KODU levam “We Are Still on the Move” à Casa da Música entre gravação, movimento e criação contemporânea

Grupo de percussão criado em Castelo Branco, Região Centro de Portugal, prepara o primeiro registo em CD e vídeo de um projeto que cruza música, corpo, eletrónica, imagem e espaço, numa etapa que pretende abrir novas possibilidades de circulação em Portugal e no estrangeiro

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Foto: divulgação
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Os KODU nasceram em 2021, no contexto da disciplina de Música de Câmara da Escola Superior de Artes Aplicadas, em Castelo Branco, a partir do encontro entre os percussionistas Francisco Guerreiro, Jaime Pereira e Ismael Gouveia. Desde o início, o grupo procurou ultrapassar os limites do repertório tradicional de percussão, explorando a relação entre timbre, movimento, espaço, diferentes formações e novas linguagens artísticas. Ao longo do percurso, a estrutura foi integrando diferentes músicos, mantendo como eixo a criação de uma identidade própria e o trabalho direto com compositores. Texto colado

Esse caminho ganha agora uma nova etapa com “We Are Still on the Move”, projeto desenvolvido em colaboração com o compositor Pedro Lima, também conhecido como Peter Limes, e escolhido para o primeiro registo discográfico e audiovisual dos KODU. Estreado em setembro de 2025, em Castelo Branco, o espetáculo cruza percussão, corpo, movimento, vídeo, eletrónica, luz e espaço, procurando ultrapassar a lógica convencional do concerto. Depois da distinção com o 1.º Prémio Jovens Músicos 2025, o grupo levou o projeto à Casa da Música, onde a gravação audiovisual e a apresentação ao vivo representam, segundo os músicos, não um ponto de chegada, mas o início de uma nova fase de circulação e criação.

No dia 5 de outubro, os KODU irão realizar, na Casa da Música, Porto, a gravação do CD e o respetivo registo audiovisual do projeto “We Are Still on the Move”, procurando preservar em formato sonoro e visual a relação entre percussão, movimento, eletrónica, vídeo e espaço. No dia seguinte, 6 de outubro, o grupo apresentará o projeto ao vivo, também na Casa da Música, num concerto que permitirá levar ao público a dimensão física, cénica e performativa da obra.

Como nasceram?

Os KODU nasceram em 2021, no contexto da disciplina de Música de Câmara da Escola Superior de Artes Aplicadas, em Castelo Branco. Éramos três percussionistas (Francisco Guerreiro, Jaime Pereira e Ismael Gouveia) que começaram a trabalhar juntos e rapidamente perceberam que havia ali uma vontade comum de fazer mais do que simplesmente tocar repertório de percussão. Desde o início, interessou-nos sempre explorar as possibilidades muito particulares: a variedade tímbrica, a dimensão física dos instrumentos, o movimento, o espaço e a possibilidade de trabalhar com diferentes formações e linguagens. Ao mesmo tempo, fomos sentindo necessidade de construir uma identidade própria enquanto grupo e de trabalhar diretamente com compositores, sobretudo na criação de repertório. Os KODU foram crescendo a partir daí, com diferentes músicos e formações, mas mantendo essa ideia de adaptação e reinvenção. Cada projeto pede-nos uma abordagem diferente e isso acabou por se tornar uma parte importante da nossa identidade.

O que levou o grupo a escolher “We Are Still on the Move” para o seu primeiro registo em CD e vídeo?

We Are Still on the Move é, neste momento, um dos projetos que melhor representa aquilo que os KODU procuram. O projeto nasceu da colaboração com o compositor Pedro Lima, também conhecido como Peter Limes, e foi pensado desde o início como algo que ultrapassasse a ideia tradicional de um concerto de percussão. A música, o corpo, o movimento, o vídeo, a eletrónica, a luz e o próprio espaço fazem parte da mesma linguagem. Estreámos o espetáculo em setembro de 2025, em Castelo Branco, e desde então tivemos oportunidade de o apresentar novamente e de o desenvolver. Entretanto, os KODU foram distinguidos com o 1.º Prémio Jovens Músicos 2025, e este novo momento na Casa da Música acaba por surgir como uma consequência natural desse percurso.
Escolhemos este projeto porque não queríamos que o primeiro registo dos KODU fosse apenas um documento de um concerto. Queríamos que fosse um registo de uma obra que traduzisse a fase que estamos a viver enquanto grupo e a forma como queremos pensar a percussão como música, mas também como corpo, espaço, performance e algo que por vezes se sente como se nos tocassem diretamente na pele.

