Grande Reportagem: Dia da Comunidade Luso-Brasileira ganha nova dimensão com lideranças a exporem oportunidades e desafios atuais entre os dois países

Reforço do eixo económico entre Brasil e Portugal, celebrado neste dia 22 de abril, conta com visão baseada num quadro de cooperação bilateral; Efeméride foi instituída no Brasil pela Lei n.º 5.270, de 1967, e enquadra-se hoje no espírito do Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta, assinado em Porto Seguro em 22 de abril de 2000

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Consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro. Foto: Agência Incomparáveis
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Hoje, 22 de abril, assinala-se o Dia da Comunidade Luso-Brasileira, uma data que se impõe como referência nas relações entre Portugal e o Brasil, sustentada por séculos de ligações históricas, culturais e humanas. Instituída no Brasil pela Lei n.º 5.270, de 1967, e enquadrada pelo Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta, assinado em Porto Seguro a 22 de abril de 2000, a efeméride traduz a continuidade de um vínculo que ultrapassa a dimensão diplomática e se consolida no quotidiano de milhões de cidadãos em ambos os lados do Atlântico. A presença crescente de brasileiros em Portugal e de portugueses no Brasil intensifica essa dinâmica, assente numa mobilidade ativa e numa rede de relações económicas, académicas e culturais em expansão.

A língua portuguesa e a cultura mantêm-se como eixos estruturantes desta ligação, afirmando-se como instrumentos de coesão e projeção internacional, ao mesmo tempo que abrem espaço a novas oportunidades no plano económico. No atual contexto de aproximação entre a União Europeia e o Mercosul, Portugal e Brasil posicionam-se como plataformas estratégicas para investimento, inovação e internacionalização empresarial. A data de 22 de abril surge, assim, não apenas como memória partilhada, mas como um ponto de convergência para a construção de agendas comuns orientadas para o futuro, valorizando uma relação bilateral que continua a evoluir com base na confiança, na língua e na circulação de pessoas e oportunidades. Celebrações estão marcadas em algumas cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Autoridades recordam legado

A Agência Incomparáveis conversou com autoridades luso-brasileiras, lideranças associativas e membros da sociedade civil que se pronunciaram sobre o alcance desta celebração. Flávio Martins, presidente do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas, esclareceu que o objetivo desta data “sempre será, independentemente de governos e lideranças, celebrar as boas relações entre dois povos que, como poucos casos no mundo, têm vínculos afetivos, históricos e culturais, para além de económicos e políticos”.

Para este responsável, natural do Rio de Janeiro e com origens na zona de Viseu, em Portugal, “as relações que existem hoje entre os dois países justificam as celebrações”, pois “sempre valerá a celebração, pois é das Comunidades e não dos Governos ou dos Estados, e lembro que vários importantes documentos e protocolos foram assinados entre os dois países no dia 22 de abril em distintos anos”.

Flávio Martins, conselheiro das comunidades eleito pelo círculo do Rio de Janeiro, enumera que “atualmente, há diversos movimentos em ambos os países e de diversas origens, composições e objetivos, que procuram não apenas o resgate dessa relação, mas o fomento e a aproximação, como as diversas redes empresariais, políticas, académicas e culturais que realizam um trabalho meritório”.

Questionado sobre se o contexto luso-brasileiro atual favorece as relações entre Brasil e Portugal, Flávio é taxativo: “Sim, o contexto é de início de relações especiais entre a UE e o Mercosul, nesse contexto Portugal e Brasil têm e terão um papel privilegiado por conta das suas relações tão próximas e o dia 22 de abril reforça isso”.

Célia Stamford, também conselheira das Comunidades Portuguesas, eleita pelo círculo de Recife, enaltece a data como um “ato estratégico e necessário” para “dar visibilidade à comunidade luso-brasileira”.

“Significa valorizar uma rede de cidadãos que contribuem para o desenvolvimento social, cultural e económico da cidade, ao mesmo tempo em que fortalecem os laços entre Brasil e Portugal. Essa valorização também ajuda a preservar a identidade e a história comum, especialmente para as novas gerações, que passam a compreender melhor as suas raízes”, afirmou, acrescentando que, para Recife, o Dia da Comunidade Luso-Brasileira “representa o reconhecimento de uma herança viva”.

