De Angola à Suíça, Olímpia Tomás transforma experiência na enfermagem em mensagem de “prevenção e acolhimento”

Com mais de três décadas de experiência na enfermagem entre Alemanha e Suíça, profissional angolana levou a Lausanne um testemunho sobre saúde emocional, autocuidado de quem cuida e a importância da prevenção, enquanto prepara uma nova etapa dedicada à saúde da mulher e à menopausa

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Enfermeira Olímpia Tomás. Foto: Agência Incomparáveis
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A enfermeira Olímpia Tomás levou ao “Conexão Global Suíça – Edição Setembro Amarelo: Conectar é Acolher”, realizado em Lausanne, uma reflexão construída ao longo de mais de 30 anos de trabalho na área da saúde e marcada por uma experiência profissional que ainda hoje integra a sua memória. Natural de Angola, criada na Alemanha e atualmente residente na Suíça, esta profissional participou no encontro que reuniu, entre 24 e 27 de setembro, participantes ligados à saúde, desenvolvimento humano, literatura, empreendedorismo e comunidade lusófona. A programação esteve centrada, entre outros temas, na valorização da vida, saúde emocional e prevenção do suicídio.

Foi precisamente a saúde emocional de quem trabalha diariamente a cuidar de outras pessoas que marcou a participação de Olímpia em Lausanne. Durante a sua intervenção, a enfermeira recuperou um episódio ocorrido há vários anos, quando trabalhava na área de cardiologia. Segundo relatou, uma paciente jovem morreu após um erro na administração de um antibiótico. No mesmo dia, um colega envolvido na situação morreu por suicídio. Na altura, segundo Olímpia, foi comunicado à equipa que a morte do profissional estaria relacionada com o impacto do sucedido e com o peso emocional que sentiu após o erro.

Ao recordar o episódio perante o público em Lausanne, Olímpia não conseguiu conter as lágrimas. O testemunho trouxe para o centro da sua intervenção uma realidade que, segundo a enfermeira, acompanhou parte do seu próprio percurso profissional: a necessidade de continuar a trabalhar, cuidar dos pacientes e responder às exigências da profissão enquanto experiências emocionalmente difíceis permaneciam guardadas.

A passagem pelo evento levou-a a formular uma pergunta que sintetiza a reflexão que pretendeu deixar junto do público: quem cuida de quem cuida? Para Olímpia, a experiência em Lausanne voltou a evidenciar a necessidade de os profissionais de saúde prestarem atenção à própria saúde emocional, particularmente num setor onde o contacto com doença, sofrimento, perda e situações de elevada responsabilidade faz parte da atividade quotidiana.

A temática enquadrou-se nos objetivos do encontro realizado em Lausanne, cuja programação incluiu palestras, talk shows, testemunhos, momentos de reflexão e partilha de experiências. A iniciativa foi desenvolvida no âmbito do “Setembro Amarelo”, com uma agenda dedicada à saúde emocional, prevenção do suicídio e reconstrução de projetos de vida, reunindo participantes provenientes, nomeadamente, da Suíça, de Portugal e do Brasil.

A experiência levada ao encontro está ligada a um percurso profissional de mais de três décadas. Olímpia Tomás tem 50 anos, nasceu em Angola e cresceu na Alemanha, país onde realizou a sua formação em enfermagem. Ao longo da carreira trabalhou em diferentes hospitais e áreas da saúde na Alemanha e na Suíça. Atualmente exerce funções num hospital suíço e trabalha também no Spitex, sistema de prestação de cuidados de saúde ao domicílio, acompanhando pessoas que necessitam de assistência de enfermagem nas suas próprias casas, incluindo situações que exigem cuidados de proximidade e acompanhamento paliativo.

Paralelamente à atividade profissional, Olímpia está a aprofundar a formação na área da menopausa e da saúde da mulher. O interesse nasceu também da própria experiência. Depois de ter sido submetida a uma histerectomia devido a miomas, com preservação dos ovários, começou posteriormente a identificar alterações relacionadas com a transição para a menopausa. Apesar da experiência acumulada enquanto enfermeira, percebeu que também tinha dúvidas sobre o processo.

