“O empreendedorismo feminino na cultura exige coragem para romper barreiras e transformar sensibilidade em estratégia”

Com passagem recente por Portugal, Lucinda Marques, responsável pela Editora IMEPH, com sede no Nordeste brasileiro, compreende a literatura como uma ponte política de inclusão; a sua atuação editorial aposta na formação de leitores e autores como caminho para a construção de um futuro ancorado na riqueza cultural de uma das regiões mais diversas do maior país da América do Sul, além de encorajar as mulheres a reconhecerem as suas raízes como diferencial, e não como peso

Lucinda Marques, responsável pela Editora IMEPH. Foto: Agência Incomparáveis
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Em um cenário marcado por assimetrias históricas e desafios estruturais, o Nordeste brasileiro reafirma-se como um dos principais polos culturais do Brasil. Foi neste contexto que Lucinda Marques consolidou a sua trajetória à frente de um projeto editorial nascido fora dos grandes centros econômicos, sustentado pela convicção de que o livro constitui instrumento fundamental de cidadania e desenvolvimento.

“O Nordeste é um celeiro cultural muito forte”, afirma a empresária, ao destacar o papel da arte popular, do cordel e da poesia na formação da identidade nacional. Em entrevista à Agência Incomparáveis, esta responsável compartilha a compreensão da cultura como eixo estruturante da sociedade. Para Lucinda, o convívio com a arte humaniza o pensamento e orienta uma estratégia voltada à valorização de autores locais e à circulação efetiva de obras em escolas e comunidades.

Mesmo diante de um mercado editorial concentrado e dos desafios de gerir uma empresa sediada no Nordeste, a diretora da IMEPH ressalta que a editora, embora tenha surgido de forma modesta, expandiu-se pela força do seu projeto literário. Com presença em feiras internacionais e um catálogo que articula tradição e contemporaneidade, defende que a projeção global começa pelo reconhecimento local.

Sendo uma mulher nordestina que construiu uma editora com projeção nacional e internacional, de que forma a sua origem influenciou as escolhas editoriais e a visão estratégica da IMEPH ao longo do tempo?

A criação da editora nasceu de uma visão pessoal que considero quase uma iluminação, já que não possuo formação acadêmica na área nem herança familiar no setor. Fundei a empresa movida pela convicção de que a leitura é um instrumento fundamental de inclusão e transformação social. A minha origem foi decisiva, pois reconheço que o Nordeste abriga inúmeros talentos cujas obras, muitas vezes, não circulam nem na própria região nem no restante do país por falta de espaços de divulgação. A Editora IMEPH assumiu o papel de contribuir para o preenchimento dessa lacuna, atuando desde a educação infantil até a educação de jovens, adultos e idosos. Valorizamos autores de diferentes gerações, como o mestre cordelista Chico Pedrosa, aos 90 anos, cujas obras levamos às escolas para que as crianças se encantem com a métrica e a rima do cordel. O nosso propósito é garantir que o autor amplie a sua renda e, ao mesmo tempo, cumpra a missão de transmitir a sua cultura às novas gerações. É desafiador ocupar espaços em um mercado no qual, embora representemos cerca de 30% da população brasileira, menos de 1% do material que chega às escolas provém de editoras ou autores nordestinos. Por isso, defendo que o poder público incentive a literatura local e valorize a “prata da casa”. Acredito que, para promover inclusão e participação reais, é indispensável reconhecer e valorizar as nossas diferenças e identidades.

Qual é o perfil dos seus autores?

