“É uma forma de dar à cidade e à população local maior sentido de pertença”

Eduardo Barroso, representante de João Pessoa, município brasileiro, na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”, participou na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” em Castelo Branco, Portugal, onde apresentou propostas para reforçar a cooperação entre as duas cidades a partir da economia criativa, sem deixar de explicar o que uma "cidade criativa" significa na prática

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Eduardo Barroso, representante de João Pessoa, município brasileiro, na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”. Fotos: Agência Incomparáveis
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A primeira edição da “Bienal Internacional de Artes e Ofícios”, realizada nos dias 4 e 5 de setembro, no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco, reuniu representantes de Portugal, Brasil e Cabo Verde para discutir património, artesanato, indústrias criativas e cooperação entre territórios. Entre os participantes esteve Eduardo Barroso, representante de João Pessoa, município brasileiro, junto da “Rede Mundial de Cidades Criativas da UNESCO”, que participou no encontro com propostas destinadas a “aprofundar as relações entre a cidade situada no maior país da América do Sul e Castelo Branco, Portugal.

João Pessoa integra a “Rede de Cidades Criativas da UNESCO desde 2017”, na categoria “Artesanato e Artes Populares”. A cidade é reconhecida pela “diversidade da produção artesanal”, que inclui “cerâmica, bordado e crochet”, e desenvolveu, ao longo dos últimos anos, estruturas ligadas à “produção, inovação e comercialização do artesanato”.

Em declarações exclusivas à Agência Incomparáveis, Eduardo Barroso explicou que a participação na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” teve como objetivo “dar continuidade às relações construídas entre os dois municípios”.

“A nossa presença em Castelo Branco vem no sentido de tentar reforçar esses laços de cooperação que já existem, porque hoje somos, João Pessoa e Castelo Branco, cidades geminadas. Trago comigo algumas propostas de cooperação efetiva entre as nossas duas cidades”, adiantou este representante brasileiro, que avalia que a integração numa “Rede de Cidades Criativas” deve produzir “efeitos que ultrapassem a projeção turística ou institucional”. A classificação, na sua perspetiva, deve ser sentida no território e incorporada no quotidiano da população.

“É muito mais importante do que esse selo significar um diferencial enquanto destino turístico qualificado. É uma forma de dar à cidade e à população local maior sentido de pertença, maior orgulho de serem cidadãos albicastrenses”, sustentou.

Eduardo Barroso defendeu ainda que o estatuto atribuído pela UNESCO ganha significado quando a criatividade é entendida como resultado do trabalho desenvolvido pelas pessoas.

“Não é a cidade que é criativa. São os seus artesãos, os seus artistas, a sua população em geral que deve imbuir-se desse espírito de tentar sempre fazer algo melhor, trazendo para o presente as oportunidades que o futuro traz e, com isso, novas possibilidades para a economia criativa”, explicou.

Neste contexto, este especialista brasileiro entende que uma “Cidade Criativa” não deve encarar a classificação apenas como uma distinção conquistada.

“Ser uma “Cidade Criativa” é mais do que um reconhecimento. É uma provocação, é um estímulo para que a cidade avance na direção de um desenvolvimento sustentável”, caracterizou.

A economia criativa esteve entre os temas centrais da participação de Eduardo Barroso na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios”. Para o representante de João Pessoa, este modelo económico introduz uma lógica diferente daquela que assenta apenas na produção tradicional de bens e serviços, ao colocar a criatividade, o conhecimento e a cultura no centro da geração de valor.

“A economia criativa é uma nova forma de observar o processo de desenvolvimento, não mais centrada na economia tradicional, mas numa economia onde é a criatividade, a capacidade humana de transformação, que é o seu principal património, tendo a cultura como o centro desse processo de desenvolvimento”, analisou.

Barroso associa esta transformação à valorização dos elementos que diferenciam cada território.

“É uma nova economia que está a surgir, que eu classifico inclusive como a economia do singular, onde as coisas únicas e exclusivas de um território têm um valor agregado muito maior”, definiu, referindo que este modelo pode produzir impactos para além da preservação cultural.