Rio de Janeiro. Foto: Agência Incomparáveis/arquivo

“A presença portuguesa ajudou a moldar a cidade em diversas dimensões: na arquitetura, na religiosidade, na língua, na gastronomia e nas tradições culturais que ainda hoje fazem parte do quotidiano recifense. Trata-se de uma ligação que não ficou no passado, continua ativa, dinâmica e presente na sociedade. Além disso, investir na visibilidade dessa comunidade abre portas para oportunidades concretas: intercâmbios culturais, cooperação institucional, desenvolvimento de negócios e fortalecimento da presença da língua portuguesa no cenário internacional. Portanto, o 22 de abril, em Recife, não é apenas uma data comemorativa, é uma afirmação de pertencimento, de memória e, sobretudo, de futuro partilhado entre dois países unidos por uma história comum e por uma comunidade que segue ativa e viva”, recordou Célia Stamford.

Manuel Magno, deputado eleito para atuar na Assembleia da República portuguesa pela emigração pelo círculo de fora da Europa, deixa uma mensagem de esperança sobre o Dia da Comunidade Luso-Brasileira.

“Festejar esta data não é uma comemoração rotineira, pois, acima de tudo, é um dia de festa, de alegria renovada, em que os luso-brasileiros se situam com inteira consciência no nosso espaço cultural originário. (…) Esta comunidade, sem dúvida, criou pontes, estabeleceu caminhos de encontros, ensejando um verdadeiro conceito de servir e de reverência à Pátria de sempre. (…) Este é o dia sempre adequado para reafirmar e propagar que temos orgulho da nossa história e das nossas origens, confiando no presente e no futuro”, frisou.

Para o vereador Rafael Aloisio Freitas, primeiro secretário da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, no Brasil, a data é importante para a “manutenção das relações bilaterais entre Brasil e Portugal, é uma data que renova esses laços históricos”.

“Essa data tem uma série de considerações culturais, históricas e diplomáticas, partilhada numa longa história entrelaçada desde o período colonial. Essa memória partilhada é essencial para a manutenção de laços culturais e sociais entre os dois países. A data é uma oportunidade para exaltar a cultura portuguesa no Brasil e vice-versa, promovendo um intercâmbio cultural que aproxima os povos e mantém viva a memória cultural, bem como o interesse e o respeito mútuos pelas tradições e costumes. (…) O Brasil abriga uma grande comunidade de lusodescendentes e a data também é um momento para reconhecer essa diáspora, que tem grande influência nas relações entre os dois países. Muitos brasileiros com raízes portuguesas veem essa data como uma oportunidade para assinalar as suas origens e reforçar a sua ligação a Portugal”, relatou Rafael Aloisio Freitas.

“Dar visibilidade à comunidade luso-brasileira é essencial”

Marco António Borges, procurador de Justiça do Conselheiro Superior do Ministério Público de Minas Gerais, no Brasil, interpreta o dia 22 de abril como uma data de “reconhecimento vivo de uma história partilhada que moldou profundamente Minas Gerais”.

“A presença portuguesa está nas raízes da nossa cultura, na arquitetura das cidades históricas, na fé, na língua e nos valores que ajudaram a construir a identidade mineira. Para a comunidade portuguesa em Minas Gerais, esse dia representa orgulho, pertencimento e continuidade. É a assinalação de laços que atravessam gerações, preservando tradições e, ao mesmo tempo, contribuindo ativamente para o desenvolvimento económico, social e cultural do estado. Dar visibilidade à comunidade luso-brasileira é essencial. Significa valorizar essa herança, fortalecer vínculos institucionais e abrir caminhos para novas parcerias entre Brasil e Portugal, seja no comércio, na educação, na cultura ou na inovação. Apostar nessa relação é investir numa ligação sólida, baseada em história, confiança e afinidade. Assinalar esta data é, portanto, reiterar que Minas Gerais e Portugal seguem unidos não apenas pelo passado, mas por um futuro de cooperação e crescimento conjunto”, salientou este responsável, que é também terceiro vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.

