Opinião: “Mulheres x maternidade: um direito sobre nossos corpos”, por Iara Lemos

“Ao longo da minha existência, já perdi as contas de quantas vezes fui interrogada pelo motivo pelo qual não quis ter filhos. A pergunta veio desde pessoas da minha família, de amigos próximos, e até mesmo de desconhecidos, que por algum motivo se consideram no direito de questionar o que não os diz respeito”

Iara Lemos, Prêmio Esso de Jornalismo e de Prêmio de Direitos Humanos. Foto: divulgação
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Houve um tempo, não muito distante, em que ter filhos era algo tão natural para uma mulher quanto tomar banho, e o casamento era o caminho até eles. Sou de uma geração em que essas duas situações caminhavam juntas, mas que, com o avanço da escolaridade feminina e sobretudo, com o advento da pauta feminista, passaram a percorrer estradas opostas para parte das mulheres. Dentre elas, o grupo o qual me incluo. Nos tempos atuais, as democracias permitem que o casamento não signifique mais sentença de maternidade, assim como maternidade não necessita estar ligada a algum tipo de relacionamento. Somos uma geração com direito sobre os nossos corpos. E, acima de tudo, direitos sobre as nossas escolhas, sejam elas a de casar ou a de procriar. Ainda assim, é lamentável que tenhamos que explicar o motivo que nos leva a tomar determinadas decisões, como a escolha por não ter filhos.

Ao longo da minha existência, já perdi as contas de quantas vezes fui interrogada pelo motivo pelo qual não quis ter filhos. A pergunta veio desde pessoas da minha família, de amigos próximos, e até mesmo de desconhecidos, que por algum motivo se consideram no direito de questionar o que não os diz respeito. Eu jamais perguntei por que uma mulher quis ser mãe. Causa-me estranheza, portanto que, em pleno ano de 2026, ainda tenha de responder a questionamentos sobre o porquê escolhi não optar pela maternidade.

Há duas formas subentendidas nas perguntas: as das mulheres, que quando mães se consideram mais “íntegras” que eu, a incompleta e, portanto, jamais conhecedora daquele que é tido como o maior amor do mundo; e o dos homens, que buscam nos relacionamentos a mãe para seus filhos e uma substituta para o papel das suas próprias matriarcas, como donas de casas e dependentes física e emocionalmente da subentendida e perigosa masculinidade excessiva, por vezes, não raras, travestida de cuidado. Perigosamente ainda encontramos na sociedade, escondida entre comentários disfarçados de brincadeiras, que a mulher para casar é aquela boa para ser mãe. Já as mulheres sem filhos são consideradas de fácil uso e rápido descarte.

Não à toa, a camada de mulheres solteiras e que optam por não ter filhos cresce na mesma proporção das que precisam assumir sozinhas a responsabilidade pelo cuidado dos filhos. Ser mãe solo se tornou quase uma regra de sobrevivência para as mulheres que buscam romper as gaiolas no qual a sociedade as coloca ao longo da nossa existência. São similaridades que norteiam as realidades das mulheres, tanto no Brasil quanto em Portugal. Enquanto no Brasil os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)[1] apontam que entre 15% e 20% das famílias são sustentadas pelo pilar da solidão feminina, em Portugal os índices mostram que um quinto das famílias é composta por mães que vivem sozinhas com seus filhos, em um crescimento de 36%[2] neste modelo familiar registrado na última década, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística. Ser mãe tem se transformado em uma árdua tarefa solitária. Por maior que seja o amor, nada evita o peso que as mulheres enfrentam em ter de criar um filho sozinhas.

Às mulheres, para as quais a gravidez ainda é transformada de experiência íntima em assunto público, ainda cabe, em boa parte dos relacionamentos, a responsabilidade por pedir ao parceiro o uso do preservativo, o que demonstra ainda mais a necessidade de valorização dos nossos corpos e nossos desejos. Em 2023, uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde do Brasil, com base em dados da Pesquisa Nacional de Saúde relativos ao período de 2019, apontou que ao menos 60% dos brasileiros com mais de 18 anos não usaram preservativo em nenhuma relação sexual que mantiveram.

