“Bienal Internacional de Artes e Ofícios” encerra em Castelo Branco com foco nas “Cidades Criativas da UNESCO” e na internacionalização

Segundo e último dia reuniu experiências de municípios portugueses integrados na Rede de Cidades Criativas da UNESCO e debateu empreendedorismo, tradição e internacionalização das indústrias criativas. Participantes de Portugal, Brasil e Cabo Verde destacaram o papel de Castelo Branco na valorização do artesanato, na cooperação e na criação de oportunidades económicas

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Sónia Abreu, chefe da Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco e responsável pela organização da Bienal. Foto: Agência Incomparáveis
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A “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” terminou no sábado, 5 de setembro, no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco (CCCCB), com um segundo dia dedicado à partilha de práticas entre Cidades Criativas da UNESCO e à discussão sobre empreendedorismo, valorização da tradição e internacionalização das indústrias criativas. A iniciativa decorreu em paralelo e de forma integrada no programa do “Festival Sabores de Perdição”, uma aposta do município albicastrense para afirmar Castelo Branco enquanto Cidade Criativa da UNESCO na categoria de “Artesanato e Artes Populares”.

Sónia Abreu, chefe da Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco e responsável pela organização da Bienal, fez uma avaliação positiva dos dois dias de programação e destacou a participação do público.

“A avaliação é muito positiva. As partilhas e as experiências foram ótimas e senti, também da parte do público e das pessoas que estiveram connosco, muito gosto em estar presente”, afirmou. Para esta responsável, um dos resultados do encontro foi demonstrar que “o artesanato tem tudo para seguir em frente”, mas que é necessário envolver as novas gerações e criar condições para que possam fazer destas artes uma atividade profissional.

Sónia Abreu, chefe da Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco e responsável pela organização da Bienal. Foto: Agência Incomparáveis

Sónia Abreu apontou ainda a projeção do Bordado de Castelo Branco como uma das prioridades após a realização do encontro.

“Gostaria de continuar a investir neste projeto de forma a alcançar cada vez mais notoriedade, não só a nível nacional, mas também internacional”, referiu, sublinhando que “a nossa Cidade Criativa tem este solo, que é o bordado, e nós não podemos fugir disso, nem queremos. É o património”, acrescentou.

A programação do segundo dia começou às 10h com a sessão “Cidades Criativas da UNESCO: Práticas, Projetos e Inspirações”, que reuniu representantes de diferentes municípios portugueses integrados na rede internacional. Participaram Castelo Branco, Barcelos e Caldas da Rainha, todas na categoria de “Artesanato e Artes Populares”, além de Amarante e Leiria, ambas classificadas na categoria de “Música”. Depois de uma pausa, os trabalhos foram retomados às 12h com uma segunda sessão dedicada à mesma temática, desta vez com a participação de Braga, Cidade Criativa da UNESCO na categoria de “Artes Digitais”, Covilhã, na categoria de “Design”, Idanha-a-Nova, na categoria de “Música”, e Matosinhos, na categoria de “Gastronomia”. O encontro permitiu apresentar diferentes modelos de valorização do património, da criatividade e das indústrias culturais a partir das especificidades de cada território.

A manhã terminou com um período de debate e participação do público, previsto para as 13h15. A presença de diferentes cidades na programação reforçou uma das linhas centrais da Bienal, a criação de um espaço de intercâmbio entre territórios que utilizam cultura, património e criatividade como instrumentos de desenvolvimento local e de cooperação.

O presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues, destacou precisamente esta dimensão económica e internacional da Rede de Cidades Criativas da UNESCO.

presidente da Câmara Municipal de Castelo Branco, Leopoldo Rodrigues. Foto: Agência Incomparáveis

“Sabemos que uma rede com esta dimensão cria escala, cria oportunidades e cria valor para aquilo que é o bordado e o artesanato local, abrindo uma janela de oportunidade não apenas para o território, mas também para os vários continentes e para o mundo inteiro”, afirmou o autarca, referindo que “esta Bienal tem para nós um significado muito profundo”, tanto por se realizar em Castelo Branco como pela possibilidade de mostrar o artesanato local, receber outras cidades e incorporar novos conhecimentos e formas de fazer. Leopoldo Rodrigues sublinhou ainda que integrar uma rede internacional com a chancela da UNESCO representa simultaneamente “um orgulho e uma responsabilidade”, sobretudo na valorização dos artesãos e das produções do território.