“O Dia da Comunidade Luso-Brasileira reveste-se de especial significado no âmbito da histórica relação entre os Açores e o Brasil. Porque o Brasil foi o primeiro destino da emigração açoriana, há mais de 400 anos, e porque os brasileiros são a maior parte dos estrangeiros radicados nos Açores, em mais de 35%”. É desta forma que José Andrade, diretor regional das Comunidades, sublinha a necessidade de se assinalar esta data, que tem, na sua opinião, o intuito de “preservar e desenvolver essa nossa cumplicidade contemporânea com o Brasil”, através de, no caso açoriano, e entre outras iniciativas, “apostar na consolidação e no alargamento da rede nacional de Casas dos Açores, essas verdadeiras embaixadas da identidade açoriana que muito nos prestigiam na imensa nação brasileira”.

“Por isso mesmo, neste dia especial, saúdo todos os açorianos e açordescendentes que vivem no Brasil e faço-o através das Casas dos Açores do Rio de Janeiro, de 1927, de São Paulo, de 1980, da Bahia, de 1880, de Santa Catarina, de 1999, do Rio Grande do Sul, de 2003, do Maranhão, de 2019, do Espírito Santo, de 2022, e de Minas Gerais, de 2025, esta última, por feliz coincidência, organizando esta semana uma missão empresarial à ilha de São Miguel. Lá, como cá, queremos dinamizar a Comunidade Luso-Brasileira, não apenas neste dia, mas sempre, e não por causa do passado, mas do futuro”, testemunhou José Andrade.

“A cultura e as indústrias criativas são vitais para valorizar a língua portuguesa e fortalecer a identidade luso-brasileira”

O movimento associativo é outro pilar importante desta interação entre os dois países. Mais recentemente, foi apresentada a Sociedade da Excelência Luso-Brasileira, uma entidade voluntária que visa mostrar a relevância das ações entre os dois países. Pedro Ramos, presidente da SELB, explicou que a missão é “fomentar o melhor das empresas, da academia, da ciência, da cultura e da sociedade entre Portugal e Brasil”, razão pela qual “acredito que o diálogo bilateral deve ser estimulado em domínios estratégicos e complementares”.

“Em primeiro lugar, economia e negócios, para promover a facilitação de investimentos, apoiar a internacionalização de empresas e serviços e criar cadeias de valor conjuntas em setores como energia, agroindústria, turismo e infraestruturas. Em segundo lugar, inovação, ciência e tecnologia, onde parcerias entre universidades, centros de investigação e ecossistemas de startups podem acelerar transferência tecnológica em inteligência artificial, biotecnologia e energias limpas. Educação e formação profissional merecem atenção para ampliar mobilidade académica, reconhecimento mútuo de graus e programas conjuntos que respondam às necessidades do mercado de trabalho. Por outro lado, a cultura e as indústrias criativas são vitais para valorizar a língua portuguesa e fortalecer a identidade luso-brasileira. Além disso, ambiente e clima, incluindo transição energética e conservação da biodiversidade, saúde pública e biossegurança, transformação digital e governação também devem integrar uma agenda bilateral coerente e pragmática”, sustentou, recordando que a SELB “pode contribuir de forma concreta e operacional para dinamizar esse diálogo”.

“Podemos organizar fóruns e cimeiras temáticas regulares que reúnam decisores públicos, empresas, académicos e sociedade civil, bem como criar grupos de trabalho bilaterais por áreas prioritárias para elaborar roadmaps e propostas de implementação, além de dar visibilidade às práticas de excelência já existentes. Facilitaremos missões empresariais, rodadas de negócios e matchmaking entre empresas, investidores e incubadoras de startups. Apoiaremos a constituição de consórcios de investigação e projetos-piloto com financiamento semente e mobilização de parceiros públicos e privados, promoveremos eventos culturais itinerantes e iniciativas de promoção da língua, e publicaremos estudos e policy briefs que fundamentem decisões públicas e privadas. Paralelamente, desenvolveremos uma plataforma digital de networking e acompanhamento de projetos, e atuaremos como interlocutor técnico neutro junto das administrações para defender medidas práticas que tornem possível transformar diálogo em resultados concretos e sustentáveis”, declarou.

