
Enquanto alguns países europeus impõem resistências ao Acordo UE–Mercosul, uma frente de afinidades culturais e estratégicas — Brasil, Argentina, Portugal e Espanha — emerge como alicerce diplomático capaz de construir pontes na Europa e afinar o entendimento entre os blocos.
Diante do avanço das negociações, com o texto validado pela Comissão Europeia em setembro de 2025, e com a previsão de assinatura já em dezembro, essa frente “atlântica” tem papel decisivo a desempenhar.
- Base de afinidades: linguística, cultural e histórica
Portugal e Espanha compartilham laços profundos com países latino-americanos — inclusive com a Lusofonia brasileira e o legado hispânico argentino — o que os torna interlocutores naturais dentro da UE.
As vias diplomáticas ibéricas frequentemente operam como mediadoras entre a Europa continental e a América Latina, tendo credibilidade em ambos os lados.
Brasil e Argentina, como pilares do Mercosul e grandes potências agrícolas e industriais regionais, trazem peso de fato ao bloco sul-americano.
- Papel modulador de Portugal e Espanha
Portugal e Espanha já demonstraram apoio retórico consistente ao avanço do acordo UE–Mercosul, defendendo que a Europa se beneficie da complementaridade com a América Latina.
Sob presidências do Conselho da EU, quando exercidas, esses países podem articular agendas internas para facilitar aprovação nos Estados-membros.
A sua projeção política pode ajudar a aliviar narrativas protecionistas em países como França e Bélgica, mostrando que o pacto pode conviver com exigências ambientais e sociais.
- Liderança estratégica brasileira: hora de comandar
O Brasil precisa assumir a coordenação ativa no Mercosul para que Argentina, Paraguai, Uruguai (e eventualmente Bolívia) falem com uma só voz nas negociações externas.
Ao lado da Argentina, como co‑proponente latino, o Brasil fortalece legitimidade e amplifica a pressão diplomática sobre a UE para que o pacto seja mantido em equilíbrio.
Para persuadir o Parlamento Europeu e governos nacionais, essa frente pode apresentar compromissos de sustentabilidade, mecanismos de salvaguarda e garantias de governança transparente.
- Resistências europeias: além da técnica, política
França e países agrários veem no acordo uma ameaça para os seus agricultores locais e exigem cláusulas extras.
Parlamentares verdes criticam o pacto por supostamente comprometer o meio ambiente.
A diplomacia da frente atlântica deve antecipar esses argumentos, oferecer visões de co-governança ambiental e demonstrar que o pacto pode fortalecer, e não enfraquecer, os compromissos climáticos.
- O que essa frente pode efetivamente fazer
Promover encontros trilaterais entre chancelarias Brasil–Portugal–Espanha, e incluir a Argentina, para alinhar posicionamentos diplomáticos e estratégia de lobby nos parlamentos europeus.
Produzir documentos conjuntos e press-releases transatlânticos que enfatizem valores partilhados, como desenvolvimento sustentável, cooperação, multilateralismo.
Propor missões comerciais e culturais interblocos que estreitem o contacto entre empresários ibéricos e latino-americanos.
Antecipar ou replicar compromissos ambientais e regulatórios para mostrar que os países latino‑ibéricos já estão incorporando padrões exigidos pelos europeus.
Num momento de alta complexidade geopolítica, Brasil, Argentina, Portugal e Espanha não são meros aliados, são a “ponte atlântica” que tem credibilidade em ambos os lados do oceano. Se essa frente atuar com inteligência diplomática, coordenação estratégica e narrativa convincente, pode ser o fator decisivo para que o Acordo UE–Mercosul deixe de ser uma promessa e se torne realidade. ■
Carlos Alberto Lopes
Presidente da Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil, COO Sabseg Brasil, produtor rural
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