Como vão captar em gravação a relação entre percussão, movimento, vídeo e eletrónica que define o espetáculo?

Esse é precisamente um dos grandes desafios do projeto. We Are Still on the Move não é uma obra em que a música exista isoladamente e o vídeo ou o movimento apareçam como elementos decorativos. Está tudo relacionado e acontece em simultâneo. O som influencia o movimento, o movimento influencia a imagem, a imagem cria uma determinada perceção do espaço e a eletrónica transforma aquilo que estamos a ouvir. Por isso, a gravação não pode ser pensada apenas como uma captação áudio do espetáculo. Tivemos de encontrar uma forma de preservar essa relação entre os diferentes elementos e, ao mesmo tempo, permitir que cada linguagem funcione por si no registo final. A gravação audiovisual será feita na Casa da Música, aproveitando as condições técnicas e espaciais da Sala 2, e queremos que o resultado mantenha alguma da dimensão física e imersiva que existe quando o espetáculo é vivido ao vivo.

Que desafios coloca gravar o projeto a 5 de outubro e apresentá-lo ao público no dia seguinte?

É um desafio bastante grande, sobretudo porque estamos a falar de um espetáculo com uma componente física, técnica e artística muito exigente. O dia 5 será dedicado à gravação e implica montar, testar e deixar pronta toda a estrutura antes de começarmos efetivamente a gravar. Como o espetáculo é contínuo e envolve cinco percussionistas, vídeo, eletrónica, luz e outros elementos cénicos, não estamos simplesmente a gravar uma série de peças independentes. Estamos a tentar preservar uma experiência com cerca de 50 minutos de duração e com uma lógica própria do princípio ao fim. Depois existe o desafio de, no dia seguinte, voltar a apresentar o espetáculo ao vivo nas mesmas condições de exigência. Não se trata apenas de voltar a tocar a obra, é necessário recuperar fisicamente de um dia de gravação intenso, manter a concentração e a precisão musical, voltar a colocar em andamento toda a estrutura técnica e cénica e, sobretudo, conseguir voltar a entregar ao público a intensidade física e emocional que o espetáculo exige. É uma obra que nos obriga a estar permanentemente em movimento, atentos ao som, ao espaço, aos restantes intérpretes, ao vídeo, à eletrónica, à luz e a tudo aquilo que está a acontecer em palco. Fazer isso depois de um dia e meio de gravações será, sem dúvida, uma das partes mais exigentes deste processo. Ao mesmo tempo, há algo interessante nessa proximidade, teremos o espetáculo muito presente no corpo e na cabeça. A gravação vai obrigar-nos a um nível enorme de rigor, mas no dia seguinte teremos de transformar esse rigor numa experiência viva, com e para o público.

O que poderá o público descobrir no concerto da Casa da Música que não estará presente no CD ou no registo audiovisual?

Há uma dimensão do espetáculo que é impossível transportar completamente para um registo, e que tem precisamente a ver com a presença física do público e com a forma como o espetáculo acontece no espaço. We Are Still on the Move foi pensado como uma experiência ao vivo. Os instrumentos, o movimento dos intérpretes, o vídeo, a eletrónica, a luz e o próprio espaço estão constantemente em relação, e há uma dimensão física muito forte que só se percebe verdadeiramente quando se está dentro da sala. Além disso, existe algo que não conseguimos controlar totalmente, aquilo que acontece entre nós e o público naquele momento. O espetáculo tem uma estrutura muito definida, mas a presença das pessoas altera a energia da sala, a nossa própria perceção do tempo e a forma como vivemos determinados momentos. O registo audiovisual permitirá preservar uma parte muito importante dessa experiência e, sobretudo, fazer com que o projeto possa continuar a existir para além da apresentação. Mas o concerto será sempre uma experiência irrepetível. O público vai poder estar dentro daquele acontecimento e não apenas observá-lo através de um ecrã.

