
Rui Paulo da Silva Martins, vice-Reitor dos Assuntos Globais e director do Instituto da Microelectrónica da Universidade de Macau, foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem de Mérito pelo Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa. Uma distinção considerada “mais do que merecida” pela comunidade portuguesa residente nessa Região especial administrativa chinesa. A cerimónia de imposição das insígnias será dia 11 de fevereiro, pelas 18h, no auditório do Consulado Geral de Portugal em Macau.
Em entrevista à Agência Incomparáveis, este Professor Catedrático de Mérito (Chair Professor) disse sentir-se “honrado” com a homenagem, que, na sua opinião, “premeia o meu trabalho e dedicação à causa de Macau” e o seu “contributo de cerca de 34 anos, como vice-Reitor desde 1997, para o desenvolvimento da Universidade de Macau como instituição de nível académico mundial”.
Aos 68 anos, este professor, natural de Lisboa, avalia que a Universidade de Macau é hoje uma “ponte entre a China, Macau, Portugal e os Países de Língua Portuguesa” e assegura que “o interesse pelo Português tem aumentado na China”, sendo, neste momento”, leccionado em mais de 50 universidades por todo o país.
Que significado pessoal e profissional assume a atribuição do grau de Comendador da Ordem de Mérito e de que forma este reconhecimento do Presidente da República Portuguesa dialoga com o percurso que tem desenvolvido em Macau?
Sinto-me muito honrado com o reconhecimento do Sr. Presidente da República de Portugal, através da atribuição da Comenda da Ordem do Mérito. Tal honra premeia o meu trabalho e dedicação à causa de Macau, com o meu contributo de cerca de 34 anos (sendo Vice-Reitor desde 1997) para o desenvolvimento da Universidade de Macau como instituição de nível académico mundial, que serve de ponte entre a China, Macau, Portugal e os Países de Língua Portuguesa. A Universidade de Macau ocupa presentemente o 145º lugar no prestigiado ranking do Times of Higher Education, estando em primeiro lugar entre as instituições de ensino superior da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), associação onde represento o Sr. Reitor da Universidade de Macau numa das Vice-Presidências para a Ásia-Pacífico.
Ao afirmar que esta distinção reflete o trabalho e a dedicação à causa de Macau, em que momentos concretos da sua vida académica e institucional sente que esse compromisso foi mais determinante?
Desde que cheguei a Macau com a minha família em 1992, o meu compromisso com a Universidade de Macau foi sempre constante, devendo no entanto salientar que o meu contributo se revelou mais determinante nos cinco anos após a criação em 1999 da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), da República Popular da China (RPC), e igualmente por volta de 2009 quando elaborei uma proposta para o Governo da RAEM e da RPC com vista à criação do primeiro Laboratório de Referência da China (State Key Laboratory), em Macau, na área de Electrónica, o qual foi aprovado e criado em 2011 com a aprovação do Ministério da Ciência e Tecnologia da RPC, sendo atualmente uma instituição líder mundial em electrónica de ponta (state-of-the-art electronics).
Qual a sua ligação com a comunidade portuguesa e lusodescendente hoje em Macau?
É uma ligação forte, cimentada por muitos anos de convívio amigável a todos os níveis.
Como avalia a comunidade portuguesa residente em Macau, tanto no plano académico como cultural e social, e que desafios identifica para o reforço dessa presença no território?
É uma comunidade muito bem integrada na sociedade local em todos os planos referidos, fruto da presença Portuguesa há 469 anos. Os desafios que enfrenta, estão relacionados com o rápido desenvolvimento da China e da integração progressiva de Macau na ilha de Hengqin, e numa região mais vasta que é a da Grande Baía de Cantão-Shenzhen-Hong Kong-Zhuhai e Macau.
Enquanto vice-reitor da Universidade de Macau, de que modo esta condecoração pode também ser lida como um reconhecimento do papel da instituição na cooperação entre Portugal, Macau e o espaço lusófono?