Nessa mesma perspetiva, Pedro Martins, chairman da entidade, justifica a existência da Sociedade no ambiente luso-brasileiro com o facto de que “a diáspora portuguesa é provavelmente a mais numerosa no mundo, tendo em consideração a sua origem, só no Brasil existem mais de 30 milhões de lusodescendentes até à 3.ª geração, e por isso existirem também mais de 130 associações de luso-brasileiros, no entanto a Sociedade da Excelência Luso-Brasileira tem o foco específico de divulgar e promover o mais inovador, avançado e qualificado desenvolvido pelos luso-brasileiros nas empresas, universidades, ciências, artes e letras, e assim elevar e acelerar a cooperação entre Portugal e Brasil”.

Embaixada de Portugal em Brasília. Foto: Agência Incomparáveis

Manuel Pinto, diretor social da Casa de Portugal de Teresópolis, região serrana do Rio de Janeiro, sublinha que, “a data de 22/04/1500, por vezes tão óbvia e distante, lembrada apenas nas aulas de história do ensino básico, requer um olhar mais reflexivo”.

“É claro que já existia nesse território uma história anterior, povos e culturas. Entretanto, o que se seguiu foi fundamental para a formação do país que hoje temos, seja na dimensão física, mas também e, principalmente, nas riquezas naturais e culturais. Essa última está intimamente ligada com a colonização portuguesa, que nos deixou língua, religião, arquitetura, festas populares, enfim, costumes que moldaram a nossa sociedade”, afirmou, acrescentando que “a imigração portuguesa em Teresópolis foi sempre expressiva, foram muitos, cada um com uma bagagem própria de vida”.

“Podemos citar algumas personalidades como o Coxito Granado, dos fitoterápicos, das fragrâncias, da força da marca Granado, o José Manuel Lebrão, um dos donos da confeitaria Colombo, ou até Sebastião da Fonseca Teixeira, dono do icónico Várzea Palace Hotel, auge entre as décadas de 1920 e 1940, que chegou a ter um casino, e que foi o primeiro prefeito eleito neste município, com votação de 1922. A imigração portuguesa no Brasil não foi uma imigração de um período específico. Ela diferencia-se das demais, pela sua constância e continuidade, ao longo de todos os séculos. Foi em 1959 que a Casa de Portugal de Teresópolis, oriunda do anterior Grémio Literário, deu origem à Casa de Portugal de Teresópolis, englobando não só o social, como o desporto e a recreação. Hoje, a Casa de Portugal é um património cultural da cidade de Teresópolis, sendo um alicerce da comunidade de luso-descendentes, continuando a missão tanto desportiva, com as equipas de hóquei e de futebol, como também assinalando datas históricas como o 10 de Junho, Dia de Portugal, e o 1 de dezembro, Restauração Portuguesa e data oficial de fundação do clube. Portanto, no que diz respeito à data de 22 de abril, e embora não haja ainda uma festa para a data, é um momento de assinalação e de orgulho para o nosso clube português, para os associados e para boa parte da população de Teresópolis”, reforçou.

Uma perspetiva partilhada por Felipe Gonçalves, membro do Elos Clube Teresópolis e associado da Casa de Portugal de Teresópolis.

Na capital brasileira, o legado ganha também contornos relevantes.