Durante a tarde, a programação concentrou-se na mesa-redonda “Transformar a Tradição em Valor: Empreendedorismo e Internacionalização nas Indústrias Criativas”. A sessão teve moderação de Eduardo Barroso, consultor e ponto focal internacional de João Pessoa, no Brasil, Cidade Criativa da UNESCO na categoria de “Artesanato e Artes Populares”. Barroso, representante de João Pessoa junto da Rede Mundial de Cidades Criativas da UNESCO, destacou a relação já estabelecida entre a cidade brasileira e Castelo Branco e o potencial de encontros desta natureza para produzir novas formas de cooperação.

Eduardo Barroso, consultor e ponto focal internacional de João Pessoa. Foto: Agência Incomparáveis

“A nossa presença em Castelo Branco vem no sentido de reforçar esses laços de cooperação que já existem, porque hoje João Pessoa e Castelo Branco são cidades geminadas”, afirmou. Na sua avaliação sobre os dois dias, Barroso considera que “iniciativas como esta devem ser apoiadas e reforçadas, porque se transformam no espaço ideal de partilha das melhores práticas, de apresentação de novos projetos e de criação de novas oportunidades de intercâmbio e cooperação”. Para ele, ser Cidade Criativa “é mais do que um reconhecimento, é uma provocação e um estímulo para que a cidade avance na direção de um desenvolvimento sustentável”.

Participaram no painel Higor Esteves, vice-presidente da Comissão Executiva da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP) e diretor-geral da “Start CPLP”, Marielza Rodriguez, gestora do Programa do Artesanato Paraibano (PAP), e Fernando Pinto, presidente da Câmara Municipal da Praia, na ilha de Santiago, em Cabo Verde.

Higor Esteves, vice-presidente da Comissão Executiva da Confederação Empresarial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CE-CPLP) e diretor-geral da “Start CPLP”. Foto: Agência Incomparáveis

Higor Esteves enquadrou a participação da CE-CPLP e da “Start CPLP” na necessidade de criar condições económicas para que o artesanato se transforme numa atividade sustentável.

“É muito importante percebermos como está hoje a realidade dos artesãos, como têm a sua produção garantida e sustentável economicamente e como podemos criar canais para que essa sustentabilidade seja cada vez mais robusta e possa perpetuar-se”, afirmou, defendendo que a língua portuguesa pode funcionar como instrumento económico entre os países da comunidade.

“A língua é um passo importante e decisivo para criarmos pontes, relações e confiança multilateral”, declarou, acrescentando que cabe às estruturas empresariais da CPLP proporcionar ferramentas e um ambiente de negócios que permita transformar essa confiança em atividade económica.

Já Marielza Rodriguez levou ao encontro a experiência do “Programa do Artesanato Paraibano” e destacou a relação entre a Paraíba e Castelo Branco.

“Castelo Branco é uma cidade já irmã de João Pessoa e, desta quarta vez que venho a Castelo Branco, trazemos aquilo que temos de melhor em coleções feitas com inovação e design no artesanato paraibano”, disse esta responsável brasileira, que destacou a importância da cidade portuguesa enquanto referência para a cooperação entre territórios ligados ao artesanato.

Marielza Rodriguez, responsável pelo “Programa do Artesanato Paraibano. Foto: Agência Incomparáveis

“Castelo Branco, para mim, é uma referência, porque são pessoas que pensam no futuro e fazem eventos importantes de intercâmbio”, declarou Marielza Rodriguez, que sugere que a experiência permite levar para João Pessoa e para a Paraíba exemplos de projetos desenvolvidos em Portugal que podem ser adaptados à realidade brasileira. Na sua intervenção, abordou também o papel do artesanato na fixação das populações nos territórios e na geração de rendimento. A gestora explicou que a incorporação de design e inovação permite preservar técnicas transmitidas entre gerações e, simultaneamente, tornar as peças mais atrativas para novos públicos, contribuindo para o desenvolvimento local e para a permanência dos artesãos nas comunidades de origem.

Fernando Pinto, presidente da Câmara Municipal da Praia, salientou que a ligação institucional com Castelo Branco antecede a atual edição da Bienal e recordou a participação da capital cabo-verdiana no processo de candidatura albicastrense à Rede de Cidades Criativas da UNESCO.

Fernando Pinto, presidente da Câmara Municipal da Praia. Foto: Agência Incomparáveis

“Já existem parcerias em várias áreas com Castelo Branco há muitos anos. Hoje viemos sublinhar a importância desta relação de cooperação e partilhar algumas boas práticas da Praia”, afirmou, afirmando que a participação na Bienal permite transportar experiências em ambas as direções.