Depois desta gravação e do concerto, que percurso pretendem dar ao projeto e como esperam fazê-lo chegar a novos públicos?

Não queremos que a Casa da Música seja um ponto final para We Are Still on the Move. Queremos que seja o início de uma nova etapa no percurso do projeto. A gravação permitirá dar uma segunda vida à obra. Passará a existir um registo que poderá circular, ser visto e ouvido por pessoas que nunca tiveram oportunidade de assistir ao espetáculo ao vivo. Ao mesmo tempo, queremos continuar a apresentar o projeto em diferentes salas, festivais e contextos, dentro e fora de Portugal. Para nós, esta circulação é particularmente importante porque We Are Still on the Move permite estabelecer uma relação com públicos muito diferentes. Apesar de partir da música contemporânea e da percussão, não exige necessariamente que o espectador tenha conhecimentos prévios sobre essas linguagens. Existe uma dimensão visual, corporal e espacial muito forte que pode criar uma relação imediata com quem está a assistir. Queremos precisamente explorar isso, levar o projeto para fora dos contextos onde normalmente encontramos a música de concerto e encontrar novos públicos, sem deixar de preservar a exigência artística da obra.

Como explica o vosso registo musical?

Não gostamos muito de tentar definir os KODU através de uma única etiqueta. Partimos da percussão e temos uma ligação muito forte à música contemporânea, mas aquilo que nos interessa é perceber até onde podemos levar essa linguagem. A percussão dá-nos uma liberdade enorme: temos instrumentos de diferentes naturezas, diferentes formas de produzir som, uma relação muito física com o gesto e uma ligação muito forte ao espaço.
Trabalhamos tanto repertório já existente como novas criações e temos procurado desenvolver uma relação cada vez mais próxima com compositores. Ao mesmo tempo, interessa-nos cruzar a música com outras linguagens, como acontece neste projeto com o vídeo, a eletrónica, a luz e o movimento. Talvez a melhor forma de explicar o nosso registo seja dizer que procuramos uma identidade própria sem querermos ficar presos a um rótulo. Queremos que alguém consiga reconhecer os KODU não necessariamente pelo género da música que estamos a tocar, mas pela forma como ocupamos o espaço, como trabalhamos em conjunto e como pensamos a percussão enquanto grupo.

Que projetos têm em mente após as fases de gravação do CD e registo audiovisual e do concerto na Casa da Música?

Esta fase é muito importante para nós, mas não queremos que o trabalho dos KODU fique concentrado num único projeto. Temos várias ideias que passam pela criação de novo repertório, pela colaboração direta com compositores e pelo cruzamento da percussão com outros músicos e outras áreas artísticas. Interessa-nos também continuar a explorar diferentes formações dentro do próprio grupo, desde duos a quartetos até formações maiores, e perceber o que cada configuração nos permite fazer artisticamente.
Temos também projetos em desenvolvimento ligados à música portuguesa e à criação contemporânea, incluindo novas colaborações com compositores e músicos de outras áreas. Ao mesmo tempo, existe uma ambição muito concreta de aumentar a circulação do grupo, sobretudo fora de Portugal. Queremos criar condições para que o trabalho que temos vindo a desenvolver possa chegar a mais salas, festivais e públicos e para que os KODU possam continuar a crescer não só artisticamente, mas também enquanto estrutura profissional. Depois de uma primeira fase em que estivemos muito concentrados em criar uma identidade e construir um percurso, sentimos que estamos agora num momento em que podemos começar a pensar numa escala maior. A gravação e o concerto na Casa da Música são uma parte importante disso, mas são sobretudo um ponto de partida para aquilo que queremos construir a seguir. ■

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