“Para a comunidade lusa, assinalar essa data na capital do Brasil é reafirmar o elo invisível que atravessa o Atlântico. A Associação Portuguesa torna-se, nesse dia, um pedaço de solo português em solo candango, onde a língua, a gastronomia e a música mantêm viva a memória dos que vieram e o orgulho dos que nasceram aqui. (…) Aprendemos com a história dos imigrantes que chegaram ao Planalto Central durante a construção de Brasília ou nos anos que se seguiram. Eles ensinam-nos a capacidade de florescer em solos novos, sem esquecer a origem. A assinalação mostra como a cultura portuguesa se fundiu à identidade brasileira. Aprendemos que preservar tradições, como o folclore e a culinária, não é isolamento, mas sim um enriquecimento do património cultural do próprio Distrito Federal. Aprendemos que uma comunidade forte se constrói com união e que o associativismo é o que garante que nenhum lusodescendente perca a sua história”, afirmou Ciro José de Freitas, presidente da Associação Portuguesa de Brasília, que sublinha o facto de que “somos nove mil no Distrito Federal e Entorno”, o que remete para uma “responsabilidade cívica”.

“Assinalar essa data é lembrar que estamos presentes no comércio, na medicina, no direito, na engenharia e na gastronomia de Brasília. Cada lusodescendente é um embaixador cultural que mantém viva a chama de uma nação exploradora que agora explora novos horizontes na integração luso-brasileira”, observou.

João Manuel, presidente da Associação Amigos da Praça Portugal em Brasília, recorda que o Dia da Comunidade Luso-Brasileira foi instituído oficialmente no Brasil pela Lei n.º 5.270, de 22 de abril de 1967, quando era presidente do Brasil o Marechal Artur da Costa e Silva, com o objetivo de “criar um símbolo de união entre as duas nações, assinalando não apenas o descobrimento, mas a herança partilhada que se desenvolveu ao longo dos séculos”.

“Tenho essa data bem presente, porque chegou ao meu conhecimento quando estudava a história da Praça Portugal em Brasília, que ela foi palco de uma celebração junto ao Monumento ao Infante Dom Henrique quando a data foi oficializada no dia 22 de abril de 1967. Um marco fundamental para a história da nossa comunidade é o Estatuto de Igualdade entre Brasileiros e Portugueses, assinado em 1971 e atualizado pelo Tratado de Porto Seguro em 2000. Esse acordo jurídico é quase único no mundo, permitindo que cidadãos de um país gozem de direitos e deveres civis no outro, reforçando a ideia de uma pátria comum”, assinalou João Manuel.

Renato Afonso Gonçalves, presidente da Casa de Portugal de São Paulo, localizada na maior cidade da América do Sul, concorda que o Dia da Comunidade Luso-Brasileira “representa muito mais do que uma simples data comemorativa”, pois “trata-se de um momento de reflexão sobre os laços históricos, culturais e humanos que unem Brasil e Portugal”.

“Essa relação, construída ao longo de séculos, contribuiu significativamente para a formação da identidade brasileira, sendo percetível em diversos aspetos da sociedade, como a língua, os costumes, a culinária e as tradições. A importância de assinalar essa data está, acima de tudo, na preservação da memória histórica. Ao recordar o passado, reconhece-se o papel fundamental desempenhado pelos portugueses na construção do Brasil, bem como a contribuição dos imigrantes e seus descendentes para o desenvolvimento económico e cultural do país. Dessa forma, a assinalação funciona como um resgate das origens e um reconhecimento do legado deixado ao longo do tempo. Além disso, o Dia da Comunidade Luso-Brasileira valoriza a riqueza cultural partilhada entre os dois povos. Elementos como a música, a literatura, as festas populares e a arquitetura evidenciam uma herança comum que continua viva no quotidiano brasileiro”.

Renato entende que essa valorização “fortalece o sentimento de pertença e identidade, especialmente entre aqueles que mantêm vínculos diretos com essa tradição”. Outro ponto relevante, segundo este responsável, é o “fortalecimento dos laços de amizade e cooperação entre Brasil e Portugal”, já que a “assinalação reafirma a união entre os países, incentivando parcerias em áreas como educação, cultura, comércio e ciência”, assim, “não apenas se honra o passado, mas também se constrói um futuro baseado no respeito mútuo e na colaboração”.

