
“A diáspora portuguesa não escolhe entre duas nações; aprende, desde cedo, a amá-las com a mesma intensidade”.
Há fotografias que nunca chegam a um álbum, mas ficam para sempre nas nossas memórias. Uma bandeira portuguesa junto a uma argentina pendurada numa varanda. Uma família reunida em frente à televisão, aguardando o início da partida. Foi assim que a comunidade portuguesa na Argentina viveu um Mundial que foi provavelmente o último para dois gigantes insubstituíveis: Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.
Em centenas de lares luso-argentinos, repetiu-se o mesmo ritual. Quando a Argentina jogava, o tradicional asado (churrasco) era a estrela da mesa. Quando era a vez de Portugal, o aroma do bacalhau, generosamente regado com aceite de oliva, trazia de volta a cada família um pedaço da sua terra natal ancestral. A ementa mudava, mas o pão e o vinho estavam sempre presentes na mesa, símbolos simples de uma tradição que continua a unir gerações.

A mesma cena repetia-se em inúmeras instituições portuguesas por todo o país, onde grupos de amigos e famílias se reuniam para viver cada jogo entre Portugal e Argentina. Ali, os abraços, a emoção e as celebrações confirmavam que o futebol era apenas a desculpa perfeita para fortalecer os laços de uma comunidade.
Victoria, de 16 anos, e o irmão Baltazar, de 10, ambos argentinos com cidadania portuguesa, personificam como poucos esta identidade partilhada. Ambos torciam pelas duas seleções com a mesma paixão. Victoria resume tudo com uma imagem comovente:
“O ritual que experimentávamos antes de cada jogo era incrivelmente emocionante. O meu irmão e eu ficávamos em frente à televisão para cantar o hino nacional, independentemente de Portugal ou Argentina estar a jogar”.

Já Baltazar fez uma confissão que valia mais do que qualquer análise futebolística. A eliminação de Portugal magoou-o ainda mais do que a derrota da Argentina na final contra a Espanha. Nessa tristeza, falou dos avós, das histórias de família, das canções portuguesas e de uma herança que nenhum oceano poderia apagar.

Talvez seja esta a maior lição que este Mundial nos Estados Unidos, México e Canadá, em 2026, nos ensinou. No seio da comunidade portuguesa, ninguém se sentiu obrigado a escolher entre Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, entre a bandeira verde e vermelha ou a azul-clara e branca. Porque a identidade não se divide; multiplica-se.

E enquanto as duas bandeiras continuavam a agitar-se juntas em algumas janelas, tornou-se claro que o verdadeiro triunfo não estava num troféu erguido, mas em testemunhar que existem corações capazes de abraçar duas pátrias com o mesmo amor, a mesma gratidão e o mesmo orgulho. ■
Víctor Manuel Rodrígues Passos Estanqueiro
Presidente da Federação das Associações Portuguesas da Argentina
Presidente do Clube Português da Grande Buenos Aires
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