
Radicado em Portugal há 15 anos, o cantor e compositor luso-brasileiro Rodrigo Almeida, também conhecido artisticamente como “El Moreno”, destacou a forma como tem desenvolvido a sua carreira no país europeu, conciliando influências da música popular brasileira com referências da tradição portuguesa, num percurso pautado pela “integração cultural e pela valorização da herança luso-brasileira”.
Em entrevista à Agência Incomparáveis, durante a Feira do Livro de Lisboa 2026, que decorreu entre 27 de maio e 14 de junho, no Parque Eduardo VII, o artista falou sobre a sua trajetória profissional, as raízes familiares e o modo como construiu uma carreira assente na aproximação entre Portugal e o Brasil.

Filho da cantora brasileira Ellen de Lima, uma das artistas de maior sucesso durante o período dourado do rádio no Brasil, na década de 1950, e de pai português natural de Castro Daire, no distrito de Viseu, Rodrigo Almeida considera que a sua identidade artística resulta precisamente desse encontro entre duas culturas.
“Eu sou um luso-brasileiro, nasci no dia 10 de junho, no ‘Dia de Portugal’, meu paizinho, Valentim Pereira de Almeida, português, era de Castro Daire, no distrito de Viseu, minha mãe brasileira, meu pai tinha uma casa de fados, chamada “O Galo”, onde começou toda essa história. Não conheci a casa, mas retenho na memória os momentos na Desgarrada, da fadista Maria Alcina”, começou por explicar.
Natural do Rio de Janeiro, o artista vive em Lisboa desde 2011 e descreve a capital portuguesa como uma cidade onde encontrou pontos de contacto com a sua cidade natal.
“Vir morar em Lisboa foi por coisas da vida. Já há 15 anos que eu resido nesta cidade cosmopolita, uma cidade que me faz lembrar muito o Rio de Janeiro”, salientou, reconhecendo que “a música tem sido o principal eixo do seu percurso profissional”.
Compositor e intérprete, Rodrigo Almeida tem procurado desenvolver projetos capazes de criar pontes emocionais entre os públicos português e brasileiro. Atualmente, destaca o espetáculo “Clássicos do Brasil”, concebido a pensar sobretudo nos espectadores portugueses.

“Procuro trazer aos portugueses aquelas canções que marcaram os últimos 40 anos. São canções de novela, canções que todo o mundo tem na memória, ou porque via novela com o avô ou com a mãe”, frisou o artista, que admite que este formato permite revisitar memórias coletivas, recuperando temas que fizeram parte do quotidiano de várias gerações em Portugal.
“É uma maneira de me fazer chegar aos portugueses de uma forma suave”, realçou.
No alinhamento desses concertos, Rodrigo Almeida inclui composições originais, sobretudo sambas, género musical que tem marcado a fase mais recente da sua carreira. Entre os trabalhos mais recentes encontram-se “Princesa dos Meus Sonhos”, da autoria do seu irmão, uma composição oferecida pelo “saudoso” letrista brasileiro Carlos Colla, responsável por sucessos interpretados por alguns dos maiores nomes da música brasileira, e ainda “Na Tela da Sala”, escrita já durante a sua permanência em Portugal.

Embora reconheça a importância das plataformas digitais para a divulgação artística, Rodrigo Almeida mantém uma relação muito própria com os espetáculos ao vivo.
“Estou em todas as plataformas digitais”, disse, embora prefira apresentar-se em espaços onde a música ocupa o lugar central. “Tenho muito respeito pela música”, referiu, atestando gostar de atuar em teatros. “Se é uma casa onde é para ouvir música, estou lá”.
Ao longo da entrevista, Rodrigo Almeida evocou também figuras marcantes do seu percurso pessoal, nomeadamente Maria Alcina, fadista portuguesa de Castro Daire, emigrada no Brasil por mais de sete décadas, e falecida há poucos meses. Alcina era amiga próxima da sua família.
“Maria Alcina faz parte da minha vida”, sustentou, recordando a relação da fadista com os seus pais, além de mencionar que Alcina era “uma pessoa de enorme generosidade”.
“A Maria Alcina sempre tinha uma amabilidade tremenda, um carinho, e tratava-me como um filho”, revelou.
As memórias ligadas ao restaurante “A Desgarrada”, aos convívios familiares e à comunidade portuguesa continuam, segundo explicou, a “inspirar” alguns dos seus projetos musicais dedicados às canções portuguesas que marcaram a sua infância. Questionado sobre o significado de viver entre duas identidades culturais, Rodrigo Almeida apresentou uma das reflexões mais marcantes da conversa.
“Eu considero-me um imigrante completamente adaptado à cultura portuguesa. Procurei integrar-me aqui, não que o país se integrasse a mim”, contou. Para o artista, a integração passa pelo respeito pela sociedade de acolhimento e pelo reconhecimento das afinidades históricas entre Portugal e o Brasil.
“Por mais que queiram contrariar, o Brasil é Portugal”, declarou, reiterando que “qualquer brasileiro, um pouco lúcido, chega aqui e sente-se em casa”.
Rodrigo Almeida aproveitou para recordar o pai, a quem atribui a transmissão do amor por Portugal.
“Eu até me emociono, porque lembro-me do meu pai, que é a maior referência na minha vida, e sinto-o presente em mim”, enfatizou.
“E talvez, Deus sabe, era para me passar todo este amor que sinto por este país, por esta terra que me acolheu tão bem. São emoções que a gente sente”, acrescentou.
Entre o samba e o fado, entre o Rio de Janeiro e Lisboa, Rodrigo Almeida continua, assim, a afirmar-se como um artista que faz da sua condição luso-brasileira um elemento distintivo da sua carreira, utilizando a música e a cultura como instrumentos de aproximação entre dois povos ligados por uma história, uma língua e um património afetivo comuns.
O trabalho de Rodrigo pode ser conhecido em: https://www.rodrigoalmeida.com/ e nas redes sociais em: https://www.instagram.com/rodrigoalmeidasinger/
Percurso de sucesso

Luso-brasileiro, nascido e criado no Rio de Janeiro numa família onde a música sempre predominou. Rodrigo Almeida é filho de Ellen de Lima, uma das vozes da emblemática Era da Rádio. No início da década de 1990 fez a primeira tour pela Europa. Em 2005, foi finalista no Festival de Benidorm, primeiro lugar pelos votos populares.
No ano de 2008 apaixona-se por Lisboa e passa a residir em Portugal. Em meados de 2012 compõe o single Infinito. Portugal não para de surpreender e no ano de 2014 Rodrigo é convidado a participar do seu primeiro longa-metragem “Estive em Lisboa e Lembrei de Você”, de José Barahona.
No ano seguinte mais um convite para o cinema, dessa vez no filme de Marco Martins, “São Jorge”, premiado recentemente no festival de Veneza e estrelado por Nuno Lopes.
Em parceria com a gravadora Espacial, Rodrigo apresenta o seu lado mais romântico com o álbum “INFINITO”. Em 2017, participa nas transmissões do brasileirão como comentarista na parceria “SIC RADICAL/Tropical FM Lisboa”. ■