“Isso traz uma importância não só cultural, mas principalmente do ponto de vista socioeconómico, gerando novas oportunidades de trabalho e rendimento”, acrescentou.

Durante a presença em Castelo Branco, Eduardo Barroso apresentou também experiências desenvolvidas no Brasil que considera passíveis de reflexão em Portugal, respeitando as diferenças entre os dois contextos. Entre essas iniciativas está o “Prémio Top 100” do “Artesanato Brasileiro”, instrumento criado para “identificar unidades produtivas e estimular competitividade, qualificação e acesso a mercados”.

“Nós temos no Brasil algumas iniciativas que poderiam servir como referência, não transplantadas, porque são contextos bastante diversos. Temos há 20 anos uma certificação chamada “Prémio Top 100 do Artesanato Brasileiro”, que classifica, a cada três anos, as 100 unidades mais competitivas”, exemplificou.

Na sua opinião, o modelo produz informação relevante para diferentes intervenientes do setor.

“Isso representa para os artesãos um estímulo e uma oportunidade de conquistar novos mercados. Para os consumidores, significa uma lista de referências de qualidade e, para as políticas públicas, um apontamento sobre onde estão as fragilidades e deficiências que devem ser compensadas”, detalhou.

A experiência brasileira levou-o a colocar em discussão a possibilidade de criação de uma iniciativa semelhante em Portugal.

“Esse é um dos exemplos que eu gostaria de trazer, provocando, quem sabe, aqui em Portugal, o desejo de ter também um prémio português, um Top 100 do artesanato português”, sugeriu.

Eduardo Barroso, representante de João Pessoa, município brasileiro, na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”. Foto: Agência Incomparáveis

Outra proposta apresentada passa pela criação de estruturas que aproximem artesanato, inovação e design. Eduardo Barroso destacou os laboratórios de inovação e design para artesanato desenvolvidos no Brasil, espaços destinados a apoiar artesãos na criação de novos produtos e na estruturação das diferentes etapas de produção.

“São equipamentos que vêm dar aos artesãos um contributo no sentido de desenvolver novas coleções em regime de cocriação, mas não só isso. Permitem acompanhar a produção desses produtos em todo o seu ciclo produtivo, em toda a sua cadeia de valor, chegando da criação à comercialização”, descreveu.

Para o representante de João Pessoa, estas práticas podem alimentar futuras iniciativas de cooperação entre os territórios representados na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios”.

“São duas experiências que me parecem oportunas e que trazemos como sugestão de partilha”, propôs.

A realização do evento em Castelo Branco ocorre num momento em que o município procura consolidar a sua presença na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”. A autarquia enquadrou a “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” precisamente como uma plataforma de “valorização dos saberes tradicionais, do património e da cooperação com outras cidades e instituições”.

No balanço dos dois dias de programação, Eduardo Barroso destacou a função deste tipo de encontro na circulação de conhecimento entre cidades que colocam cultura e criatividade nas suas estratégias de desenvolvimento.

“Iniciativas como esta devem ser apoiadas e reforçadas porque se transformam no “locus ideal” de partilha das melhores práticas, visualização de novos projetos e criação de novas oportunidades de intercâmbio e cooperação”, disse.

Barroso acredita que esta articulação corresponde à própria lógica da “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”, criada para “favorecer a troca de experiências entre territórios que integram cultura e criatividade nas suas políticas urbanas”. A UNESCO apresenta a rede como uma plataforma internacional de ideias e experiências destinadas a utilizar cultura e criatividade como instrumentos de desenvolvimento sustentável.

“O sentido da rede da UNESCO é exatamente esse: reforçar os vínculos de cooperação e intercâmbio entre cidades que colocaram a criatividade como o núcleo principal do seu processo de desenvolvimento”, concluiu.

Recorde-se que a organização da Bienal foi liderada pela Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco, sob a gestão de Sónia Abreu. ■

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