No mesmo ano da coleta dos dados, outra pesquisa, realizada pela farmacêutica Bayer, juntamente com a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e do Think about Needs in Contraception (Tango)[3], apontou que, entre as mulheres em idade fértil no Brasil, 37% não manifestam interesse em ter filhos. Ainda assim, as formas de proteção utilizadas são poucas. Muitas por desconhecimento das formas de prevenção, muitas outras por confiança em seus parceiros. A confiança, essa palavrinha tão pequena e repleta de significados que leva nós, mulheres, a nos entregarmos e confiarmos nos homens, em uma necessidade única de cuidado e de proteção que nem mesmo todos os avanços feministas conquistados foram capazes de suprir. É assim que ainda vivemos: em uma sociedade patriarcal que coloca a mulher como a que precisa de cuidados, descreditando nossa própria autonomia, mesmo quando percorremos o mundo difundindo nossas ideias. Neste cenário, é fundamental que a mulher entenda que, sobretudo, o cuidado necessário é consigo mesmo, o que não obrigatoriamente está relacionado à presença masculina. Mas, se aceitarmos esse modelo de proteção ligado a gênero, que seja verdadeiro e parceiro, não uma via de mão única onde a mulher precise se encaixar para caber em expectativas pré-definidas.

Neste Dia Internacional da Mulher, em que brindamos nossas conquistas tão almejadas ao longo dos anos, ainda nos deparamos com os mesmos estereótipos de homens que cercam, conquistam e se utilizam das mulheres em todos os aspectos, sejam eles físicos ou emocionais, e descartam como roupas velhas, ou, em casos mais extremos e não menos comum, matam, em uma relação de poder e dominação doentia que nos impede de ser feliz. Ainda somos as mulheres que precisam se encaixar no que os homens classificam como necessário para suas vidas. Lamentável que, ainda em pleno 2026, tenhamos que viver em uma sociedade que nos coloca em gaiolas como necessidade para que possamos nos mantermos vivas. Enquanto assim vivermos, o Dia Internacional da Mulher vai sempre necessitar ser de luta, e nunca poderemos nos cansar de lutar. Que possamos seguir vivas lutando pelos nossos direitos. ■

Iara Lemos

Jornalista, formada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Mestranda em Estudo Sobre as Mulheres – Gênero, Cidadania e Desenvolvimento, pela Universidade Aberta de Lisboa (UaB). Possui pós-graduação em História Política (UFSM). Indicada pelo U.S. Department of State e o Atlantic Council GeoTech Center para participar do colegiado de Inteligência Artificial da Organização para Cooperação e Desenvolvimento (OCDE). Prêmio Esso de Jornalismo e de Prêmio de Direitos Humanos. Autora dos livros O Silêncio das Gaiolas (Mizuno) e “A Cruz Haitiana- Como a Igreja Católica usou de seu poder para esconder religiosos no Haiti”. Co-autora de Crimes Contra as Mulheres; Direito das Mulheres e de Crimes contra Crianças e Adolescentes, os três pela Editora Mizuno.

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

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[1] https://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2023/05/12/brasil-tem-mais-de-11-milhoes-de-maes-que-criam-os-filhos-sozinhas.ghtml

[2] https://www.rtp.pt/noticias/pais/numero-de-maes-que-vivem-sozinhas-com-os-filhos-aumentou-361-em-10-anos_n648520

[3] https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2019/09/25/diafragma-esta-em-alta-conheca-os-pros-e-contras-do-metodo-contraceptivo.htm#:~:text=No%20Brasil%2C%2037%25%20das%20mulheres,/09/2019%20%2D%20UOL%20Universa

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