
A evocação do Dia da Comunidade Luso-Brasileira leva-nos, inicialmente, àquele 22 de abril de 1500, quando os navegadores portugueses da esquadra de Pedro Álvares Cabral, com os pássaros voando em torno dos mastros das 12 naus, avistaram a Terra de Vera Cruz – Monte Pascoal foi o nome dado à montanha redonda que se erguia diante deles, além da linha da floresta.
Na praia, um grupo de homens inteiramente nus, de pele bronzeada e com penachos à cabeça, segurando arcos e flechas, olhavam espantados para Nicolau Coelho, que num barco pequeno, se dirigiu à foz do rio.
Era o primeiro encontro de dois povos e de duas civilizações. Dois indígenas subiram à nau capitânia e foram recebidos por Pedro Álvares Cabral e outros oficiais, à luz de tochas. Os marinheiros ofereceram pão e peixe cozido, figos secos e presentes – e eles, depois, adormeceram sobre os tapetes.
No dia seguinte, Frei Henrique de Coimbra celebrou a primeira missa em Terra de Vera Cruz – e oito dias passados, a armada seguiu viagem, rumo ao Cabo da Boa Esperança e às Índias, enquanto Pero Vaz de Caminha escrevia a El-Rei D. Manuel a célebre carta dando-lhe notícia da boa nova do descobrimento.
Depois, seguiram-se novas viagens e expedições, fez-se a ocupação da terra quase sem fim, cumpriram-se as entradas e bandeiras, arranjou-se a ultrapassagem de Tordesilhas, veio a construção de fortes e fortalezas, a edificação de vilas e cidades, o novo reino, o grande Império – aquele Império que, na expressão do historiador Gabriel Soares, se faria tão soberano, que se tornaria um dos Estados do mundo.
A partir de 22 de abril de 1500 nunca mais os dois povos se desligaram – era a Língua em comum, logo ensinada por Anchieta e Nóbrega; eram as instituições e a religião; eram as leis e as ordenações; eram os desafios e as partilhas; eram os cruzamentos e a mistura das etnias.
No princípio do século XIX, ocorre a vinda da Corte Joanina e logo se precipita a separação dos dois Reinos proclamada por D. Pedro. Mas a ruptura política de 1822 não implica a quebra da amizade, tampouco os portugueses deixam de continuar a ver no Brasil a terra adorável onde realizam sonhos e curtem aspirações.
A Diáspora continua intensa e ininterrupta por gerações até meados do século XX e a ideia da comunidade ganha contornos cada vez mais abrangentes. É uma comunidade de afetos, acima de tudo, mas é também uma comunidade talhada para ser debruada pelos interesses políticos, econômicos, culturais, linguísticos, técnicos, sociológicos, etc. e que muito precisava de o ser, quando a ordem internacional ganhou, a partir do fim da Segunda Grande Guerra, novos contornos e começou a pesar muito mais na definição e execução da política externa os vetores das vantagens e dos ganhos, os investimentos e o comércio, mais do que as afinidades da História e as sintonias do passado.
Embora hoje comprometidos com o mundo da Língua Portuguesa, no âmbito da CPLP, os dois países já seguem, em sua política externa, órbitas próprias, distintas e separadas. É, por exemplo, o Mercosul de um lado e a União Europeia, do outro. E nem se chega a perceber por onde passam os tradicionais vetores da Comunidade Luso-Brasileira quando se discute em Montevidéu uma pauta aduaneira e as alíquotas do comércio exterior, ou quando em Bruxelas as diretivas da União Europeia são determinadas acima de tudo pelos interesses dos países mais ricos.
Quando o Congresso Brasileiro e a Assembleia da República criaram o Dia da Comunidade Luso-Brasileira sob a inspiração do Senador Vasconcelos Torres, certamente que se tinha em mente construir novas pontes sobre o Atlântico. Era a tônica da retórica em Lisboa e em Brasília. No entanto, muitas dessas “pontes” ainda não passaram do sonho daqueles que continuam fiéis às mensagens da História e às aspirações permanentes de dois povos-irmãos.
É tempo de as construir. Façamos a nossa parte. ■
Francisco Gomes da Costa
Presidente da Associação Luís de Camões
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