Caracas: Panalíngua realiza conversas em português gratuitamente

Iniciativa decorre na capital venezuelana

Foto: divulgação
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Embora ainda falte celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa, comemorado a cada 5 de maio, num país de língua espanhola como a Venezuela surgiu a curiosidade de aprender outras línguas, entre elas o português. Por ser um país vizinho do Brasil e contar com uma comunidade portuguesa muito numerosa, é normal que os venezuelanos se interessem pela língua de Camões.

Assim como o inglês, por ser a língua universal e pela influência dos Estados Unidos da América, os venezuelanos se interessam pela língua anglo-saxônica. O mesmo ocorre com a língua francesa, graças ao excelente trabalho da diplomacia francesa, em focar seu objetivo principal de divulgar a cultura e a língua francesa através da Aliança Francesa.

Aprender uma língua convida-nos a conhecer diferentes culturas e formas de pensar num mundo cada vez mais comunicado pela globalização. Assim, em 2018, foi criado o Duolingo Caracas, hoje renomeado como “Panalingua”, com o objetivo de reunir jovens e adultos de Caracas para conversar em línguas estrangeiras gratuitamente, realizando atividades presenciais para saber o quanto aprenderam as diferentes línguas através da aplicação digital, Duolingo.

Panalingua é uma comunidade organizada sem fins lucrativos dedicada a promover a aprendizagem de idiomas na cidade de Caracas. Desde o seu nascimento como grupo, dedicava-se apenas a estabelecer conversas em inglês, e aos poucos foram adicionando outros idiomas como francês, italiano, alemão, russo, coreano, japonês e português, que foi incluído a partir de janeiro de 2019.

Esta comunidade de jovens e adultos poliglotas também surgiu da oportunidade para que os utilizadores da aplicação Duolingo pudessem colocar em prática as suas habilidades de conversação, tudo isso sob a figura de embaixadores do Duolingo. No entanto, durante a pandemia da COVID-19, teve que se transferir para o meio digital, onde a comunidade que surgiu na capital venezuelana de forma presencial conseguiu se expandir internacionalmente.

A Panalingua foi fundada pelo poliglota Eskeiver Robles, responsável pela comunidade, acompanhado pela sua diretora Zorisbel Medina. Ambos jovens decidiram fundar essa organização, já que o acesso a clubes de conversação de baixo custo ou gratuitos, que na época eram quase inexistentes, foi a razão pela qual a comunidade presencial do Duolingo foi criada em Caracas. 

«O nosso fundador, Eskeiver Robles, assumiu a tarefa de criar esse acesso através dos programas de embaixadores que a Duolingo tinha na altura e que nos permitiu que muitas pessoas nos fossem conhecendo pouco a pouco e que, graças à perseverança da nossa maravilhosa equipa de líderes, se tornou na comunidade que temos atualmente», afirmou Zorisbel Medina, diretora da Panalingua.

“Criámos um grupo com pessoas de boa vontade para ajudar no aprendizado de idiomas a uma comunidade disposta a se envolver no mundo dos idiomas. Recorremos à empresa Duolingo para obter apoio para promover mais facilmente a divulgação do grupo, fazendo parte da marca. Depois, por motivos relacionados com os ideais da empresa, tivemos de deixar a marca para renomear a comunidade e valer por nossa conta com a nossa marca, daí nasceu a Panalingua no início de 2024», explicou Eskeiver Robles, fundador da Panalingua.

Os encontros acontecem todos os sábados, das 14h às 15h30, no “Parque del Este Generalísimo Francisco de Miranda”, localizado a leste de Caracas, na divisa entre os municípios de Chacao e Sucre. Atualmente, são ministrados os seguintes idiomas: inglês, francês, italiano, português e alemão.

A receptividade do público tem crescido. No início, poucas pessoas participavam, mas, ao longo dos anos, conseguiu-se aumentar a participação dos interessados. Atualmente, o grupo costuma ter um mínimo de 40 pessoas e um máximo de pouco mais de 100 pessoas nos eventos, seja durante as conversas ou no planeamento de passeios às praias do estado de La Guaira.

“Porque há algum tempo queríamos ter algo que fosse 100% nosso e não depender da imagem de outra marca. Certamente, o Duolingo nos ajudou muito e por muito tempo, mas já sentíamos que era hora de dar esse passo e fazer a mudança. Agradecemos ao aplicativo pela doação de materiais, camisetas, cadernos e canetas, que foram muito úteis para a equipe responsável por desenvolver e realizar os eventos”, acrescentou Zorisbel Medina.

O português é liderado pelo profissional em Línguas Modernas, António López, e a sua participante mais ativa é a cidadã Esperanza Montejo. Ao contrário do inglês, francês e italiano, o grupo de português reúne-se a cada dois sábados e geralmente conta com a participação de, no mínimo, 4 a 10 pessoas no idioma lusitano. Ao contrário dos outros idiomas, que costumam ter uma participação maior, entre 15 a 30 pessoas.