A Editora IMEPH tem o privilégio de publicar a riqueza da cultura nordestina, reunindo cordelistas, repentistas e escritores de diferentes áreas. O nosso catálogo é plural e não se limita geograficamente, incluindo autores do Rio de Janeiro e de São Paulo, como a escritora Pauliana Gama. Tivemos, ainda, a honra de publicar obras de Maurício de Sousa em um projeto internacional voltado a países de língua portuguesa. Um pilar central da nossa linha editorial é o protagonismo da maturidade e a valorização dos nossos tesouros vivos. Acreditamos que a literatura constitui espaço essencial de reconhecimento da sabedoria que se constrói com o tempo. Por isso, mantemos compromisso permanente com a visibilidade de autores veteranos, como o mestre cordelista Chico Pedrosa, referência da nossa identidade, e Antônio Francis, aos 76. Promover escritores nessa fase da vida vai além da publicação: trata-se de assegurar que a métrica, a rima e a oralidade que estruturam a nossa base cultural sejam transmitidas às novas gerações. Embora grande parte da nossa produção dialogue com o público nordestino, o nosso catálogo alcança circulação internacional, pois compreendemos que o papel da editora é humanizar o pensamento e permitir que a experiência literária chegue a leitores de diferentes idades.

Muitos projetos da IMEPH apostam na formação de leitores desde a infância, incluindo as escolas. Qual é o papel das crianças e dos jovens na sua visão de futuro para a literatura e para a cultura no Nordeste?

Se não oferecermos oportunidade e acesso, dificilmente as crianças desenvolverão o gosto pela leitura. Na Editora IMEPH, acreditamos que o encantamento literário deve começar na primeira infância. Dados do projeto Retratos da Leitura indicam que apenas 16% dos lares brasileiros possuem acesso à literatura de qualidade, revelando um vazio presente em grande parte das residências, especialmente entre as camadas socialmente mais vulneráveis. Compreendemos que o incentivo precoce contribui para a formação de leitores críticos e interessados, que muitas vezes passam a inspirar pais e familiares que não tiveram as mesmas oportunidades. Por isso, os projetos desenvolvidos junto às escolas públicas e particulares exercem papel fundamental na constituição de novas gerações leitoras. Durante muito tempo, difundiu-se a ideia de que o escritor era uma figura distante ou inalcançável. Hoje, buscamos demonstrar que leitura e escrita são processos vivos de construção e partilha. Quando o autor percebe o seu trabalho sensibilizando uma criança, sente-se motivado a continuar criando. Da mesma forma, quando o estudante reconhece que quem escreveu aquela história é uma pessoa próxima, que visita a escola e dialoga com a comunidade, a literatura ganha sentido mais concreto e acessível. Essa proximidade humaniza o autor, inspira os jovens e evidencia que a arte pode constituir caminho de vida. Ao mesmo tempo, fortalece a economia criativa, dinamiza a indústria gráfica local e contribui para a geração de emprego, renda, autoestima e cidadania na região.

A valorização de escritores locais e de conteúdos ligados à identidade regional é uma marca do seu trabalho. Como equilibrar essa identidade com a necessidade de dialogar com um mercado editorial nacional e internacional?

Como dizia Liev Tolstói, “canta a tua aldeia e serás universal”. Acredito que aquilo que não é local dificilmente se torna universal. O reconhecimento externo nasce da valorização interna: se não formos percebidos em nossa própria identidade e priorizarmos apenas o que vem de fora, não alcançaremos o equilíbrio nem o espaço que merecemos. O Nordeste representa cerca de 30% da população brasileira. Se as escolas da região consumissem de forma ampla as obras dos nossos autores — diversos, premiados e plurais —, o impacto cultural e educacional seria profundamente positivo. Quando a cultura popular conquista protagonismo interno, a projeção para o restante do país e para o exterior torna-se consequência natural. Um exemplo dessa projeção foi a organização do espaço de Cordel e Repente na Bienal de São Paulo, reconhecido como um dos destaques do evento. Recebemos visitantes de diversas regiões que, encantados, perguntavam por que essa arte ainda não chegava aos seus territórios. Isso demonstra que o interesse existe; o que falta é valorização local associada a uma visão estratégica capaz de levar nossa produção para o Brasil e para o mundo. Essa perspectiva sempre constituiu o alicerce da Editora IMEPH, orientando as suas escolhas desde a fundação. Mais do que publicar livros, a nossa missão é consolidar a literatura como ponte de reconhecimento que parte das nossas raízes para alcançar projeção global.