“Assinalar o Dia da Comunidade Luso-Brasileira é reconhecer a importância da diversidade cultural e da convivência entre diferentes povos. Essa data simboliza como a troca de experiências e influências pode resultar numa sociedade mais rica, plural e integrada. Portanto, esta comemoração possui grande valor ao resgatar a história, valorizar a cultura, reconhecer contributos e fortalecer os vínculos entre Brasil e Portugal. Mais do que uma homenagem ao passado, trata-se de uma celebração viva de uma identidade partilhada que continua a desenvolver-se ao longo do tempo”, detalhou o presidente da Casa de Portugal de São Paulo, que fez questão de sublinhar que “a nossa comunidade em São Paulo continua unida e atuante com inúmeras atividades recreativas e culturais através das nossas dezenas de entidades por todo o Estado”.

Embaixada de Portugal em Brasília. Foto: Agência Incomparáveis/arquivo

Claudio Motta, presidente da recém-criada Casa dos Açores de Minas Gerais, encara o dia 22 de abril como uma oportunidade que “ocupa um lugar singular na história e na construção simbólica das relações entre Brasil e Portugal”.

“Esta data é um reconhecimento institucional da profundidade, da continuidade e da relevância dos laços que unem estas duas nações irmãs. Mais do que um registo no calendário, o 22 de abril representa um compromisso permanente com a preservação de valores partilhados: a língua, a cultura, as tradições, os princípios humanistas e a visão de futuro que, ao longo dos séculos, foram sendo construídos de forma conjunta. Trata-se de uma relação que transcende fronteiras geográficas e políticas, enraizando-se na identidade de milhões de pessoas que, em ambos os lados do Atlântico, mantêm viva essa herança comum”, declarou.

Motta refere que, num mundo cada vez mais dinâmico e, por vezes, marcado por distanciamentos culturais, torna-se imperioso não apenas lembrar, mas relembrar ativamente o significado desta data.

“Assinalar o Dia da Comunidade Luso-Brasileira é, sobretudo, um ato de responsabilidade histórica e de visão estratégica. É reconhecer que as relações entre Brasil e Portugal não pertencem apenas ao passado, mas constituem um ativo essencial para o presente e para o futuro, seja no campo cultural, económico, institucional ou humano. Essa celebração exige ação, iniciativas concretas que promovam o intercâmbio, fortaleçam os vínculos institucionais, estimulem o diálogo entre gerações e consolidem pontes de cooperação. Exige, também, o envolvimento das entidades representativas, da sociedade civil e das lideranças que compreendem o valor dessa relação singular”, destacou, sem deixar de referir que “assinalar o 22 de abril é um convite à reflexão e à ação, um chamamento para que continuemos a construir, juntos, uma história que honra o passado, fortalece o presente e projeta um futuro de cooperação, respeito e prosperidade partilhada entre Brasil e Portugal”.

Entidades com visão estratégica entre os dois países

Em declarações à nossa reportagem, o presidente da Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais, António Carlos da Silveira Pinheiro, afirmou que o Dia da Comunidade Luso-Brasileira “deve ser entendido como um instrumento de ação no reforço das relações económicas entre Brasil e Portugal”.

“O Dia da Comunidade Luso-Brasileira representa uma história partilhada, mas sobretudo um espaço de oportunidades que precisa de ser continuamente estruturado com base em cooperação económica e institucional”, declarou este responsável, ao acentuar a necessidade de dar dimensão prática à data. No mesmo contexto, realçou o papel das estruturas associativas na consolidação dos laços bilaterais.

“É fundamental reforçar a relevância das associações na consolidação das relações bilaterais, pois são essas estruturas que, na prática, promovem a aproximação entre comunidades, empresas e instituições”, acrescentou o presidente da Fundação, com sede no Brasil e presente em Portugal através da Funcex Europa, ao evocar a importância da articulação entre agentes institucionais e económicos.

António Carlos da Silveira Pinheiro assinalou ainda a estratégia de internacionalização da Fundação, com presença em Portugal através da Funcex Europa, como resposta à procura crescente pelo mercado europeu.

“A decisão de internacionalização para Portugal representa um avanço estrutural na forma como apoiamos a inserção internacional das empresas, utilizando o país como plataforma de acesso à União Europeia”, explicou este responsável, que reiterou que Portugal assume um papel central no posicionamento estratégico da Fundação.

