“A origem não precisa de ser um limite; pode ser um ponto de partida sólido”

Artista português valoriza identidade luso-ibérica na construção de uma carreira premiada no circuito musical internacional; cantautor-produtor, Eddie consolida percurso autónomo entre Portugal, Espanha e América Latina; foco também reside na lusofonia

Eddie, nome artístico de Edgar Pinto, artista português que conta com prémios atribuídos em Madrid, Hollywood, Los Angeles e Nova Iorque. Foto: divulgação
- Publicidade -

O ambiente musical ibero-americano é cenário de diversas evoluções ao longo dos tempos, sobretudo pela presença de músicos profissionais que apostam nas suas origens como ferramenta de criação. É este também o caso do português Eddie, nome artístico de Edgar Pinto, artista que conta com prémios atribuídos em Madrid, Hollywood, Los Angeles e Nova Iorque, num percurso com mais de duas décadas de atividade no circuito musical global.

O seu legado é já hoje muito conectado às experiências entre Portugal e Espanha, com extensão natural à lusofonia e à América Latina, uma construção identitária, afirma Eddie, que recusa rótulos e fórmulas pré-fabricadas.

“A origem não precisa de ser um limite; pode ser um ponto de partida sólido quando existe continuidade no trabalho e vontade real de crescer para além do contexto onde se começou”. Uma frase que sintetiza a linha de pensamento que orienta o seu percurso.

Eddie defende equilíbrio na gestão da identidade cultural, procurando “não exagerar a origem, mas também não a diluir para caber numa tendência”. Para este cantautor, “cada canção encontra o seu lugar”, sem necessidade de transformar referências culturais em elementos decorativos ou exóticos.

Com trabalho reconhecido internacionalmente, o artista luso sublinha a importância da autonomia na construção do seu trajeto.

“Autonomia não tem de ser isolamento. É responsabilidade sobre o caminho que escolho construir”.

No eixo ibérico, que assume como base do seu crescimento artístico, identifica uma proximidade linguística e emocional que facilita pontes.

“A partir desse eixo ibérico, a ligação à lusofonia e à América Latina surge como extensão natural dessa ligação. São territórios onde a língua e a emoção criam proximidade, ainda que cada contexto tenha as suas particularidades”.

Em entrevista à nossa reportagem, Eddie analisa de forma inédita o equilíbrio entre identidade cultural, mercado global e construção sustentável de carreira.

A sua carreira tem-se desenvolvido tanto nos meios institucionais como convencionais, mas com uma dose de autonomia bastante relevante. Que decisões estruturais foram determinantes para construir um percurso internacional mantendo controlo criativo e identidade cultural própria, valorizando, claro, as suas raízes?

Ao longo dos anos fui estruturando o meu trabalho com um nível de autonomia que resulta do caminho que fiz anteriormente. O projeto artístico surge depois de mais de uma década ligado à produção musical e aos estúdios. Essa base deu-me uma visão integrada da criação, da técnica e também do funcionamento do mercado, o que influencia naturalmente a forma como tomo decisões. Muitas dimensões que noutros contextos seriam externas, no meu caso acabam por estar articuladas dentro do próprio projeto, o que implica maior responsabilidade e investimento, mas também me permite ter uma visão clara dos passos que quero dar, mantendo abertura para colaborar sempre que exista alinhamento e contexto adequado. Quanto às raízes, nunca as encarei como algo rígido ou decorativo. Fazem parte da minha formação e da minha vivência e estão presentes de forma natural no que faço. Acompanho o mercado, observo tendências e estou aberto a trabalhar em equipa quando existe alinhamento de visão. O controlo criativo, para mim, é garantir que cada passo contribui para um caminho consistente e sustentável. Autonomia não tem de ser isolamento. É responsabilidade sobre o caminho que escolho construir.

Num mercado global marcado pela estandardização sonora e estética, de que forma trabalha conscientemente a identidade portuguesa e luso-ibérica sem a transformar num rótulo folclórico ou num produto exótico para exportação?

A minha música parte muito da realidade em que vivo e crio. Tenho trabalhado entre Portugal, Espanha, a Lusofonia e a América Latina há alguns anos, e esse cruzamento foi-se tornando parte da minha identidade artística, influenciando naturalmente aquilo que componho e produzo. Não sinto necessidade de sublinhar constantemente símbolos culturais nem de transformar a origem num elemento decorativo. Quando uma referência surge é porque faz sentido para a canção, não porque precise de afirmar uma identidade. Em “A Luz Dentro de Mim”, por exemplo, a guitarra portuguesa e a escolha de filmar em Lisboa, incluindo a casa de fados “O Forcado”, fizeram parte da narrativa emocional do tema. Em “El Otro Lado de Mí”, gravada em Córdoba, a presença da Mesquita-Catedral, dos pátios andaluzes e das bailaoras surgiu pelo mesmo motivo. A música pedia aquele contexto. Vou procurando equilíbrio. Não exagerar a origem, mas também não a diluir para caber numa tendência. Cada canção encontra o seu lugar.

A independência artística implica, muitas vezes, abdicar de atalhos comerciais. Em que momentos sentiu maior pressão para “ceder à fórmula”, ou não, e por que razão optou por não o fazer?

