
De Curitiba para o centro mundial da inovação tecnológica, Roan Weigert construiu uma trajetória que o levou ao Vale do Silício, EUA, onde vive há cinco anos e trabalha atualmente como Developer Relations na GMI Cloud, em San Francisco, num ambiente marcado por ritmo acelerado de inovação e proximidade com empresas e equipas de tecnologia.
Com experiência em software, análise de dados, marketing, produção audiovisual e inteligência artificial, integra hoje o ecossistema tecnológico da Califórnia, atuando na ligação entre produto, engenharia, comunidades de programadores e mercado, num contexto em que a Inteligência Artificial (IA) está a redefinir ferramentas e modelos de trabalho.
Autor do livro “World Models Applied in Video Production: A Comprehensive Guide” (2026), Roan Weigert procura aproximar investigação avançada em inteligência artificial de aplicações práticas na indústria audiovisual, num momento em que novas ferramentas estão a transformar profundamente a produção de conteúdo e os processos criativos.
Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, este especialista sublinha o papel estratégico da comunicação técnica na adoção de novas tecnologias e deixa conselhos a profissionais lusófonos que pretendem entrar no mercado global da inteligência artificial, defendendo a importância de construir portfólio, exposição pública e pensamento internacional desde cedo.
Como é viver no Vale do Silício?
É estar exposto diariamente a um ritmo muito intenso de inovação, ambição e experimentação. É um ambiente em que conversas sobre produto, pesquisa, captação, infraestrutura e futuro acontecem o tempo todo, muitas vezes no mesmo dia. A mudança para cá foi resultado de uma trajetória construída ao longo de anos, saindo de Curitiba, Sul do Brasil, passando por experiências em tecnologia, marketing, dados e produção audiovisual, até chegar a um ponto em que fazer parte fisicamente desse ecossistema passou a ser estratégico para crescer profissionalmente e estar próximo de quem está a construir o futuro da IA. A presença pública da Hult em San Francisco também evidencia essa fase de transição e consolidação internacional.
Que experiências tem vivido?
Tenho vivido uma combinação entre tecnologia de ponta, criação de conteúdo, comunidades técnicas e inovação aplicada. Isso inclui entrevistar líderes de IA, participar em eventos e hackathons (são os meus eventos favoritos!), produzir conteúdo técnico para developers, transformar ferramentas complexas em algo utilizável para públicos mais amplos e acompanhar de perto como novas plataformas de IA estão a sair do laboratório para o dia a dia de milhares de pessoas.
O que tem conquistado ou criado?
Ao longo desta trajetória, construí projetos em diferentes frentes. Criei e consolidei um trabalho de conteúdo e entrevistas com foco no ecossistema de IA em San Francisco. Atuei na tradução de tecnologias complexas para comunidades técnicas por meio de tutoriais, workshops, vídeos e apresentações. E publiquei o livro “World Models Applied in Video Production: A Comprehensive Guide”, que procura ligar pesquisa avançada de IA ao uso prático na produção audiovisual.
A sua trajetória começa em Curitiba e chega ao Vale do Silício quase uma década depois.
Que momentos ou decisões foram determinantes para essa mudança geográfica e profissional rumo ao ecossistema tecnológico da Califórnia?
Houve alguns pontos decisivos. O primeiro foi não ficar preso a uma identidade profissional única. Em vez de me limitar a uma função, fui acumulando repertório em software, marketing, dados, vídeo e produto. O segundo foi entender que tecnologia não é só código: é distribuição, comunicação, comunidade e aplicação real. O terceiro foi apostar num ambiente internacional, aproximando-me de San Francisco e do circuito em que inovação, capital, talento e velocidade se encontram. Essa mudança não acontece de um dia para o outro. Ela vem da soma de projetos, risco assumido, exposição ao mercado global e construção contínua de credibilidade.

Antes de atuar diretamente no universo da inteligência artificial, passou por diferentes etapas profissionais, desde desenvolvimento de software até a criação de uma agência de produção de vídeo com mais de mil projetos realizados no Brasil. De que forma essas experiências moldaram a sua visão atual sobre tecnologia e inovação?
Essas experiências moldaram uma visão muito prática. O desenvolvimento de software ensinou-me lógica, estrutura e execução. A produção de vídeo ensinou storytelling narrativa, timing, estética, operação e entrega para mais de 450 clientes. Quando essas duas visões se encontram, a inovação deixa de ser abstrata. Passa a ser medida pelo impacto concreto que gera no workflow, na eficiência, na clareza e na qualidade final. Hoje, vejo a IA exatamente assim: não como espetáculo, mas como infraestrutura criativa e operacional. A sua presença pública hoje mostra justamente essa convergência entre IA, comunicação e produção de conteúdo.
Hoje trabalha como developer relations e mantém diálogo direto com algumas das maiores empresas globais de inteligência artificial, como NVIDIA e Google. Como é a dinâmica desse trabalho no Vale do Silício e que tipo de ponte se estabelece entre engenheiros, empresas e comunidades de desenvolvedores?
O trabalho de Developer Relations, no contexto do Vale do Silício, é menos sobre “marketing para developers” e mais sobre tradução estratégica. É preciso entender o produto tecnicamente, perceber onde os programadores travam, transformar isso em demos, tutoriais, workshops e feedback e devolver para a empresa uma leitura real do mercado. É uma função de ponte: liga engenharia, produto, comunidade, conteúdo e adoção. Quando bem feito, acelera tanto o entendimento do produto como o seu uso real. Alem de ser a “Cara” da empresa e fazer a ponte das diferentes áreas.
A sua empresa fundada no Vale do Silício dedica-se à aplicação de inteligência artificial em workflows de produção de vídeo. Que mudanças concretas a IA já está a provocar na indústria audiovisual e como essas tecnologias podem transformar o trabalho de criadores e produtores?
Ser investidor e fundar uma empresa em San Francisco foi uma decisão estratégica. A IA já está a mudar a produção audiovisual em várias camadas: pré-visualização, geração de conceitos, ideação, edição, manipulação de imagens, consistência visual, automação de tarefas repetitivas e aceleração do pipeline criativo. Para criadores e produtores, isso significa reduzir o tempo entre a ideia e a execução, testar mais caminhos criativos, diminuir a fricção operacional e ampliar o tipo de resultado que pequenas equipas conseguem entregar. A mudança mais importante talvez seja esta: a IA está a transformar workflows inteiros.
Em 2026 publicou o livro “World Models Applied in Video Production: A Comprehensive Guide”, apontado como o primeiro guia técnico abrangente sobre o uso de world models na produção de vídeo. O que são exatamente esses modelos e por que estão no centro da nova geração de sistemas de IA aplicados à imagem e ao vídeo?
World models são sistemas que modelam e simulam o ecossistema de um ambiente utilizando GPU de alta potência, prevendo o que acontece a seguir e o que muda quando se altera uma variável. Em vídeo, isso é central porque a próxima geração de IA visual precisa de mais do que imagens bonitas: precisa de consistência temporal, coerência espacial, física mais convincente e maior controlabilidade.
O livro faz a ponte entre pesquisa académica avançada e aplicação comercial da inteligência artificial. Qual foi a principal lacuna que identificou no mercado ou na literatura técnica que o levou a escrever esta obra?
A principal lacuna era a distância entre o que a pesquisa académica mostrava e o que os profissionais de criação, produção e negócios conseguiam realmente compreender e aplicar. Havia muita discussão técnica avançada, mas pouca tradução prática para workflows de produção de vídeo. O livro nasce justamente para preencher esse vazio: organizar conceitos, demonstrar a sua relevância comercial e oferecer uma leitura aplicável a quem precisa transformar teoria em produção.
A sua produção de conteúdo técnico, incluindo vídeos, tutoriais e apresentações para comunidades de programadores, tem sido reconhecida internacionalmente e chegou a ser destacada no Artificial Intelligence Journal. Qual é o papel estratégico da comunicação técnica no avanço da inteligência artificial hoje?

A comunicação técnica é estratégica porque, sem ela, muita inovação morre na interface entre o produto e o utilizador. Não basta construir modelos poderosos. É preciso explicar com clareza, demonstrar uso real, reduzir a curva de aprendizagem e criar confiança. Hoje, quem comunica bem acelera a adoção, melhora o feedback de produto e ajuda a comunidade a transformar capacidade técnica em aplicação concreta. Vejo muitos engenheiros talentosos que não conseguem o destaque merecido por falta de comunicação.
Ao olhar para a sua trajetória, de um jovem programador em Curitiba a empreendedor e autor no Vale do Silício, que conselhos daria a profissionais brasileiros ou lusófonos que pretendem atuar nas áreas de inteligência artificial e tecnologia de ponta?
Primeiro, não esperem por se sentirem “prontos” para começar. Eu vim só para fazer um MBA nos EUA e hoje faço algo e me conecto com pessoas que nunca pensei que fosse possível. Construam repertório real, criem comunidades, gerem valor para a sociedade. Segundo, aprendam a unir técnica e comunicação, pois isso multiplica oportunidades. Terceiro, não consumam tecnologia apenas como utilizadores; estudem infraestrutura, workflows, produto e distribuição. Quarto, exponham o seu trabalho publicamente (melhor ainda se for em inglês), porque portfólio, conteúdo e consistência abrem portas. E quinto, pensem global desde cedo. O mercado de IA já é internacional por natureza. Quem aprende a operar nesse nível mais cedo ganha vantagem. ■




