Flitabira abriu portas para a sexta edição no Brasil

Festival Literário Internacional de Itabira começou a 29 de outubro, na cidade natal de Carlos Drummond de Andrade, com uma sessão que reuniu Rita Von Hunty e Calila das Mercês; até 1 de novembro, o programa contempla encontros literários, homenagens, apresentações culturais e atividades gratuitas

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Foto: Flitabira/divulgação
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O 6.º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira) começou na quinta-feira, 29 de outubro, em Itabira, no estado brasileiro de Minas Gerais, com uma programação dedicada à literatura, à cultura e ao debate sobre questões sociais. A abertura da programação nacional contou com a participação da crítica cultural e educadora Rita Von Hunty, numa conversa sobre identidade, representação e relações de poder, que lotou o Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade.

A sessão inaugural, intitulada “Corpos Narrados”, teve mediação da escritora, jornalista e investigadora Calila das Mercês, uma das responsáveis pela curadoria do festival. O encontro partiu de uma questão central: quem constrói as narrativas sobre os indivíduos e de que forma essas representações influenciam a maneira como diferentes grupos são reconhecidos pela sociedade.

A conversa abordou temas como género, raça, classe social, desigualdade e participação política, relacionando episódios históricos com situações presentes no quotidiano brasileiro. Rita Von Hunty analisou os mecanismos através dos quais determinadas narrativas são utilizadas para legitimar estruturas de poder e condicionar a perceção pública sobre grupos sociais.

A intervenção teve como referência o seu livro “Formas de Narrar um Corpo”, publicado pela editora Planeta, no qual cruza contributos da sociologia, da psicanálise, da literatura e da política para refletir sobre a relação entre linguagem, identidade e poder.

Durante a sessão, a convidada recuperou o conceito de “norma mítica”, desenvolvido pela escritora norte-americana Audre Lorde, para explicar como determinados padrões sociais são apresentados como referências universais. Recorreu também ao exemplo histórico da “drapetomania”, expressão criada em 1851 pelo médico norte-americano Samuel A. Cartwright para classificar como doença mental o desejo de fuga de pessoas escravizadas.

A partir destes exemplos, Rita Von Hunty defendeu a necessidade de questionar a origem das narrativas e os interesses associados à sua construção. A reflexão estendeu-se à cobertura mediática e às diferenças de linguagem utilizadas para descrever pessoas de distintas origens sociais envolvidas em situações semelhantes.

Calila das Mercês participou no debate a partir da sua experiência como escritora e investigadora. Autora do romance “Nódoa”, publicado pela Companhia das Letras, abordou questões relacionadas com imigração, refúgio, desigualdades e heranças coloniais presentes na sociedade brasileira.

A atualidade política brasileira também esteve presente na conversa, com referências às eleições presidenciais de outubro, à circulação de informações falsas e à utilização das redes sociais na construção de discursos políticos. As intervenientes defenderam a importância do pensamento crítico e da participação social na defesa de direitos.

“Numa relação assimétrica de poder, não existe neutralidade”, afirmou Rita Von Hunty no encerramento da sessão, que terminou com aplausos de pé do público.

Festival celebra os 75 anos de “Claro Enigma”

A sexta edição do Flitabira decorre até 1 de novembro, com o tema “A Máquina do Mundo em Nós”, inspirado no poema “A Máquina do Mundo”, de Carlos Drummond de Andrade. A programação assinala os 75 anos da publicação de “Claro Enigma”, obra lançada em 1951, e estabelece uma ligação entre a produção literária do poeta e os debates contemporâneos sobre memória, identidade, cultura e sociedade.

O festival tem curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, presidente do evento, e reúne escritores, investigadores, artistas e representantes do setor editorial. Entre os convidados estão Conceição Evaristo, Leda Maria Martins, Maria Mazzarello, Fabrício Carpinejar, Carla Akotirene, José Miguel Wisnik, Pedro Bial e Marcelino Freire, além de participantes internacionais.

A programação presta homenagem a Conceição Evaristo, Leda Maria Martins e Maria Mazzarello, três personalidades ligadas à literatura, à investigação e à valorização da produção intelectual negra no Brasil. O festival distingue igualmente Dona Tita e Dona Rosinha, referências do Quilombo Morro Santo Antônio, em Itabira, escolhidas como patronas desta edição.

No dia 31 de outubro, data em que se assinalam os 124 anos do nascimento de Carlos Drummond de Andrade, o programa prevê uma conversa com os músicos e compositores José Miguel Wisnik e Kristoff Silva, dedicada ao tema central do festival, com mediação de Sérgio Abranches.

Para além dos debates, o Flitabira disponibiliza uma livraria com mais de cinco mil títulos, sessões de autógrafos, exposições, atividades para crianças e jovens e espaços destinados a escritores independentes e empreendedores locais. Entre as iniciativas está a exposição “Autocaricaturas de Drummond”, com curadoria de Pedro Drummond, neto do poeta.

O festival inclui ainda o Prémio de Redação e Desenho, destinado a estudantes, e a estreia nacional do espetáculo “Claro Enigma – em Libras”, do Grupo de Dança Primeiro Ato, que associa literatura, dança e Língua Brasileira de Sinais.

A sexta edição é apresentada pela Vale, através da Lei Rouanet do Ministério da Cultura do Brasil, com apoio da Prefeitura de Itabira, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e do Itaú. As atividades têm entrada gratuita e as mesas literárias são transmitidas pelo canal oficial do festival no YouTube, com recursos de acessibilidade.

Com o início da programação, Itabira volta a receber autores e leitores para quatro dias de encontros em torno da literatura brasileira e internacional. A sessão com Rita Von Hunty e Calila das Mercês marcou a abertura de um programa que pretende relacionar a obra de Drummond com questões políticas, culturais e sociais da atualidade. ■

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