiro casamento. Cantar foi, num primeiro momento, uma imposição – mais tarde, tornou-se “libertação”.
Acostumada aos holofotes internacionais, Alcina prefere hoje a tranquilidade da sua casa no Méier, no Rio de Janeiro. Era amante de animais, jardineira dedicada, fiel aos rituais de meditação e oração antes de cada espetáculo. Vaidosa, exigente com o som, a iluminação e o respeito pelo palco. Para ela, “quem gosta de fado respeita o artista”. Atuou em diversas atividades sociais, com o seu canto, apoiando os portugueses, e não só, com mais dificuldades no Brasil, “emprestando” gratuitamente a sua arte.
Foi reconhecida “Rainha da Desgarrada”, eleita pelo Programa de TV “Domingo em Portugal”, em dupla com António Campos (1970); foi presença habitual nas principais casas regionais portuguesas no Brasil; apresentou-se em diversos países e estados brasileiros, além, claro, de Portugal.
Em 1993, foi inaugurada a Avenida Maria Alcina Fadista, em Castro Daire, a sua terra natal. Em 2002, tornou-se a primeira fadista a pisar a Marquês de Sapucaí, durante o desfile da Unidos da Tijuca, levando o fado à passarela do samba. Foi a primeira mulher a dar o famoso “grito de saída” da escola de samba Unidos da Tijuca, em ritmo de fado, na Marquês de Sapucaí, palco do carnaval carioca.

Em 2015, foi homenageada no Festival de Fado da Cidade das Artes, no Rio, onde Carlos do Carmo a consagrou “Imperatriz do Fado”, pelo seu esforço em dignificar a alma portuguesa através da música em solo brasileiro.
“Ao som do Fado, vim para o Brasil com muita amargura no coração. Mas encontrei, na música, a redenção e o amor dos dois países que me pertencem: Portugal e Brasil”, finalizou Maria Alcina.

Em julho do ano passado, a fadista foi condecorada pelo Governo português, nas instalações do Real Gabinete Português de Leitura, no centro da cidade, com uma das mais altas distinções do país. Alcina recebeu a Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas, no Grau Ouro, entregue pelo secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, na sequência de proposta apresentada pelo Consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro. O evento contou com a presença do embaixador de Portugal no Brasil, Luís Faro Ramos, e da cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro, Gabriela Soares de Albergaria, entre outras autoridades. ■





