Opinião: “A conta de merceeiro do meu avô”, por João Paulo Rocha

"Há um velho ditado que diz que quem paga é sempre o mexilhão. É verdade. Sempre foi. Só que esquecemo-nos de uma parte essencial da frase: sem água e sem oxigénio, não há mexilhão para pagar. Esgotámos a água. Cortámos o oxigénio"

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João Paulo Rocha, primeiro-secretário da Federação das Associações da Diáspora (FAD)
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Já dizia o meu avô, homem da quarta classe, que a seguir a um bom investidor vem sempre um bom gastador. Na altura eu ria-me. Achava graça à forma simples como ele arrumava o mundo. Hoje, já não me rio.

Vivemos sob uma pressão económica enorme. Sentimos todos os dias no supermercado, na bomba de gasolina, na renda que sobe sem pedir licença. E ao mesmo tempo, assistimos a uma implosão social lenta, silenciosa, mas cada vez mais visível. Há mais gente zangada, mais gente cansada, mais gente a desistir.

E nós continuamos impávidos e serenos. A fazer de conta que não é nada connosco. A alimentar intentos expansionistas como se o mundo fosse infinito.

Os alertas são mais do que muitos. Escaladas bélicas que já não são só na televisão. Uma crise energética que pagamos todos os meses. Países inteiros à porta da bancarrota. Empresas que, depois de anos a crescer a qualquer custo, começam agora a encolher, a baixar a bolinha, a despedir em massa como quem limpa o pó. E um FMI a avisar, com aquele ar técnico e frio, que o armagedão económico pode estar ao virar da esquina.
Mas nada parece chegar. Continuamos reféns dos grandes grupos económicos e de políticas feitas à sua medida. Continuamos a acreditar que alguém, algures, vai segurar a queda por nós.

Há um velho ditado que diz que quem paga é sempre o mexilhão. É verdade. Sempre foi. Só que esquecemo-nos de uma parte essencial da frase: sem água e sem oxigénio, não há mexilhão para pagar. Esgotámos a água. Cortámos o oxigénio.

Lembro-me de uma conversa com um amigo banqueiro, há uns anos. Disse-me uma coisa que nunca mais esqueci: “Os bancos não são imobiliárias nem stands de automóveis”. Ele queria dizer que quando um banco fica com mil casas e mil carros que ninguém consegue pagar, o problema já não é das famílias. O problema passa a ser do próprio banco. A crise também lhes bate à porta. Só que a fatura chega sempre depois.

Mas para quê alertar o cego que não quer ver?

Isto, no fundo, não é um texto sobre economia. É um texto sobre bom senso. O meu avô, com a sua quarta classe, percebia de contas como ninguém. Fazia contas de merceeiro num papel de pão. Quanto entra, quanto sai, quanto sobra. Se não sobra, não se gasta. Se se gasta mais do que entra, um dia a casa vai abaixo.

É uma conta tão simples que até envergonha qualquer inteligência artificial ou qualquer economista mais distraído. Não é preciso um mestrado para perceber que não podemos viver eternamente acima das nossas possibilidades enquanto país, enquanto empresas, enquanto famílias.

A seguir a um bom investidor vem um bom gastador, dizia ele. O problema é quando já não temos nem um nem outro. Temos apenas gente a gastar o que não tem, a investir no que não precisa, à espera que o mexilhão pague.

Só que o mexilhão está cansado. ■

João Paulo Rocha

Primeiro-Secretário da Federação das Associações da Diáspora (FAD)

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

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