Creio que sim, nesta posição de Vice-Reitor que exerço há cerca de 29 anos, e que provavelmente é equivalente a um record do Guiness em termos de uma posição de gestão em universidades de língua Portuguesa, tenho sempre tido grande empenho no envolvimento da Universidade de Macau (UM) na AULP, tendo representado o Sr. Reitor na Vice-Presidência da Associação desde 2005, e inclusive na Presidência da mesma, entre 2014 e 2017, tendo organizado seis Encontros Anuais da Associação, em 1998, 2003, 2006, 2010, 2014 e 2021, e indo organizar o XXXV Encontro da AULP aqui de novo em Macau em junho deste ano, quando a UM celebra 45 anos e a AULP 40 anos. O meu envolvimento nessa Associação tem sido total contribuindo para o seu grande desenvolvimento em anos recentes, em termos académicos, científicos e de mobilidade de estudantes, o que tem permitido aumentar a cooperação entre as cerca de 200 instituições de ensino superior em língua Portuguesa espalhadas por cinco Continentes.
É “fácil” encontrar a língua portuguesa nas ruas de Macau? Noutro sentido, é “fácil” aprender português em Macau?
Sim, a língua Portuguesa está por todo o lado, nomeadamente na toponímia da cidade. E, sim, as principais instituições de ensino superior e do ensino básico e secundário todas elas ensinam o Português. Por outro lado, na China, o interesse pelo Português também tem aumentado e neste momento é leccionado em mais de 50 universidades por todo o país.
De que forma a Universidade de Macau auxilia na aproximação de Macau com Portugal? E em que domínios?
Temos protocolos de colaboração com quase todas as Universidades Portuguesas, havendo intercâmbio de docentes, de estudantes e também participação em projectos de investigação científica conjuntos. Temos doutoramentos em duplo-grau com as Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra, criámos na UM recentemente um Centro de Investigação Oceânica entre a China, Macau e os PLP, cujos parceiros iniciais são o Laboratório de Laoshan, na China, o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa e a Universidade de São Paulo, para além da Universidade de Macau. Por exemplo, estamos a desenvolver um novo campus, na ilha de Hengqin, na China, ao lado de Macau, onde irá surgir a primeira Faculdade de Medicina pública da RAEM, na qual os programas terão grau duplo entre as Faculdades de Medicina da UM e da Universidade de Lisboa. Há também colaboração com o Instituto Superior Técnico e a Universidade Nova na área da Microelectrónica, para além de cooperação noutros domínios, como no Direito, com a Universidade de Coimbra e nas áreas da língua e da literatura com as Universidades de Lisboa e do Porto. Ainda mais dois exemplos, primeiro, numa altura em que ainda não havia tradição de doutoramentos na UM, estabeleci em 2000 e 2002, dois protocolos de co-tutela entre a Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da UM e o Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade de Lisboa (UL) que deram origem às duas primeiras teses de doutoramento conjunto entre Macau e Portugal, tendo os doutorandos obtido com uma tese, dois diplomas um da FCT/UM e outro do IST/UL, ambas as teses foram de elevada qualidade, sendo os dois novos Doutores de Macau, um ocupa um lugar de Professor Catedrático aqui na FCT/UM e o outro lidera a maior empresa de electrónica de Macau, criada inicialmente em parceria com a Chipidea em Portugal, tendo sido posteriormente adquirida pela Synopsys dos Estados Unidos e mais tarde pela Silergy da China. E, por último, o primeiro Doutorado em Direito em língua Portuguesa na UM, a cujas provas tive o prazer de presidir em 2013, é de origem Moçambicana, e atualmente é professor na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, Moçambique.
Que ações específicas desenvolve a Universidade nesse sentido?
Após a assinatura de um protocolo de cooperação geral entre universidades, os quais existem há mais de 30 anos, definem-se os programas que são oferecidos conjuntamente assim como os projetos de investigação, para os quais normalmente nos candidatamos a financiamentos externos, quer em Macau quer em Portugal.
Do ponto de vista pessoal, como descreveria a sua vida em Macau ao longo dos anos e de que forma essa experiência moldou a sua visão sobre o ensino superior e a diplomacia académica?