“Queremos levar conhecimento, novas práticas e know-how e, sobretudo, qualidade de vida”, referiu, defendendo que a cooperação entre cidades deve contribuir para criar oportunidades económicas e condições para que os jovens permaneçam nos seus territórios.

Fernando Pinto apresentou, entre as experiências desenvolvidas na Praia, iniciativas relacionadas com “economia circular, educação ambiental e reutilização de materiais”, defendendo a “transformação de resíduos em recursos capazes de gerar atividade económica”.

O painel colocou em discussão a passagem dos saberes tradicionais para modelos capazes de gerar atividade económica, criar oportunidades para artesãos e criadores e ampliar a presença dos produtos e projetos culturais em novos mercados. O tema esteve alinhado com a orientação geral da Bienal, centrada na preservação dos saberes tradicionais, na inovação nas indústrias criativas, na valorização do património e no papel da Rede de Cidades Criativas da UNESCO no desenvolvimento dos territórios.

A relação entre património, cultura e políticas públicas foi também abordada durante a Bienal pelo diretor-geral da Direção-Geral das Artes (DGARTES), Américo Rodrigues, que considerou importante a realização de iniciativas desta natureza e destacou a cooperação já existente com Castelo Branco.

Diretor-geral da Direção-Geral das Artes (DGARTES), Américo Rodrigues. Foto: Agência Incomparáveis

“Para nós é muito importante, no plano do Ministério da Cultura de Portugal e através da Direção-Geral das Artes, articularmos, colaborarmos e apoiarmos esta iniciativa e iniciativas deste tipo”, afirmou, salientando a necessidade de atribuir às artes e ofícios tradicionais uma posição própria nas políticas culturais.

“O que queremos é valorizar o património material e o saber-fazer tradicional, mas encará-lo como algo vivo, dinâmico, inscrito no presente e capaz de contribuir também para a economia”, referiu. Sobre o trabalho desenvolvido localmente, acrescentou que “Castelo Branco é um bom exemplo do trabalho que se pode fazer nesta área”, apontando o Bordado de Castelo Branco como “uma das referências na articulação entre tradição, promoção e desenvolvimento”.

A certificação das produções tradicionais foi outro dos temas presentes. Teresa Costa, gerente da A. CERTIFICA, Organismo de Certificação de Produções Artesanais Tradicionais, explicou que o trabalho de certificação procura “garantir o respeito pelos padrões históricos, matérias-primas, técnicas e características que definem cada produção”.

Teresa Costa, gerente da A. CERTIFICA. Foto: Agência Incomparáveis

Sobre Castelo Branco, Teresa Costa destacou o reconhecimento alcançado pelo bordado dentro e fora de Portugal.

“O Bordado de Castelo Branco é um trabalho reconhecido não só no território nacional, mas também além-fronteiras, e o facto de a cidade ter esta chancela da UNESCO é importante para as artesãs”, realçou. Segundo ela, o reconhecimento do trabalho das bordadeiras “contribui para projetar internacionalmente uma técnica com características próprias, desenvolvida através do bordado em seda sobre linho”. Para Teresa Costa, a certificação deve funcionar também como um instrumento pedagógico. A responsável explicou que, quando uma peça apresenta elementos que não cumprem os requisitos definidos, o objetivo passa por “orientar o artesão para as correções necessárias antes de atribuir a respetiva certificação, preservando a autenticidade da produção sem afastar quem mantém vivo o saber-fazer”.

A dimensão internacional esteve igualmente presente através do Brasil. O cônsul honorário do Brasil para os distritos de Castelo Branco e Portalegre, António Pinto Dias Rocha, classificou a Bienal como uma “oportunidade para reforçar a aproximação entre o território e a comunidade brasileira”.

Cônsul honorário do Brasil para os distritos de Castelo Branco e Portalegre, António Pinto Dias Rocha. Foto: Agência Incomparáveis

“Castelo Branco é uma cidade importante, com muitos brasileiros, e a nossa obrigação enquanto cônsul honorário do Brasil é tentar criar condições para sermos úteis àqueles que aqui vivem”, afirmou, além de apontar também o potencial económico da região e a possibilidade de aprofundar as relações empresariais. O representante consular disse ainda estar otimista quanto à criação de condições para reforçar a presença e os serviços consulares destinados à comunidade brasileira no distrito.

A ligação entre Portugal e Cabo Verde foi outra das dimensões presentes no encontro. Sofia Lourenço, cônsul honorária de Cabo Verde nos distritos de Castelo Branco, Guarda e Viseu, destacou a qualidade dos painéis e o potencial da Bienal para aprofundar o intercâmbio cultural.

