Brexit redesenha emigração portuguesa para o Reino Unido e concentra vistos em profissões qualificadas

Mais de três mil vistos de trabalho foram atribuídos a cidadãos portugueses entre 2021 e 2025, com maior presença nas áreas financeira, tecnológica, da saúde e da engenharia

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Foto: Agência Incomparáveis
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O Reino Unido concedeu 3.055 vistos de trabalho a cidadãos portugueses entre 2021 e 2025, período marcado pela entrada em vigor das novas regras de imigração após o Brexit. Os dados constam de uma análise do Observatório da Emigração, publicada em setembro de 2026, que acompanha a evolução da mobilidade laboral portuguesa para território britânico desde o fim da livre circulação de cidadãos da União Europeia. O número de autorizações cresceu de forma rápida entre 2021 e 2022, ano em que atingiu o máximo de 972 vistos, seguindo-se uma redução progressiva até aos 478 registados em 2025.

A mudança no regime migratório alterou o perfil dos portugueses que procuram oportunidades profissionais no Reino Unido. Os vistos concentram-se sobretudo em atividades profissionais, científicas e técnicas, saúde e apoio social, atividades financeiras e de seguros, informação e comunicação. Analistas e consultores financeiros, juntamente com profissionais das tecnologias de informação, representam cerca de 13% do total das autorizações concedidas entre 2021 e 2025. Entre outras profissões com presença significativa surgem médicos veterinários, com 182 vistos, enfermeiros, com 178, e médicos, com 102.

A área da saúde registou, contudo, uma mudança relevante durante o período analisado. O número de vistos concedidos a profissionais de enfermagem passou de 71 em 2022 e 60 em 2023 para apenas três em 2025. Também foram identificadas reduções entre profissionais ligados à radiologia médica e às ciências naturais e sociais. Os dados mostram, assim, uma alteração na composição da mobilidade laboral portuguesa, num sistema britânico que passou a privilegiar critérios ligados às qualificações, à profissão e às necessidades do mercado de trabalho.

No conjunto da União Europeia, Portugal foi o sexto país com maior número de vistos de trabalho concedidos pelo Reino Unido entre 2021 e 2025. O indicador ajuda a medir apenas uma parte da mobilidade portuguesa para o país, uma vez que não corresponde ao número total de portugueses residentes ou que entraram em território britânico. Dados anteriores do Observatório da Emigração mostravam que, em 2022, entraram no Reino Unido 7.941 portugueses, menos 41% do que os 13.551 registados em 2021, uma quebra então associada às novas condições de mobilidade decorrentes do Brexit.

A saída britânica da União Europeia foi aprovada em referendo em 2016, mas o novo enquadramento migratório passou a produzir efeitos plenos a partir de 2021, depois do período de transição. Desde então, os cidadãos portugueses que não se encontram abrangidos por regimes de residência anteriores passaram a depender, para trabalhar no país, das regras do sistema britânico de imigração. O estudo do Observatório da Emigração, baseado em dados do Home Office, mostra que o Reino Unido continua a captar profissionais portugueses, mas num modelo diferente daquele que caracterizou décadas de livre circulação dentro do espaço europeu.

A publicação, assinada pela investigadora Inês Vidigal, integra a série OEm Fact Sheets e assinala ainda uma limitação estatística: os dados relativos aos vistos concedidos a cidadãos portugueses em 2024 abrangem apenas o primeiro e o quarto trimestres desse ano. O trabalho fornece, por isso, uma leitura sobre a transformação da emigração profissional portuguesa para o Reino Unido no pós-Brexit, com um fluxo menor e mais concentrado em setores que exigem qualificações técnicas e académicas. ■

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