Durante evento social e cultural em Genebra, que reuniu diplomatas, artistas e membros da comunidade brasileira, portuguesa e lusófona na Suíça, o Gazeta Lusófona conversou com Evaristo Nunes, vice-cônsul do Brasil em Genebra, que destacou a importância da cultura, da integração e do apoio à comunidade brasileira no país helvético.
Este diplomata comentou sobre a diversidade e o perfil da comunidade brasileira em Genebra, que inclui desde profissionais da saúde e engenheiros até músicos e escritores, destacando também a integração plena dos brasileiros na sociedade suíça e a variedade de origens dentro da comunidade, que abrange diferentes regiões do Brasil e combinações binacionais com portugueses, italianos e espanhóis.
À margem do “Award Suisse 2026”, realizado dia 21 de março, em Genebra, e organizado pela RBCE Network, o vice-cônsul brasileiro falou sobre os serviços consulares, revelando que a quantidade de atendimentos praticamente dobrou, além de realçar a preocupação com a próxima geração de brasileiros emigrados, já que, na sua opinião, “manter a cultura, a língua e as raízes é essencial para a integração e o fortalecimento da comunidade no exterior”.
Como classifica hoje a comunidade brasileira que reside na Suíça, especificamente em Genebra?
A nossa comunidade é muito grande, não tão grande como a portuguesa, obviamente, e por razões óbvias, mas uma comunidade extremamente diversa, com um perfil heterégeno. Temos desde banqueiros, pessoal do trabalho doméstico, médicos, escritores. O Paulo Coelho, que é escritor, por exemplo, mora aqui, e tem um museu, inclusive. Então, temos uma comunidade muito plural, que nos impõe um desafio imenso de preparação, de conhecimento, tanto das questões suíças, das questões europeias, mas, claro, tentando acomodar isso dentro das questões brasileiras. E, cada dia que passa, cada vez mais é o nosso trabalho. Nós estamos crescendo, nós praticamente dobramos a quantidade de serviços consulares, o que só reforça a necessidade de um serviço presente e de qualidade.
E o perfil dos brasileiros que vivem aqui, qual é?
Eu diria que três quartos, mais ou menos, são mulheres. Na Suíça francesa, há pessoas do Nordeste e do Norte, também de Goiás e um pouco de Minas Gerais. São pessoas que, obviamente, estão espalhadas em vários setores, então não dá para especificar o perfil do trabalhador, mas muitos são binacionais. Há muitos brasileiros-italianos, brasileiros-portugueses, brasileiros-espanhóis, então há uma variedade.
Integrados completamente já na sociedade suíça?
Completamente integrados…
Como estão as relações Brasil e Suíça?
Nesse aspeto, quem toma conta do tema das relações Brasil-Suíça, como país, é a Embaixada do Brasil em Berna, mas o que eu posso dizer é que o acordo Mercosul-União Europeia está andando rapidamente, aliás, eu sou um dos especialistas nesse tema, a minha tese de mestrado é sobre esse tema. Mas o outro bloco, que é o EFTA – Associação Europeia de Comércio Livre, composta por quatro países que não pertencem à União Europeia: Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, é outro acordo que também foi celebrado, até mesmo antes do acordo com entre UE e Mercosul. Os dois temas estão caminhando juntos, por razões naturais, são economias muito complementares, mas, nesse aspeto, especificamente comercial, as coisas estão andando muito rapidamente, e as relações Brasil-Suíça são históricas. Desde que o Brasil é Brasil, no sentido de independência, existem relações Brasil-Suíça. Desde que a Confederação Helvética não era ainda nem Suíça, já havia presença Suíça no Brasil.
Como vê a interação dos cidadãos lusófonos num país que conta com quatro línguas oficiais: alemão, francês, italiano e romanche. Existe uma língua estrangeira, como a portuguesa, bem presente nas ruas, tendo em conta a imigração massiva de brasileiros e portugueses, por exemplo…
É engraçado isso, porque, obviamente, falamos a mesma língua, mas o registo fonético é diferente, e obviamente que a “pegada” cultural está dentro da língua. Então, certos trejeitos, certos cacoetes de uma das formas de falar o português não encontram ressonância, às vezes, no outro. Mas é normal e é muito bom. Os meus filhos, por exemplo, fazem catequese junto da comunidade portuguesa. O padre é brasileiro. E está tudo bem! Então, o que acontece aqui é que os portugueses, como são imigrantes, e nós, brasileiros, também somos imigrantes, acaba que a aproximação é muito natural. Há muitos casais entre brasileiros e portugueses.
É uma dinâmica orgânica?
É muito orgânica, e orgânica no nível familiar. É muito comum um casal brasileiro-português na Suíça. É extremamente comum que, numa família, tenha um marido ou uma mulher portuguesa e, do outro lado, um marido ou uma mulher brasileira. Claro que isso gera algumas tensões, obviamente, mas essas tensões estão longe de ser uma questão que impeça a comunicação e a integração. E acaba que uma comunidade reforça a outra.
Que mensagem deixa para a comunidade brasileira residente aqui em Genebra e que pode precisar do vosso serviço?
Estamos agora com uma nova instalação, próxima à ONU. É uma instalação muito moderna, muito boa, atendemos todos os dias, fazemos atividades extras aos sábados, vamos para Lausanne, enfim, estamos com um planeamento de itinerância exatamente para poder abarcar essa comunidade que é maravilhosa, que está mais afastada do centro de Genebra, e nós estamos nessa lide diária que é representar, acolher, prestar serviço e reorientar, porque, afinal, nós não podemos esquecer que emigramos, e, no Brasil, infelizmente, não há uma cultura ainda da emigração. O brasileiro acaba saindo do país, talvez um pouco sem estar muito bem preparado para esse momento. E com a consciência e o conhecimento de que precisa emigrar com a sua condição, fica mais fácil. A nossa intenção aqui é exatamente que a integração e a emigração sejam ótimas, mas que também a imigração seja bem resolvida. (…) Porque quem não tem raiz cai. Quem não tem raiz tomba. É disso que se trata. A gente tem hoje uma preocupação muito grande com a próxima geração de brasileiros emigrados. É um olhar atento que a diplomacia brasileira tem. A gente tem um olhar muito sério sobre isso, porque nós já estamos na segunda, terceira, quarta geração de emigrados. Língua, cultura, obrigações, proximidade, comunidade, tudo isso importa. Principalmente no mundo tão hostil ao estrangeiro. Se estou bem seguro de mim, por mais que o mundo esteja caindo, continuo bem seguro de mim. É disso que se trata. ■





