Opinião: “Quando o Fado encontrou um porto chamado Argentina”, por Víctor Manuel Rodrígues Passos Estanqueiro

“A primeira visita de Mário Moita à terra natal de Gardel foi muito mais que um concerto, foi um abraço entre Portugal e a sua diáspora, uma celebração da memória e uma demonstração de que a cultura encontra sempre o caminho de regresso à casa”

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Víctor Manuel Rodrígues Passos Estanqueiro, presidente da Federação das Associações Portuguesas da Argentina e do Clube Português da Grande Buenos Aires. Foto: divulgação/arquivo pessoal
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“Os oceanos separam os territórios; a arte une as almas”.

Alguns acontecimentos são anunciados não pelo ruído que geram, mas pelo silêncio que deixam. A primeira viagem de Mário Moita à Argentina foi um deles. Não foi apenas a chegada de um cantor português. Foi a chegada de uma voz capaz de unir duas margens do Atlântico através da emoção, da memória e daquele sentimento profundo a que os portugueses chamam saudade.

A convite do Club Português del Gran Buenos Aires, Moita fez um recital inesquecível para mais de 400 pessoas. Com a elegância discreta dos maiores intérpretes e acompanhado apenas por um piano, transformou cada fado numa ponte entre Lisboa e Buenos Aires. A sua carreira, marcada pelo respeito pela música portuguesa e por uma interpretação íntima e profunda, encontrou na nossa comunidade um público que não ouviu apenas música: ouviu as suas próprias memórias.

Na manhã de domingo, 12 de julho, antes do festival, deu uma calorosa entrevista ao programa Terra Lusitana, o histórico programa de rádio que celebrará o seu aniversário em setembro. Durante 25 anos, partilhou a vida institucional, cultural e social do Club Português del Gran Buenos Aires e de toda a comunidade portuguesa na Argentina. Deixou também a sua marca, porque as palavras, quando nascem do coração, são outra forma de cantar.

A celebração também se falou através dos sabores. Os chorizos à portuguesa abriram a mesa; a cazuela de marisco com arroz evocou o mar que une a nossa história; e o frango com salada mista completaram um encontro onde a gastronomia e a cultura caminharam de mãos dadas.

O fado não pede autorização para entrar. Acomoda-se no silêncio, conversa com as memórias e floresce onde um português guarda a chave da sua terra natal. Nessa tarde, no Club Português del Gran Buenos Aires o tempo parou. Portugal não estava a doze mil quilómetros de distância: estava numa melodia, nos aplausos e em mais de 400 corações que batiam ao mesmo ritmo. 

A primeira visita de Mário Moita à Argentina faz agora parte da memória coletiva da nossa comunidade. Porque os concertos terminam, os aplausos abrandam e as luzes do palco apagam-se. Mas alguns momentos ficam para sempre gravados na alma de um povo.  ■

Víctor Manuel Rodrígues Passos Estanqueiro

Presidente da Federação das Associações Portuguesas da Argentina

Presidente do Clube Português da Grande Buenos Aires

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

 

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