Com o tempo fui cruzando diferentes linguagens, algumas mais próximas do mercado, outras menos formatadas ou menos preocupadas com determinadas estéticas dominantes. O facto de ser produtor e trabalhar com artistas e projetos muito distintos ao longo dos anos expõe-me naturalmente a essa diversidade, que se cruza com a minha própria inquietação autoral. Como compositor e artista, gosto de experimentar novas abordagens e de não ficar preso a um único registo. A ideia de “ceder à fórmula” é por vezes associada a uma perda de identidade e, embora compreenda essa leitura, não vejo as coisas dessa forma. A música e os artistas acabam por circular num mercado. Faz parte da realidade da indústria procurar estruturas que funcionem. Uma canção pode dialogar com uma determinada fórmula e, ainda assim, manter profundidade e identidade artística. Nenhuma fórmula garante resultado por si só. Há também uma dimensão de sensibilidade e critério na forma como se trabalha cada canção. Ficou claro para mim desde cedo que impacto imediato e construção de caminho não são exatamente a mesma coisa. Conscientemente, fui privilegiando construção em vez de reação. Uma coisa pode funcionar no momento e não sustentar um trabalho a longo prazo. Num álbum ou num espetáculo há espaço para diferentes energias, desde que exista coerência nas decisões.

Como avalia hoje o papel das plataformas digitais e dos circuitos internacionais de prémios e festivais na legitimação de artistas independentes portugueses fora do eixo mediático tradicional, tendo em conta a sua experiência internacional e os prémios que já recebeu?

As plataformas digitais abriram espaço para que artistas independentes possam circular fora do eixo mediático tradicional e chegar a públicos que antes estariam praticamente inacessíveis. Ao mesmo tempo, também aumentaram a concorrência e o ruído. Estar presente não significa, por si só, estar legitimado, mas cria possibilidades que há alguns anos simplesmente não existiam. Quanto aos circuitos internacionais de prémios e festivais, vejo-os como parte desse processo de legitimação, não como ponto de chegada. O trabalho vem primeiro.

Notoriedade internacional realça qualidade do trabalho no campo musical. Foto: divulgação

Podem reforçar credibilidade e facilitar contactos, sobretudo quando o caminho já tem consistência. Pela minha experiência, esse reconhecimento integra-se numa construção que se faz passo a passo, abrindo portas e criando pontes. No fundo, são instrumentos dentro de uma visão mais ampla.

A sua música circula entre diferentes geografias e públicos, incluindo ibéricos e lusófonos. Que leitura faz da receção internacional à música cantada ou pensada a partir de Portugal, ou de um português, num contexto ibérico e europeu mais amplo?

Grande parte do meu trabalho tem acontecido entre Portugal e Espanha. Essa ligação não nasceu agora nem foi pensada estrategicamente. Espanha faz parte da minha vida há muitos anos. A minha vida divide-se entre os dois países, falo a língua e mantenho ligações reais a pessoas, memórias e lugares, o que naturalmente se reflete na forma como a música é recebida. A partir desse eixo ibérico, a ligação à Lusofonia e à América Latina surge como extensão natural dessa ligação. São territórios onde a língua e a emoção criam proximidade, ainda que cada contexto tenha as suas particularidades. No espaço europeu mais amplo, a minha presença tem sido pontual. O trabalho tem crescido sobretudo no eixo ibérico, lusófono e latino, onde encontro maior proximidade cultural e linguística.

Como vê a aceitação do seu trabalho como cantautor?

Sinto que a aceitação tem sido muito positiva e que se tem vindo a alargar e consolidar. Noto que a minha música gera envolvimento real quando chega às pessoas. Mais do que números, valorizo ligação, memória e continuidade. Isso confirma-me que existe identidade e consistência no que faço. Quando existem momentos de maior visibilidade, essa resposta torna-se mais evidente. Acontece sobretudo após presença em programas e formatos de grande audiência, tanto em televisão como em rádios nacionais e emissões internacionais dirigidas às diásporas portuguesa e espanhola. Nesses contextos, percebe-se com clareza que o trabalho encontra eco. Nos primeiros anos fui sobretudo associado ao trabalho de produção e aos estúdios. O projeto como cantautor foi-se afirmando de forma gradual, até ser hoje integrado como parte estruturante da minha trajetória artística.

Olhando para o futuro, considera que o seu percurso pode servir de referência para outros artistas portugueses que procuram internacionalização sem abdicar da sua origem cultural e linguística?

Se o meu caminho puder servir de inspiração a alguém, o que posso partilhar é que se foi construindo com trabalho, consistência, resiliência e paciência. Não é um modelo a copiar, nem um trajeto simples. Implica assumir riscos, investir tempo, recursos e muita energia, muitas vezes longe da visibilidade pública. Há uma parte desse caminho que não se vê, feita de decisões difíceis e persistência. Cada artista terá o seu ritmo. A origem não precisa de ser um limite; pode ser um ponto de partida sólido quando existe continuidade no trabalho e vontade real de crescer para além do contexto onde se começou. ■

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.