Opinião: “Brasil, Argentina, Portugal e Espanha: A frente atlântica para viabilizar o acordo UE–Mercosul”, por Carlos Lopes

“Uma aliança histórica e estratégica pode ser o motor diplomático que destrava resistências na Europa e legitima a ambição latino-ibérica no pacto comercial”

0
103
Carlos Alberto Lopes, presidente da Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil, COO Sabseg Brasil, produtor rural
- Publicidade -

Enquanto alguns países europeus impõem resistências ao Acordo UE–Mercosul, uma frente de afinidades culturais e estratégicas — Brasil, Argentina, Portugal e Espanha — emerge como alicerce diplomático capaz de construir pontes na Europa e afinar o entendimento entre os blocos.

Diante do avanço das negociações, com o texto validado pela Comissão Europeia em setembro de 2025, e com a previsão de assinatura já em dezembro, essa frente “atlântica” tem papel decisivo a desempenhar.

  1. Base de afinidades: linguística, cultural e histórica

Portugal e Espanha compartilham laços profundos com países latino-americanos — inclusive com a Lusofonia brasileira e o legado hispânico argentino — o que os torna interlocutores naturais dentro da UE.

As vias diplomáticas ibéricas frequentemente operam como mediadoras entre a Europa continental e a América Latina, tendo credibilidade em ambos os lados.

Brasil e Argentina, como pilares do Mercosul e grandes potências agrícolas e industriais regionais, trazem peso de fato ao bloco sul-americano.

  1. Papel modulador de Portugal e Espanha

Portugal e Espanha já demonstraram apoio retórico consistente ao avanço do acordo UE–Mercosul, defendendo que a Europa se beneficie da complementaridade com a América Latina.

Sob presidências do Conselho da EU, quando exercidas, esses países podem articular agendas internas para facilitar aprovação nos Estados-membros.

A sua projeção política pode ajudar a aliviar narrativas protecionistas em países como França e Bélgica, mostrando que o pacto pode conviver com exigências ambientais e sociais.

  1. Liderança estratégica brasileira: hora de comandar

O Brasil precisa assumir a coordenação ativa no Mercosul para que Argentina, Paraguai, Uruguai (e eventualmente Bolívia) falem com uma só voz nas negociações externas.

Ao lado da Argentina, como co‑proponente latino, o Brasil fortalece legitimidade e amplifica a pressão diplomática sobre a UE para que o pacto seja mantido em equilíbrio.

Para persuadir o Parlamento Europeu e governos nacionais, essa frente pode apresentar compromissos de sustentabilidade, mecanismos de salvaguarda e garantias de governança transparente.

  1. Resistências europeias: além da técnica, política

França e países agrários veem no acordo uma ameaça para os seus agricultores locais e exigem cláusulas extras.

Parlamentares verdes criticam o pacto por supostamente comprometer o meio ambiente.

A diplomacia da frente atlântica deve antecipar esses argumentos, oferecer visões de co-governança ambiental e demonstrar que o pacto pode fortalecer, e não enfraquecer, os compromissos climáticos.

  1. O que essa frente pode efetivamente fazer

Promover encontros trilaterais entre chancelarias Brasil–Portugal–Espanha, e incluir a Argentina, para alinhar posicionamentos diplomáticos e estratégia de lobby nos parlamentos europeus.

Produzir documentos conjuntos e press-releases transatlânticos que enfatizem valores partilhados, como desenvolvimento sustentável, cooperação, multilateralismo.

Propor missões comerciais e culturais interblocos que estreitem o contacto entre empresários ibéricos e latino-americanos.

Antecipar ou replicar compromissos ambientais e regulatórios para mostrar que os países latino‑ibéricos já estão incorporando padrões exigidos pelos europeus.

Num momento de alta complexidade geopolítica, Brasil, Argentina, Portugal e Espanha não são meros aliados, são a “ponte atlântica” que tem credibilidade em ambos os lados do oceano. Se essa frente atuar com inteligência diplomática, coordenação estratégica e narrativa convincente, pode ser o fator decisivo para que o Acordo UE–Mercosul deixe de ser uma promessa e se torne realidade.  ■

Carlos Alberto Lopes

Presidente da Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil, COO Sabseg Brasil, produtor rural

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.