Enquanto mulher líder no setor editorial, que obstáculos encontrou ao longo do percurso e que aprendizagens considera essenciais para outras mulheres que pretendem empreender na área cultural e literária?

De modo geral, os obstáculos são imensos, sobretudo por gerirmos uma empresa de pequeno porte sediada no Nordeste e enfrentarmos o desafio de competir com multinacionais de grande capital. Ainda assim, acredito que uma editora pode nascer pequena, mas torna-se gigante pela força da sua literatura e da sua arte. Essa grandeza se reflete na minha trajetória, que reafirma a liderança feminina como exercício permanente de resiliência. Prova disso é a presença em cenários internacionais: participei do Salão do Livro de Paris, de cinco feiras na Alemanha, além de eventos em Bolonha, Londres e, mais recentemente, da Fliporto, no Brasil e em Portugal. Essas experiências demonstram que o espaço para a mulher nordestina existe, mas precisa ser conquistado com firmeza e consistência. O conselho essencial que deixo a outras mulheres é simples: acreditem que podem, e devem, ocupar todos os espaços de decisão. O empreendedorismo feminino na cultura exige coragem para romper barreiras e transformar sensibilidade em estratégia. Embora o caminho não seja fácil, a nossa capacidade de articulação e a força das nossas raízes mostram que nada é impossível quando confiamos no nosso potencial. Valorizar a trajetória de outras mulheres e fortalecer redes de apoio é o que nos permite crescer juntas e projetar a nossa voz para o mundo.

Olhando para o seu trajeto pessoal e profissional, que mensagem deixa às novas gerações de mulheres nordestinas que desejam vencer no campo do livro, da educação e da cultura, sem abdicar das suas raízes?

A mensagem que deixo é que toda conquista começa pelo autoacolhimento e pela confiança no próprio potencial. Acreditar em si mesma, cultivar persistência e agir com determinação são atitudes fundamentais para enfrentar os desafios do mercado. Vencer no campo da cultura e da educação exige abraçar uma causa com vigor e coragem. Mais do que isso, encorajo essas mulheres a reconhecerem suas raízes como diferencial, e não como peso. A identidade nordestina é a nossa maior riqueza e aquilo que nos torna únicas em qualquer lugar do mundo. Quando caminhamos com propósito e paixão, os resultados surgem como consequência natural dessa entrega.

Qual a sua opinião sobre a cultura do Nordeste brasileiro?

O Nordeste é um celeiro cultural de extraordinária força, que se manifesta na literatura de cordel, na cultura popular, na música, na poesia, no cinema e nas múltiplas expressões artísticas da região. Possuímos uma identidade vibrante que se traduz em festas populares marcantes, do Carnaval ao São João, reconhecidas em todo o país. Sou profundamente entusiasta dessa riqueza e confesso que vejo no Nordeste uma expressão cultural singular e inspiradora. Além disso, o reconhecimento internacional do nosso catálogo e a organização de espaços de destaque em eventos como a Bienal de São Paulo demonstram que a arte popular nordestina, quando valorizada, dialoga com o mundo e reafirma a região como um dos grandes motores culturais do Brasil. A literatura de cordel é exemplo dessa potência: por isso, levamos o cordel às escolas para que as crianças se encantem com a sua métrica e a sua rima, preservando as nossas origens e projetando-as para o futuro.

Por fim, quem é Lucinda Marques? E que projetos estão em mente pela IMEPH neste momento?

Sou uma mulher feliz e profundamente grata por ter nascido no Nordeste. Tenho tanto orgulho das minhas raízes que, se não fosse nordestina de nascimento, certamente o seria por escolha; e, se não vivesse aqui, este seria o lugar onde desejaria morar. A minha missão de vida confunde-se com o futuro da Editora IMEPH. Acredito que ainda posso contribuir significativamente para o mercado editorial, publicando e dando voz a mais autores nordestinos, estejam eles na nossa região ou em qualquer parte do mundo. Entre os projetos que me movem está a continuidade do trabalho que aproxima música e literatura, algo que me encanta e torna a convivência com artistas e escritores uma experiência profundamente gratificante.  ■

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