Opinião: “Entre Raízes”, por Niva Still

“Entre duas casas”

33
Niva Still, secretária sindical na sede nacional do “Unia”, na Suíça, especialista em migração, com particular atenção à comunidade portuguesa no país helvético. Foto: divulgação/acervo pessoal
- Publicidade -

Como é a vida de um emigrante português na Suíça? – Foi uma pergunta que me fizeram recentemente numa entrevista. Respondi: é uma vida dividida. O coração fica em Portugal e, na Suíça, fica tudo o resto — o trabalho, a escola dos filhos, os amigos, a casa, as rotinas. Uma vida inteira construída, quase sem darmos por isso.

Durante os cinco anos em que trabalhei como intérprete para a nossa comunidade, conheci muitas histórias de pessoas que chegaram com uma mala, alguns sonhos e a ideia de que seria apenas por alguns anos. Depois vieram os filhos, a casa, o emprego, o carro. Mesmo após décadas, havia uma frase que ouvia em quase todas as sessões: “Um dia vamos voltar para Portugal.”

Não há nada de estranho nesse desejo. A saudade existe. Mas o que acontece quando esse “um dia” cresce connosco? E, sobretudo, o que acontece aos filhos que crescem a ouvir: “Já não aguento mais esta terra. Para o ano vamos voltar.”

Quero contar-vos a história de um jovem português, nascido na Suíça, que ouviu desde sempre: “Um dia vamos voltar.” Para os pais, era um sonho para o futuro, mas, pela forma como falavam dele, parecia estar sempre iminente. Para o filho, porém, esse sonho tinha consequências no presente.

Como criar raízes num lugar que lhe dizem constantemente ser provisório? Para quê investir na língua, nas amizades, num clube de futebol ou num projeto de vida, se tudo pode mudar a qualquer momento?

E havia algo ainda mais difícil: ele não queria desiludir os pais, mas também não podia deixar de ser aquilo que era — um jovem que tinha nascido e crescido na Suíça.

O seu caminho até então não tinha sido fácil. Era bastante tímido, mas percebi desde logo que não lhe faltavam capacidades. Faltava-lhe alguém que reconhecesse o seu potencial e compreendesse o seu sofrimento. Felizmente, uma professora conseguiu vê-lo verdadeiramente.

Acompanhei este caso durante cerca de um ano, como intérprete, porque a mãe, apesar de viver há quase vinte anos na Suíça, não dominava suficientemente a língua para participar sozinha nas reuniões da escola do filho.

É precisamente nesse detalhe que percebemos como a vida “dividida” de que falo no início pode pesar sobre uma família inteira, geração após geração.

Com o apoio da professora, o jovem começou a melhorar visivelmente. Numa das reuniões a que assisti, ela pediu à mãe que prometesse que a família permaneceria na Suíça, pelo menos até ele concluir a sua formação.

A mãe prometeu. O jovem chorou. Eu também me emocionei, porque percebi o que aquela promessa significava para ele: finalmente, podia começar a construir a sua vida sem o medo constante de que o chão desaparecesse de um momento para o outro.

Esta realidade está a mudar dentro da nossa comunidade. A primeira geração construiu a vida com a ideia do regresso. Os filhos cresceram noutra realidade: estudam, trabalham, apaixonam-se e imaginam o seu futuro aqui.

Ainda assim, muitos vivem com a sensação de não poderem criar raízes demasiado profundas. Não se sentem autorizados a pertencer verdadeiramente à Suíça, porque Portugal lhes é apresentado como o seu verdadeiro destino. Mas também já não pertencem plenamente a Portugal, um país onde, muitas vezes, passam apenas duas ou três semanas por ano.

É uma espécie de vida suspensa: crianças que se tornam jovens e adultos sem sentirem que têm um chão verdadeiramente seu.

Esta não é apenas uma questão da comunidade portuguesa. A sociedade suíça também tem responsabilidades. Nascer aqui, falar a língua e participar ativamente na sociedade não deveria significar continuar a ser visto eternamente como alguém “de fora”.

Mas nós, dentro da comunidade, também precisamos de fazer a nossa parte. Não podemos pedir aos nossos filhos que tenham sucesso na sociedade onde vivem e, ao mesmo tempo, dizer-lhes que essa vida é apenas uma passagem.

Aos pais da segunda geração deixo um pedido: honrem as vossas origens. Transmitam aos vossos filhos a língua, a cultura e as histórias das vossas famílias. Mas deixem os vossos filhos escolher como querem viver a sua própria vida e onde desejam construir o seu futuro.

Afinal, um dia também nós fizemos as malas e escolhemos o nosso destino. Porque não dar a mesma oportunidade aos nossos filhos? 

Niva Still

Secretária sindical na sede nacional do “Unia”, na Suíça, especialista em migração, com particular atenção à comunidade portuguesa no país helvético

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.