
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia voltou a ser debatido pelo público. A controvérsia é bem-vinda, mas é precisamente agora que se impõe uma análise serena, estratégica e orientada a resultados e não a slogans.
Na prática, o acordo reduz tarifas, amplia previsibilidade regulatória e integra cadeias produtivas entre dois grandes mercados. Para o consumidor sul-americano, isso significa acesso a bens europeus hoje onerados por impostos elevados. Para produtores europeus, abre-se um mercado em expansão, com demanda crescente por produtos de valor agregado. Trata-se de concorrência? Sim. Mas também de estímulo à eficiência, à inovação e à especialização.
As resistências na Europa, sobretudo no setor agrícola, merecem respeito. Elas revelam um ponto sensível: liberalização sem política de adaptação gera perdedores concentrados. A resposta correta, porém, não é bloquear o comércio, e sim combinar abertura com salvaguardas transitórias, investimento em produtividade e apoio à transição. O protecionismo pode adiar ajustes; não os elimina.
Para o Brasil, o acordo é uma oportunidade dupla. De um lado, amplia exportações e integra o país a padrões regulatórios avançados, elevando a qualidade e a rastreabilidade da produção. De outro, força uma agenda doméstica inadiável: logística, crédito, tecnologia e sustentabilidade. Sem isso, não há ganho estrutural. Com isso, há salto competitivo.
Portugal ocupa posição singular. Como economia aberta e exportadora, com forte presença em vinhos, agroindústria e serviços, pode transformar o acordo em plataforma de crescimento no Atlântico Sul, especialmente se souber combinar marcas de origem, diplomacia económica e escala empresarial.
No pano de fundo, há uma dimensão geopolítica que não pode ser ignorada. Em um mundo de cadeias fragmentadas e tensões comerciais, Mercosul e União Europeia sinalizam compromisso com regras, previsibilidade e integração. Isso é ativo estratégico.
O acordo não é o ideal. Exige ajustes, monitorização e coragem política. Mas rejeitá-lo por medo é perder o futuro por apego ao passado. O caminho responsável é avançar, corrigindo rotas quando necessário: com menos ideologia e mais estratégia. ■
Otacilio Soares da Silva Filho
Chair do Advisory Board da Targa Advisors e presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira




