Escritor João Morgado apresenta “Cemitério de Pardais” na Covilhã e desafia leitores a redescobrir gestos de humanidade

O escritor covilhanense refletiu sobre a solidão, a memória, a velhice e a dignidade humana, lançando um apelo à valorização dos afectos e dos pequenos gestos que dão sentido à vida

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Sessão contou com a presença de leitores, representantes institucionais e várias personalidades ligadas à cultura e à academia. Foto: divulgação/João Morgado
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O escritor João Morgado apresentou, no passado sábado, 13 de Junho, o romance “Cemitério de Pardais”, no Salão Nobre da Câmara Municipal da Covilhã, numa sessão que reuniu leitores, representantes institucionais e diversas personalidades ligadas à cultura e à academia. A obra, distinguida com o Prémio Literário Santos Stockler 2024 e publicada pela Ego Editora, esteve no centro de uma tarde dedicada à literatura, à memória e à reflexão sobre a condição humana.

A sessão contou com a presença institucional do presidente da Câmara Municipal da Covilhã, Hélio Fazendeiro, e da vereadora da Cultura, Regina Gouveia. O programa incluiu a apresentação do autor por Nélson Silva, presidente da Mutualista da Covilhã, e a análise da obra por António Neto Freire, provedor da Santa Casa da Misericórdia da Covilhã, Jorge Luiz dos Santos, investigador da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, e Maria da Assunção Vaz Patto, presidente da mesma faculdade.

A componente artística do encontro ficou a cargo de Sérgio Novo, da ASTA, que realizou a declamação de excertos da obra, e do grupo “Tantos & Mais 1”, responsável pelo momento musical que encerrou a cerimónia.

Perante uma sala repleta, João Morgado começou por agradecer a presença dos leitores, amigos e entidades que se associaram ao lançamento da obra, sublinhando a importância de criar espaços de encontro em torno dos livros. 

O autor destacou que, numa época marcada pela velocidade e pela dispersão, reunir pessoas em torno de um livro representa um gesto de particular significado, onde a leitura, o pensamento e a escuta assumem um valor cada vez mais necessário.

Ao apresentar “Cemitério de Pardais”, o escritor explicou que o romance aborda temas universais como a dignidade humana, a memória, a velhice e a persistência do amor para além da ausência. 

A narrativa acompanha um homem de 88 anos, quase cego e mergulhado nas suas recordações, que vive na expectativa de um telefonema – da neta, do filho, de um amigo ou até de Deus – transformando essa espera numa profunda reflexão sobre a solidão, o abandono e a forma como a sociedade encara os seus idosos.

Durante a intervenção, João Morgado identificou as “cinco feridas” que atravessam a obra: o tempo, o afecto, a dignidade, a memória e o cansaço de existir. Mais do que apresentar um romance, o autor lançou um desafio aos presentes, desejando que o livro inspire os leitores a telefonar a alguém, a visitar quem ama, a desacelerar e a recuperar gestos simples de humanidade.

A obra assume igualmente um carácter profundamente afectivo ao recuperar a memória de uma Covilhã desaparecida, marcada pelos teares, pelas fábricas, pelos barbeiros, pelos polícias-sinaleiros, pelos cafés e pelas pequenas histórias do quotidiano. 

Segundo João Morgado, trata-se de uma cidade que foi sendo guardada ao longo dos anos e que agora é devolvida aos leitores sob a forma de ficção.

O autor fez ainda questão de esclarecer que “Cemitério de Pardais” não é um livro sobre a morte, mas antes uma celebração da vida presente, da amizade, do amor e daquilo que verdadeiramente permanece quando tudo o resto perde importância.

No final da apresentação, João Morgado deixou aos presentes uma das mensagens mais marcantes do romance, assumindo como sua a ambição do protagonista da história. 

“O meu projecto de vida, da vida que me resta, é coleccionar abraços apertados – o máximo que conseguir. É a única maneira de morrer rico”, frisou.

A apresentação de “Cemitério de Pardais” confirmou, assim, a capacidade da literatura de João Morgado para convocar memórias, suscitar reflexão e promover encontros humanos em torno de temas tão intemporais como a solidão, a compaixão e a necessidade de cuidar dos outros.

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