Como vocês aprenderam a língua portuguesa?

Esperanza Montejo: Foi uma combinação de elementos, inicialmente com a aplicação Duolingo, depois vendo e ouvindo programas e comentários em português, comecei a frequentar esses encontros em 2023 e alterno com o inglês, para aprender o que há de maravilhoso em ambas as línguas, tão fundamentais na nossa sociedade venezuelana.

António López: Eu me formei em línguas modernas com especialização em inglês e italiano, por isso tenho muito interesse em aprender outras línguas. Na verdade, é uma história um pouco interessante, pois, apesar de o português não ser a minha língua favorita, é muito especial para mim pelo processo que passei para aprendê-la. Foi com um amigo da minha universidade, pouco depois de nos formarmos, que comecei a aprendê-la, porque ele queria aprender italiano e me ensinava português (brasileiro) em troca.

Um ano depois, no instituto onde ensino inglês e italiano, a coordenadora soube que eu sabia português. Isso levou a que me atribuíssem um grupo, uma vez que não havia professores de português disponíveis, e eu arrisquei, mas era especificamente português de Portugal. 

Então, para mim, foi como reaprender a língua, aprendi muito estudando e preparando as aulas, além disso, tive que mudar o meu sotaque. As alunas gostaram das minhas aulas e do meu esforço para mudar o meu sotaque, o que era muito difícil. O curso durou dois meses, porque elas iriam para Portugal e queriam ter algum conhecimento da língua.

Com qual variante da língua portuguesa você se sente mais à vontade?

Esperanza Montejo: A variante com a qual me sinto mais à vontade para falar é a do Brasil, pois tem uma pronúncia mais aberta do que a variante de Portugal. No entanto, costumo ver programas da televisão portuguesa (RTP) e adoro o som do sotaque português. 

António López: Sinto-me mais à vontade com a variante portuguesa, porque durante a pandemia um amigo que se mudou para Portugal praticava o idioma com ele e aprendia as expressões idiomáticas de lá. Por isso, fiquei com essa variante. Retomei as aulas de português de Portugal, que me ajudavam a melhorar mais. Embora goste mais das expressões ou «girias» do Brasil, é porque elas se aproximam mais da minha língua materna.

Como é a receptividade dos habitantes de Caracas em relação à língua portuguesa?

Esperanza Montejo: Em comparação com outras línguas, o português sempre teve um grupo mais reduzido. Suponho que alguns ignoram que, além do Brasil e de Portugal, o português também é falado em alguns países africanos, na Ásia, como na própria China, em Macau e em Timor-Leste. No entanto, o nosso grupo tem muita qualidade, pois existe uma grande aceitação da língua por parte de nós, aprendizes.

António López: Sou o líder do português, tendo essa responsabilidade desde janeiro de 2024. Desde que estou a liderar, diria que há pouca participação, sinceramente. Na minha opinião, isso deve-se ao facto de, durante os anos em que a comunidade está ativa, o grupo de português ter sido intermitente devido aos líderes do mesmo deixarem o cargo por vários motivos pessoais. Devido a isso, os caracenas que falam ou estão a aprender português não estão tão atentos à comunidade para saber se haverá o debate em português.

Como é a receptividade da comunidade luso-venezuelana em relação ao idioma?

Esperanza Montejo: Dos cidadãos portugueses e seus descendentes na Venezuela que conheço, posso perceber que eles adoram a ideia de que um venezuelano possa aprender a sua língua e conhecer mais profundamente a sua maravilhosa cultura, pois isso fortalece os laços de irmandade entre Portugal e a Venezuela, que são de longa data. 

António López: A receptividade tem sido positiva. Com o tempo, tivemos muitos participantes de ascendência portuguesa, o que, naturalmente, enriqueceu muito mais a cultura em termos da língua, de acordo com a diretora Zorisbel Medina. No entanto, desde que comecei como líder do grupo, no pouco tempo que estou aqui, a maioria das pessoas que frequentam este grupo são falantes de português brasileiro.

Qual foi a anedota mais interessante que vocês compartilharam com a língua portuguesa?

Esperanza Montejo: A história mais curiosa que tive ao aprender a língua portuguesa foi pronunciar certas palavras que, ao falá-las, são a mesma palavra, mas com significados diferentes, como, por exemplo: «Pão e Pau», pelo que o significado implica que quase todas têm a ver com a fonética. É muito divertido conhecer e investigar as pronúncias da fonética portuguesa, o que se consegue com disciplina e constância.

António López: Além da minha jornada na aprendizagem deste idioma, diria que poder falar português me tornou mais consciente da cultura luso-venezuelana, tanto que, às vezes, em locais onde estou, quando percebo que algum funcionário fala português, puxo conversa com ele no seu idioma. Às vezes faço isso, acho engraçado surpreendê-los e passamos um tempo agradável.  ■

Marcos Ramos Jardim

Correspondente na Venezuela e nas Caraíbas

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