“Os momentos mais marcantes foram efetivamente os de proximidade e presença junto da comunidade”, disse o Adido de Segurança Social em Londres

Ao encerrar a sua missão de seis anos no Reino Unido, Renato Filipe Tiago, adido de Segurança Social na região destacou o apoio prestado à Comunidade Portuguesa durante um período marcado pelo Brexit e pela pandemia de Covid-19

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Renato Filipe Tiago assumiu funções em março de 2020 como adido de Segurança Social no Consulado Geral de Portugal em Londres. Foto: divulgação
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Renato Filipe Tiago, 46 anos, natural de Lapa do Lobo, no concelho de Nelas, no distrito beirão de Viseu, é licenciado em Solicitadoria e em Línguas e Literaturas Modernas e exerceu funções como adido de Segurança Social no Reino Unido, no Consulado Geral de Portugal em Londres, durante seis anos.

Ao longo deste período, acompanhou de perto a Comunidade Portuguesa no Reino Unido e nas Ilhas do Canal, num contexto marcado pelo Brexit e pela pandemia de COVID-19, destacando o trabalho de mediação entre os sistemas de segurança social português e britânico e o apoio técnico e informativo prestado aos cidadãos portugueses.

Em entrevista à Agência Incomparáveis, Renato Filipe Tiago fez um balanço da sua missão e já aponta para um novo desafio profissional ligado à equipa dos adidos portugueses de Segurança Social espalhados pelo mundo.

Quando ingressou nos serviços em Londres?

Assumi funções como adido de Segurança Social no Reino Unido, no Consulado Geral de Portugal em Londres, em 1 de março, de 2020.

Ao longo dos últimos seis anos como adido para a Segurança Social junto do Consulado-Geral de Portugal em Londres, que balanço faz do trabalho desenvolvido junto da Comunidade Portuguesa no Reino Unido e nas Ilhas do Canal?

Durante estes seis anos, o adido de Segurança Social no Reino Unido, no âmbito do Despacho n.º 7712-B/2019, de 30 de agosto, tem facilitado a comunicação dos cidadãos nacionais, não só com os diversos serviços nacionais, mas também com os britânicos, nomeadamente os serviços das Congéneres, simplificando a linguagem, ultrapassando a barreira linguística, desconstruindo o sistema de Segurança Social local e a realidade do BREXIT. Esta dinâmica permitiu alcançar resultados extremamente positivos, traduzidos numa procura significativa, na realização de um elevado número de atendimentos e iniciativas de proximidade e num reconhecido nível de satisfação por parte da Comunidade Portuguesa. O adido de Segurança Social no Reino Unido recebeu, aproximadamente, 4.000 pedidos, facto que regista o excelente nível de resposta por parte dos serviços de Segurança Social. Em consonância com a excelente articulação e dinâmica de cooperação estabelecidas com a rede diplomática e consular portuguesa no Reino Unido.

Quais foram as principais necessidades e preocupações sociais apresentadas pelos portugueses residentes no Reino Unido durante o seu mandato, particularmente num período marcado por mudanças relevantes como o Brexit?

Os cidadãos nacionais procuravam atendimento e aconselhamento técnico-especializado nas matérias de Segurança Social, não só presencialmente, mas também via telefone ou e-mail. Essencialmente, procurava esclarecer e informar os cidadãos sobre os procedimentos que deviam adotar, de forma a salvaguardar os direitos já adquiridos ou os direitos em formação, tanto para os que decidiram regressar a Portugal, como para aqueles que se estabeleciam inicialmente ou permaneciam no Reino Unido. As matérias dominantes foram essencialmente as prestações diferidas, nomeadamente prestações por morte e a pensão de velhice, resultando da necessidade que a Comunidade Portuguesa e os trabalhadores com carreira contributiva nos dois países têm em obter informação neste domínio, exponenciada pelo BREXIT.

No exercício das suas funções, que tipo de apoio ou orientação foi mais frequentemente solicitado pelos emigrantes portugueses no que diz respeito às matérias da Segurança Social portuguesa?

