O escritor, advogado e secretário de Estado da Cultura de Portugal, Alberto Santos, apresentou a sua mais recente obra centrada na tragédia do Hospital Colónia de Barbacena, no Brasil, destacando o processo criativo por detrás do livro e a forma como transformou um episódio histórico de extrema violência numa narrativa literária marcada pela contenção e pela reflexão.
Na construção da obra, o autor adotou um critério rigoroso de escrita, recusando qualquer tentativa de embelezamento da dor e eliminando todas as formulações que pudessem suavizar o impacto da realidade, o que lhe permitiu apresentar uma linguagem capaz de confrontar diretamente o leitor sem o “anestesiar” perante o horror.
Neste contexto de desumanização extrema, os elementos materiais assumem um papel central na narrativa, com o ferro, a cal e o vento a surgirem como forças dominantes que substituem a presença humana e evidenciam a ausência de compaixão no quotidiano dos internos.
Neste sentido, a personagem de Bernardo constitui um dos eixos mais marcantes da obra, destacando-se pela forma como comunica através do silêncio, que deixa de ser ausência para se transformar numa linguagem própria feita de gestos, olhares e pequenas presenças, dando origem à chamada “gramática das grades” como código de sobrevivência.
É também nesse espaço mínimo de comunicação que se constrói a relação entre Bernardo e Teresinha, baseada numa ligação intuitiva que ultrapassa a linguagem convencional e que, inspirada numa figura real, simboliza todos aqueles que foram excluídos e invisibilizados pela sociedade.
O livro explora ainda a banalização da violência através da atuação de figuras institucionais que, longe de se apresentarem como vilões evidentes, incorporam a desumanização na sua rotina, transformando a crueldade em procedimento administrativo e em prática normalizada.
Outro elemento relevante é o contraste entre a imagem exterior de Barbacena, conhecida pelos seus roseirais, e a realidade vivida no interior do hospital, onde os internos eram utilizados como mão de obra, criando um paradoxo entre a beleza das flores e o sofrimento humano que sustentava essa atividade.
Deste modo, mais do que uma narrativa histórica, a obra do escritor e governante português Alberto Santos assume-se como um alerta universal, convidando à reflexão sobre os mecanismos de exclusão e sobre a necessidade de preservar a dignidade humana, ao sublinhar que episódios desta natureza podem repetir-se se não forem compreendidos e lembrados. ■





