Opinião: “Lusofonia e a importância das trocas culturais entre os países de língua portuguesa”, por Antônio Campos

“A cultura é o território onde a lusofonia se reconhece sem precisar se uniformizar. Pelo contrário, é na diferença que ela se afirma”

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Antônio Campos, advogado e escritor
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A lusofonia não é apenas um mapa linguístico espalhado pelo mundo; é um arquipélago de vozes. De Lisboa a Maputo, de Luanda a Salvador, de Bissau a Díli, a língua portuguesa atravessa oceanos como uma memória em movimento, carregando histórias, afetos e silêncios. Cada povo a pronuncia de modo próprio, como se a língua fosse um instrumento antigo, afinado de maneira distinta em cada porto.

Nas trocas culturais entre os países lusófonos reside a força vital dessa comunidade dispersa. Quando um livro cruza o Atlântico, quando uma canção africana ecoa no Brasil ou um filme brasileiro encontra público em Portugal, algo se recompõe. Não se trata apenas de circulação de obras, mas de reconhecimento: o outro deixa de ser distante e passa a ser espelho, ainda que fragmentado.

A cultura é o território onde a lusofonia se reconhece sem precisar se uniformizar. Pelo contrário, é na diferença que ela se afirma. O português falado nas ilhas, no sertão, na savana ou nas cidades costeiras carrega marcas do tempo, da terra e da resistência. Cada troca cultural é, assim, um gesto de escuta, uma forma de aceitar que a língua comum não apaga identidades, mas as abriga.

Esses intercâmbios funcionam como pontes invisíveis. Superam a herança pesada da história, inclusive suas sombras coloniais, ao permitir novas narrativas, agora contadas a muitas vozes. Na literatura, na música, no teatro e no cinema, os países lusófonos reinventam o passado e imaginam futuros possíveis, mais solidários e compartilhados.

Num mundo apressado, que muitas vezes valoriza apenas o imediato e o utilitário, a lusofonia propõe outro tempo: o tempo da palavra, da memória e do encontro. Fortalecer as trocas culturais entre os povos que falam português é preservar essa possibilidade rara — a de reconhecer no outro não um estrangeiro, mas alguém que habita a mesma casa simbólica da língua.

Recentemente, foi realizada uma pesquisa e criado o Barômetro da Lusofonia com a coordenação do Professor Antônio Lavareda. Estamos dialogando para fazer uma parceria e uma apresentação durante a Fliporto Brasil 2026, em novembro.

A lusofonia, afinal, não se sustenta apenas por tratados ou instituições. Ela vive no gesto simples de contar histórias uns aos outros. E enquanto essas histórias circularem, a língua continuará viva — múltipla, mestiça e profundamente humana.  ■

Antônio Campos

Advogado e escritor

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