A minha vida tem sido sempre dividida entre a família e a universidade, ocupando ambos o meu tempo na totalidade. Neste sentido, apesar de estar a cerca de 11.000 km de Portugal e a grande distância dos outros PLP nomeadamente do Brasil (onde são necessárias mais de 24h de vôo), a posição de Vice-Reitor que tenho ocupado há cerca de três décadas tem-me permitido viajar e conhecer bem a realidade desses países em termos de ensino superior, tendo visitado praticamente todas as universidades de topo nesses locais, o que contribuiu também para um melhor conhecimento das diferentes realidades por forma a explorar as diversas oportunidades de colaboração. Por exemplo, a Universidade de Macau tem desde sempre um grupo de estudantes dos PLP que aqui estudam a todos os níveis, desde a licenciatura, ao mestrado e ao doutoramento, o qual tem vindo a aumentar em tempos recentes sendo neste momento cerca de uma centena. Mas também temos todos os semestres alunos da UM que estudam em Universidades Portuguesas, nomeadamente a língua Portuguesa, e também em algumas universidades Brasileiras como a Universidade de São Paulo.
Que responsabilidades acrescidas sente a partir deste momento, enquanto académico e cidadão português em Macau, após ser agraciado com uma das mais altas distinções honoríficas do Estado português?
Eu vim para Macau ainda jovem, com 35 anos, logo a seguir ao doutoramento, com um espírito de missão, e de dedicação à Universidade de Macau, desde praticamente a sua origem, e o esforço aqui desenvolvido tem sido reconhecido das mais variadas formas, prémios e condecorações, de Macau, da China e de Portugal, tal significa que tenho seguido o caminho certo, e esta nova distinção de Portugal motiva-me a continuar por mais algum tempo com continuada determinação.
Por fim, quem é Rui Paulo da Silva Martins?
Sou membro do IEEE’88 – Membro Sénior’99 – Fellow’08 – Life Fellow’24, nascido a 30 de abril de 1957, recebi os graus de Licenciatura, Mestrado e Doutoramento, bem como a Habilitação para Professor Catedrático em Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, pelo Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores (DEEC), do Instituto Superior Técnico (IST), Universidade de Lisboa (UL), Portugal, em 1980, 1985, 1992 e 2001, respetivamente. Estive ligado ao DEEC/IST, UL, entre outubro de 1980 e agosto de 2025, data em que me aposentei como Professor Catedrático. Desde outubro de 1992 até agosto de 2025, estive em licença especial da UL e integrei o DEEC, da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), da Universidade de Macau (UM), Macau, China, onde sou Professor Catedrático de Mérito (“Chair Professor”) desde agosto de 2013. Na FCT, fui Director (1994–1997) e sou Vice‑Reitor da UM desde setembro de 1997. De setembro de 2008 a agosto de 2018 fui Vice‑Reitor (Investigação) e, de setembro de 2018 a junho de 2027, Vice‑Reitor (Assuntos Globais). No âmbito da minha atividade académica, lecionei 21 disciplinas de licenciatura e mestrado e, na UM, orientei (ou co-orientei) 48 teses, sendo 27 de Doutoramento e 21 de Mestrado. Sou autor ou coautor de um total de 1.202 publicações: 13 livros e 14 capítulos de livros; 84 patentes, sendo 43 nos EUA, 38 na China e 3 em Taiwan; 1.006 artigos científicos, dos quais 470 em revistas científicas e 536 em atas de conferências; bem como outros 85 trabalhos académicos (índice h = 66 / citações > 20.000, Google Scholar). Criei em 2003 o Laboratório de Investigação em “Circuitos Integrados em Muito Larga Escala (VLSI) Analógicos e Mistos” da UM, elevado em janeiro de 2011 a Laboratório de Referência (“State Key Lab – SKLAB”) da China (o primeiro em Engenharia em Macau), tendo sido o seu Director Fundador (2011–2022). Sou atualmente o Director do Instituto de Microelectrónica (IME) desde 2019. Fui Presidente Fundador da UMTEC (empresa da UM) entre janeiro de 2009 e março de 2019, apoiando a incubação e criação, em 2018, da Digifluidic, a primeira spin‑off da UM, cujo CEO é um doutorado do SKLAB. Atuei também como co-fundador da Chipidea Microelectrónica (Macau) – mais tarde Synopsys‑Macau, depois Akrostar e atualmente Silergy, onde o CEO foi meu aluno de Doutoramento, em regime de dupla titulação FCT‑UM / IST‑UTL – em 2001/2002. ■




