Opinião: “A transição energética não se pode fazer à custa do sacrifício da Beira Interior”, por Ana Correia

“É inaceitável que, sob a bandeira da sustentabilidade, se promovam a desmatação, a ocupação extensiva de solos férteis e a descaracterização de territórios que dependem do turismo de natureza, da agricultura tradicional, da apicultura e da qualidade ambiental para prosperar”

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Ana Correia, presidente da Câmara de Comércio da Região das Beiras. Foto: divulgação/CCRB
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A transição energética para fontes renováveis é uma necessidade indiscutível e um compromisso central na luta contra as alterações climáticas. No entanto, o processo em torno do chamado Projeto Sophia demonstra, de forma preocupante, como a urgência da descarbonização tem sido instrumentalizada para impor grandes intervenções no território sem o devido respeito pela sua identidade, biodiversidade e populações. Na qualidade de cidadã e de Presidente da Câmara de Comércio das Beiras, manifesto a minha profunda insatisfação e preocupação com a forma como todo este processo tem sido conduzido.

A Beira Baixa e a Beira Interior não podem ser encaradas como um mero espaço desprovido de valor, destinado a servir de receptáculo para megaprojetos industriais de energia. A região possui um património natural, agrícola e cultural inestimável, construído ao longo de gerações. Embora se reconheça a recente reformulação do projeto com a redução da potência de 867 MWp para 573 MWp, a diminuição da área ocupada e a retirada dos painéis previstos no concelho do Fundão, a verdade é que os riscos ambientais e territoriais fundamentais permanecem intactos nos concelhos de Penamacor e Idanha-a-Nova, agravados pela passagem de linhas de muito alta tensão. Reduzir a escala de uma infraestrutura não elimina automaticamente o seu impacto destruidor sobre a paisagem, a fragmentação dos habitats e a perda de biodiversidade, como aliás continuam a alertar diversas entidades ambientais, como a Rewilding Portugal, e a própria Comunidade Intermunicipal da Beira Baixa.

É inaceitável que, sob a bandeira da sustentabilidade, se promovam a desmatação, a ocupação extensiva de solos férteis e a descaracterização de territórios que dependem do turismo de natureza, da agricultura tradicional, da apicultura e da qualidade ambiental para prosperar. Uma verdadeira transição ecológica tem de ser justa e descentralizada, priorizando o aproveitamento de zonas já artificializadas, como coberturas de edifícios e parques industriais, bem como o incentivo às comunidades de energia e ao autoconsumo.

Não me e oponho, não nos opomos às energias limpas; opomo-nos, sim, a um modelo centralizado que delapida os activos mais valiosos do interior em nome de interesses que passam ao largo do desenvolvimento local. A Beira Interior precisa de investimento e de futuro, mas um futuro que respeite os seus solos, a sua água, a sua fauna e, acima de tudo, as suas gentes. Não aceitaremos que o nosso território seja amordaçado ou secundarizado. É por isso que apelo a todos os cidadãos e agentes económicos da região para que se juntem a esta causa e assinem a petição em defesa da Beira Baixa e da Beira Interior. ■

Ana Correia

Cidadã e Presidente da Câmara Comércio da Região das Beiras

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

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