Sofia Lourenço, cônsul honorária de Cabo Verde nos distritos de Castelo Branco, Guarda e Viseu. Foto: Agência Incomparáveis

“Os painéis desta Bienal têm uma qualidade indiscutível e proporcionam um intercâmbio de informações muito importante”, afirmou. Para Sofia Lourenço, a relação entre tradição e inovação constitui uma das principais linhas de trabalho para o futuro.

“Falando de cultura e destas relações que podemos construir entre Portugal e Cabo Verde, só nos enriquecemos e melhoramos as oportunidades”, declarou. A responsável frisou ainda a presença de elementos da cultura cabo-verdiana, incluindo o pano de terra e as batucadeiras, defendendo que o objetivo passa por “preservar a tradição e, ao mesmo tempo, criar novas formas de cooperação no espaço lusófono”.

O encerramento da Bienal aconteceu com uma visita guiada ao “Centro de Interpretação do Bordado”, aproximando os participantes de um dos elementos culturais que sustentaram a integração de Castelo Branco na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”.

Foto: Agência Incomparáveis

A dimensão do Bordado de Castelo Branco esteve também presente no primeiro dia da Bienal, realizado na sexta-feira, 4 de setembro. A abertura foi conduzida por Leopoldo Rodrigues, seguindo-se um momento musical das “Batucadeiras das Olaias”.

“Batucadeiras das Olaias”. Foto: Agência Incomparáveis

A manhã prosseguiu com a mesa-redonda “Identidade Local e Economia Criativa: Instrumentos Públicos para Valorizar o Património”, moderada por Sofia Lourenço. Essa primeira sessão contou com António Pinto Dias Rocha, cônsul honorário do Brasil para os distritos de Castelo Branco e Portalegre, Ângela Barbosa, gestora do Centro Cultural de Cabo Verde em Lisboa, Maria Antónia Amaral, chefe de Divisão de Cadastro, Inventário e Classificação do Património Cultural, I.P., e Américo Rodrigues, diretor-geral da Direção-Geral das Artes (DGARTES).

Foto: Agência Incomparáveis

Durante a tarde do primeiro dia, o debate concentrou-se no tema “O Bordado de Castelo Branco: Tradição e Inovação”. A mesa-redonda foi moderada por Teresa Costa, gerente da A. CERTIFICA, e contou com Ana Cristina Mendes, diretora-adjunta do Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património (CEARTE), Graça Ramos, presidente da Associação Portugal à Mão, Ana Margarida Fernandes, professora na Escola Superior de Artes Aplicadas (ESART) da Universidade Politécnica de Castelo Branco, e Sónia Santiago, diretora de Marketing e Comunicação do “Grupo O Valor do Tempo”.

O dia 4 terminou com a inauguração da exposição “O Mundo Bordado à Mão” e uma visita guiada ao “Museu dos Têxteis (MUTEX)”. A exposição reuniu trabalhos provenientes de diferentes municípios, além de peças do Brasil e de Cabo Verde. Segundo Sónia Abreu, os contactos estabelecidos a partir da mostra começaram já a gerar interesse de outros municípios em receber a exposição, abrindo a possibilidade de circulação do projeto e de novas relações de cooperação institucional.

Foto: Agência Incomparáveis

Para os seus responsáveis, ao longo dos dois dias, a Bienal procurou “articular património, artesanato, inovação, economia criativa e cooperação internacional”, reunindo participantes de Portugal, Brasil e Cabo Verde e representantes de várias cidades integradas na rede da UNESCO.

A realização da Bienal insere-se na estratégia de Castelo Branco enquanto “Cidade Criativa da UNESCO”, estatuto que o município tem utilizado para “reforçar a promoção das artes e ofícios tradicionais, a transmissão de conhecimentos, a cooperação entre territórios e a valorização dos recursos culturais locais”.

Foto: Agência Incomparáveis

Recorde-se que UNESCO integrou oficialmente Castelo Branco na “Rede de Cidades Criativas em 2023”, na categoria de “Artesanato e Artes Populares”, tendo o Bordado de Castelo Branco assumido um “papel central” na candidatura e na estratégia cultural associada ao reconhecimento.

Foto: Agência Incomparáveis

A primeira edição da “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” decorreu entre os dias 4 e 5 de setembro. Por sua vez, o “Festival Sabores de Perdição 2026” decorre de 3 a 6 de setembro. ■

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