Essa experiência levou-a a questionar as dificuldades enfrentadas por mulheres sem formação na área da saúde. Para Olímpia, a perimenopausa e a menopausa continuam muitas vezes associadas apenas aos afrontamentos e ao fim da menstruação, apesar de poderem estar acompanhadas por alterações do sono, cansaço, dificuldades de concentração, alterações de humor, ansiedade, dores articulares ou secura vaginal, entre outros sintomas. A enfermeira ressalva, porém, que alterações verificadas nesta fase da vida não devem ser automaticamente atribuídas à menopausa, sendo necessária uma avaliação adequada.

É neste contexto que Olímpia pretende desenvolver uma nova vertente do seu percurso, direcionada para o acolhimento, informação e futuro acompanhamento de mulheres durante esta fase da vida, em articulação com outros profissionais de saúde. A prevenção, o autocuidado e a informação surgem como componentes dessa abordagem.

A enfermeira defende ainda uma visão integrativa dos cuidados, sem estabelecer uma oposição entre medicina convencional e abordagens complementares. Depois de mais de 30 anos de experiência profissional, sublinha o papel dos tratamentos médicos, mas considera que fatores como alimentação, atividade física, sono, saúde emocional e educação para a saúde devem fazer parte da avaliação global do paciente.

A própria história familiar contribuiu para esse olhar. Nascida em Angola, Olímpia cresceu num ambiente em que a mãe recorria a plantas e ervas. Mais tarde, experiências familiares aumentaram o seu interesse por uma abordagem mais abrangente dos cuidados. Na prática profissional, dá como exemplo o acompanhamento de pessoas com diabetes, no qual considera que a atenção não deve estar limitada à medicação, mas incluir hábitos de vida e educação para a saúde.

A saúde da mulher tornou-se, assim, uma extensão do percurso desenvolvido na enfermagem. Olímpia resume a orientação que pretende imprimir a esta nova etapa através da mensagem “Nenhuma mulher deve caminhar sozinha”. Para a profissional, ser escutada e sentir que os sintomas são levados a sério são elementos importantes no acompanhamento das mulheres, juntamente com o acesso a informação, profissionais de saúde e, quando necessário, apoio psicológico.

Olímpia Tomás ao lado da empresária Ana Poltera, durante o evento “Conexão Global Suíça – Edição Setembro Amarelo: Conectar é Acolher”, realizado em Lausanne. Foto: Agência Incomparáveis

As redes familiares, de amizade e entre mulheres podem igualmente desempenhar um papel neste processo. A experiência acumulada na enfermagem ensinou-lhe, segundo explicou, que cuidar não se limita à administração de medicamentos ou à realização de procedimentos clínicos. A escuta, a informação, a educação para a saúde e a presença junto do paciente integram também o acompanhamento.

Olímpia ainda não publicou qualquer livro, mas admite transformar no futuro parte da sua experiência profissional e pessoal em escrita. O objetivo seria abordar temas relacionados com o cuidado, autocuidado, prevenção e saúde da mulher, recuperando aprendizagens acumuladas durante mais de três décadas de trabalho entre a Alemanha e a Suíça.

A participação no “Conexão Global Suíça” acabou, porém, por colocar uma questão anterior a qualquer futuro projeto. Ao recordar em Lausanne a morte da jovem paciente e o suicídio do colega, Olímpia confrontou-se novamente com a dimensão emocional de uma profissão construída em torno do cuidado. O encontro deixou-lhe a perceção de que cuidar dos outros exige também reconhecer os próprios limites e procurar apoio quando necessário.

Foi essa reflexão que levou consigo de Lausanne. Depois de mais de 30 anos a acompanhar pacientes em hospitais e no domicílio, Olímpia Tomás reconhece que o autocuidado continua a ser um processo em construção. A pergunta que lançou durante o encontro permanece como síntese da sua participação e como tema de reflexão para quem exerce profissões ligadas ao cuidado: quem cuida de quem cuida? ■

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