“O que Portugal e Brasil têm é raro”

“Temos a convicção de que Portugal é a porta de entrada do Brasil e do Mercosul na Europa. Atuamos no sentido de privilegiar Portugal como Global Gateway, visando também os Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa”, declarou.

Nessa mesma linha, defendeu que a data deve impulsionar resultados concretos no plano económico. “Mais do que simbólico, este dia deve servir para impulsionar iniciativas concretas, estimular investimentos e reforçar a previsibilidade nas relações económicas entre os dois países”, concluiu.

Também ouvido pela nossa reportagem, o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, Otacílio Soares da Silva Filho, defendeu que a data deve ser encarada como uma “oportunidade para reposicionar a relação entre Portugal e Brasil no plano económico”.

“O Dia da Comunidade Luso-Brasileira é mais do que uma data simbólica. É uma oportunidade para olhar com seriedade para uma relação que tem história, identidade e afetos, mas que precisa, cada vez mais, de ambição económica e visão estratégica”, afirmou este responsável, que observou que “a base estrutural da relação bilateral já existe e distingue-se no contexto internacional”.

“O que Portugal e Brasil têm é raro: uma língua que partilham, a capacidade das pessoas se movimentarem de forma rápida e eficaz, uma malha empresarial densa e a possibilidade de sentirem confiança em superar barreiras comunicacionais, internacionalizar e construir parcerias duradouras”, referiu, acrescentando que esta comunidade se tornou também um fator económico relevante.

“Portugal tanto pode ser uma plataforma qualificada para empresas brasileiras terem acesso ao mercado europeu, como o Brasil é escala, dinamismo e oportunidade para as empresas portuguesas. Esta é a nossa sinergia”, declarou, apontando resultados já visíveis em setores como turismo, serviços, tecnologia, imobiliário, agroalimentar e energia.

Apesar desse potencial, este empresário advertiu para a necessidade de avançar para uma nova fase.

“Há ainda um fosso profundo entre o potencial e os resultados. Durante algum tempo, bastou assinalar a relação especial entre Brasil e Portugal. Agora, não chega. É preciso transformar afinidade em estratégia, proximidade em negócios e memória comum em projetos concretos de futuro”, afirmou, além de defender uma abordagem mais coordenada entre os diferentes agentes económicos e institucionais.

“Isso exige menos burocracia e mais coordenação. Exige maior articulação entre empresas, instituições, câmaras de comércio e entidades públicas”, referiu, sublinhando a necessidade de uma agenda orientada para resultados.

“Comemore este dia. Mas o melhor tributo que podemos prestar à nossa comunidade luso-brasileira é ajudá-la a construir uma relação que honre o passado, mas que esteja verdadeiramente preparada para o futuro”, concluiu.

“Relação entre Portugal e o Brasil possui um valor intrínseco que não pode ser reduzido à herança histórica”

No campo cultural também ocorrem interações importantes. João Morgado, escritor português, com obras lançadas no Brasil e presença em festivais no país, sustenta que “o Dia da Comunidade Luso-Brasileira é a celebração de uma história umbilical entre dois países, uma história partilhada que vai muito além da língua comum”, pois é “uma história de afetos, de trocas culturais, de famílias que atravessaram o Atlântico em ambas as direções”.

“Neste momento, a maior comunidade de emigrantes em Portugal é a brasileira. Seria desonesto ignorar que este crescimento acelerado representa também um desafio real para quem chega e para quem está. Mais do que a nacionalidade ou a cor da pele, são as diferenças culturais e comportamentais que geram fricção no quotidiano. E isso não se resolve com acusações, silêncio ou uma boa vontade superficial. Exige diálogo, humildade e a coragem de olhar para o outro com genuína abertura. Saber respeitar quem chega, mas também respeitar quem acolhe”, ponderou, referindo que “este caminho de conciliação nunca foi fácil”.

“Não o foi no passado e não o será no futuro. Hoje, exige-se que tenhamos uma mente aberta para encontrar entendimentos, construir afetos e partilhar projetos comuns. Mesmo quando é difícil, talvez especialmente quando é difícil. Assim poderemos continuar a festejar”, acrescentou João Morgado.

