Opinião: “O Silêncio de um Génio: António Lobo Antunes (1942-2026)”, por João Morgado

“Os seus romances eram pensamentos gigantes. Confusos e labirínticos como todos os pensamentos autênticos”

João Morgado, escritor
- Publicidade -

Morreu o escritor António Lobo Antunes. Tinha 83 anos e deixa uma obra monumental que revolucionou para sempre a forma de escrever em língua portuguesa. Com o seu desaparecimento físico, encerra um dos capítulos mais brilhantes e controversos da literatura portuguesa contemporânea. 

Lobo Antunes não foi um imitador. Num panorama literário português frequentemente marcado por ecos e reverências, ele ergueu-se como uma voz absolutamente original. A sua prosa labiríntica, polifónica, desconcertante, não tinha paralelo na nossa língua. Era uma escrita que respirava, que arfava, que sangrava sobre o papel.

E quando muitos começaram a imitá-lo, que é uma condição dos génios, ele evoluiu. Passou para outra fase. Recusou-se a ser prisioneiro de si mesmo, do seu próprio estilo. Os primeiros romances, marcados pela experiência da guerra colonial e pela violência autobiográfica de “Memória de Elefante” e “Os Cus de Judas”, deram lugar às vastas sinfonias narrativas de “Fado Alexandrino” e “O Manual dos Inquisidores”. Depois, adensou ainda mais a escrita, tornou-a quase impenetrável, como se testasse os limites do que a linguagem pode suportar.

Os seus romances eram pensamentos gigantes. Confusos e labirínticos como todos os pensamentos autênticos. Por isso tanta gente dizia que não os entendia. Confesso que eu também me perdia naqueles rios de consciência, naquelas vozes que se sobrepunham umas às outras, naquele tempo que se dissolvia e se reconstituía. E confesso que continuava a ler pelo puro prazer de o ler, porque estava diante de um génio. Os génios são leituras e experiências. 

Como todos os génios, Lobo Antunes tinha um feitio difícil, uma língua afiada tanto a falar como a escrever. Dizia o que não era politicamente correcto. Isso enervava as pessoas acomodadas do sistema, os burocratas da cultura, os guardiões do bom-tom. Porque ele não estava domesticado — nem como pessoa, nem como escritor. Punha tudo em causa. Reduzia a lixo o que muitos pintavam de ouro. Chamava os bois pelos nomes, punha a nu os reizinhos do burgo. E isso, claro, incomodava.

Das vezes que tive a sorte de estar com ele, foi sempre de uma delicadeza e educação inesperadas. Talvez tenha tido sorte de o apanhar nos dias bons. Ou talvez ele estivesse sempre nos dias bons e soubesse disfarçar uma certa maldade estratégica para afastar as moscas.

Agora que partiu, talvez volte a febre de ler António Lobo Antunes. Talvez agora regresse a sua genialidade, com a força dos clássicos que nunca morrem. Agora que aqueles que temiam a sua sombra são obrigados, pela decência do luto, a dizer bem dele. 

Eu, por mim, hoje vou ler “Da Natureza dos Deuses”. E vocês?  ■

João Morgado 

Escritor

www.joaomorgado.net

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.