A preocupação principal decorreu inevitavelmente do BREXIT e constrangimentos associados, nomeadamente o EU Settlement Scheme, com impacto direto e consequências negativas na vida dos cidadãos. Porém, apesar de o Reino Unido ter saído da União Europeia, em 31 de dezembro de 2020, aplicam-se ainda as regras dos Regulamentos UE, com adaptações, em virtude da celebração do Acordo de Comércio e Cooperação entre o Reino Unido e a União Europeia, em 24 de dezembro de 2020, que veio salvaguardar os direitos já adquiridos ou em formação.

Como caracteriza a Comunidade Portuguesa no Reino Unido após estes anos de contacto direto com cidadãos, associações e instituições locais?

A Comunidade Portuguesa no Reino Unido e ilhas do Canal carateriza-se por ser uma comunidade pacata, empreendedora, muito dinâmica e que se encontra extramente bem integrada na realidade do Reino Unido, desenvolvendo todo o tipo de atividades, inclusive atividades de índole mais complexa ou técnica. Tal como em outros países, também no Reino Unido o associativismo surge como um elo de aglutinação e ligação com realidade portuguesa.

Quais foram os maiores desafios enfrentados no desempenho do cargo de adido para a Segurança Social em Londres e de que forma procurou responder a essas dificuldades no terreno?

Não obstante as dificuldades iniciais de integração e instalação, pela novidade da função, todavia o maior desafio surgiu com a pandemia COVID-19, não só pela necessidade de assegurar e manter uma resposta contínua, mas também pela necessidade de proteção individual e coletiva. Num plano mais prático, a maior dificuldade assentou na divulgação e criação de uma imagem de confiança e reconhecimento técnico no seio da comunidade, resolvendo os problemas dos cidadãos nacionais, contrariando a desconfiança e distanciamento inicial.

Recorda algum episódio, caso ou momento que considere particularmente marcante durante o seu trabalho junto da diáspora portuguesa no Reino Unido?

Os momentos mais marcantes foram efetivamente os momentos de proximidade e presença junto da comunidade, quer fosse durante as presenças consulares, realizando atendimento presencial aos cidadãos, quer fosse próximo do associativismo em eventos de maior amplitude. Como é apanágio nosso, em todos os momentos, fui extremamente bem recebido, existindo sempre um profundo e sincero agradecimento, elogiando a presença, as funções e a resposta obtida.

Como foi a sua relação com os atores diplomáticos portugueses no Reino Unido?

A relação com os restantes atores diplomáticos portugueses no Reino Unido foi uma relação de proximidade, que resultou numa excelente articulação e dinâmica de cooperação, com a Embaixada, com os Consulados Gerais de Portugal em Londres e em Manchester e com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, invariavelmente elementos fundamentais. Endereço também um especial agradecimento às equipas dos Consulados Gerais de Londres e de Manchester, que sempre colaboraram comigo e foram determinantes para o sucesso desta iniciativa.

Na sua perspetiva, qual é a importância de Portugal manter adidos da Segurança Social junto de comunidades emigrantes em países com forte presença portuguesa?

A importância é elevada e assenta em três eixos, essencialmente na melhoria do acesso dos cidadãos nacionais residentes no estrangeiro à Segurança Social, no reforço e ganhos da articulação com as entidades congéneres de Segurança Social e no aproveitamento das sinergias com a rede diplomática e consular. Este modelo permite otimizar recursos e melhorar a resposta às necessidades dos cidadãos, sendo uma mais-valia, tanto pela redução dos tempos de resposta, como pela criação de canais de comunicação diretos entre os adidos e as autoridades locais. No Reino Unido, em 2026, surge o início da obrigatoriedade de realização de prova de vida para os Pensionistas residentes no Reino Unido.

Ao terminar esta missão em Londres e preparar um novo destino profissional, que mensagem gostaria de deixar à Comunidade Portuguesa que acompanhou ao longo destes seis anos de trabalho?

A mensagem que deixaria é uma mensagem de profundo agradecimento e simultâneo reconhecimento pelo valor e esforço da nossa gente, que tão nobremente nos representa cá fora, seja nos lugares de destaque que assume, seja nas conquistas que alcança.

Por fim, quais serão os seus próximos desafios.

Não estando ainda definido, contudo o próximo desafio passará por uma ligação à equipa dos adidos de Segurança Social. Para além de estarem representados na Alemanha, França, Luxemburgo, Reino Unido e Suíça; passaram também a estar representados fora do continente europeu, nomeadamente Estados Unidos da América e Canadá. ■ 

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