Já o escritor José Manuel Diogo sustenta que a relação entre Portugal e Brasil não pode ser reduzida à herança histórica nem à utilidade económica ou diplomática, devendo ser compreendida como uma realidade civilizacional em permanente construção.

“A relação entre Portugal e o Brasil possui um valor intrínseco que não pode ser reduzido à herança histórica, à utilidade diplomática ou à racionalidade económica”, afirma o autor, defendendo que o vínculo se estrutura numa base mais profunda, assente na língua, na circulação de pessoas e na capacidade de reconhecimento mútuo.

“O que existe entre Portugal e Brasil não é somente uma agenda entre Estados”

O autor observa que a leitura da relação apenas como herança é insuficiente para explicar a sua vitalidade contemporânea.

“A tentação de descrevê-la apenas como herança histórica é redutora”, escreve, acrescentando que o vínculo se mantém não por automatismo, mas porque continua a ser recriado ao longo do tempo. Segundo defende, a ligação entre os dois países resulta de uma “espessura relacional” que ultrapassa o plano funcional das relações internacionais.

A língua portuguesa é identificada como eixo estruturante dessa relação, mas numa lógica de pluralidade.

“Entre Portugal e Brasil, a língua portuguesa é mais do que meio: é morada simbólica”, refere, sublinhando que a unidade linguística não implica uniformidade. Para o autor, a diversidade linguística entre os dois países reforça a densidade da comunidade, em vez de a fragilizar.

José Manuel Diogo assinala ainda que a relação luso-brasileira se constrói na tensão entre proximidade e diferença.

“Há entre os dois países uma forma de intimidade imperfeita”, afirma, apontando que essa dinâmica impede a banalização do vínculo e obriga a uma leitura mais exigente de ambas as realidades. Nesse sentido, considera que cada país funciona como espaço de interpretação do outro, contribuindo para uma compreensão mais ampla e complexa.

“O que existe entre Portugal e Brasil não é somente uma agenda entre Estados. É um ecossistema humano transatlântico”, esclarece, referindo a crescente mobilidade e interligação entre sociedades, empresas e instituições.

Por outro lado, a empresária Lucinda Marques, empresária e responsável pela editora IMEPH, com sede no Ceará, defendeu que o Dia da Comunidade Luso-Brasileira deve reforçar o papel da literatura como instrumento de ligação entre Brasil e Portugal.

“Este é um tempo de reafirmar que a língua portuguesa nos une e que a literatura é uma ponte concreta entre Brasil e Portugal, capaz de gerar conhecimento, identidade e desenvolvimento”, afirmou esta responsável, que lidera a editora IMEPH, com atuação nas áreas da educação, alfabetização e cultura popular.

Lucinda Marques enquadrou a data como momento estratégico para consolidar projetos conjuntos no espaço lusófono.

“A construção de projetos editoriais conjuntos entre Brasil e Portugal permite ampliar a circulação de autores e fortalecer a presença da língua portuguesa no mundo”, referiu, destacando que a cooperação entre editoras, instituições culturais e agentes educativos tem vindo a ganhar consistência. Segundo explicou, a internacionalização da literatura passa também pelo reconhecimento das identidades regionais.

“Somos uma só língua, com múltiplas expressões culturais, e é essa diversidade que sustenta a força da lusofonia”, declarou.

No plano estrutural, defendeu o investimento na leitura e na educação literária como base da relação entre os dois países.

“A literatura tem uma função social clara, que é formar cidadãos e criar pontes entre territórios, gerações e realidades distintas”, afirmou, sublinhando também o papel das mulheres no setor cultural. Para Lucinda Marques, a cooperação cultural entre Brasil e Portugal exige continuidade e compromisso.

“A cooperação cultural é um caminho de longo prazo, que exige compromisso com a educação, com os autores e com a circulação do livro no espaço lusófono. Falamos a mesma língua e devemos estar prontos para assinalar esse nosso povo”, concluiu. ■

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