Entre o verão português e o inverno brasileiro, especialista brasileira reflete sobre os ciclos da natureza e da consciência

Terapeuta, escritora e “pesquisadora da alma humana”, Andrea Francomano explica como o verão no hemisfério norte e o inverno no hemisfério sul podem representar “caminhos complementares de transformação, consciência e renovação interior”; segundo ela, Portugal e Brasil, neste momento, “representam simbolicamente duas faces da mesma jornada da alma”

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Andrea Francomano, especialista em Apometria Sistêmica e Mesa Radiônica Acessus. Foto: divulgação
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Com a aproximação do dia 21 de junho, quando Portugal entra oficialmente no verão e o Brasil inicia o inverno, o fenómeno astronómico do solstício volta a despertar reflexões sobre os diferentes ritmos da natureza e a forma como estes influenciam a vida humana. Enquanto no hemisfério norte os dias se tornam mais longos e luminosos, convidando à convivência e à atividade ao ar livre, no hemisfério sul a estação mais fria do ano abre espaço para um período de maior introspeção e reorganização. Para muitas pessoas que mantêm laços afetivos, familiares ou profissionais entre os dois países, estes ciclos opostos coexistem simbolicamente no mesmo tempo e despertam diferentes interpretações.

É sobre esta relação entre natureza, consciência e espiritualidade que fala Andrea Francomano, terapeuta psíquica espiritual, escritora, professora, mentora e pesquisadora da alma humana. Bacharel em Direito, mestre em Planejamento Urbano e Regional e ex-advogada durante 26 anos, dedica-se atualmente ao estudo da consciência humana e da espiritualidade aplicada, sendo criadora do Método Apometria Sistêmica, da Mesa Radiônica ACESSUS, fundadora do Instituto Andrea Francomano e da Comunidade Tu Cum Tu. Ao longo dos últimos anos, tem desenvolvido formações internacionais, palestras e pesquisas voltadas para o autoconhecimento e prepara também o lançamento de um novo livro dedicado à Apometria Sistêmica.

Em entrevista à nossa reportagem, Andrea Francomano propõe uma leitura simbólica dos solstícios vividos simultaneamente por Portugal e Brasil, refletindo sobre expansão e recolhimento, luz e introspeção, movimento e pausa. A autora aborda ainda o significado espiritual dos ciclos da natureza, a forma como podem influenciar o comportamento humano e a importância de compreender que cada estação representa uma oportunidade de transformação, equilíbrio e renovação interior para quem vive entre os dois lados do Atlântico ou mantém uma profunda ligação com ambos os países.

No domingo, dia 21 de junho, Portugal viverá o solstício de verão enquanto o Brasil atravessará o solstício de inverno. Como explica, numa leitura energética e simbólica, esta oposição de ciclos entre os dois hemisférios?

Gosto de observar os fenômenos da natureza como grandes mestres silenciosos da consciência humana. Embora Portugal e Brasil estejam vivendo momentos opostos do calendário solar, não vejo isso como uma oposição. Vejo como uma complementaridade. Enquanto um hemisfério expande, o outro amadurece. Enquanto um floresce para fora, o outro aprofunda suas raízes. Existe uma tendência humana de valorizar apenas a expansão, o crescimento, a produtividade. Mas a natureza jamais funciona apenas numa direção. Tudo o que nasce precisa amadurecer. Tudo o que cresce precisa consolidar-se. Tudo o que floresce um dia precisará recolher suas sementes. O solstício nos recorda justamente essa sabedoria esquecida. A vida não é uma linha reta. É um movimento circular. Portugal e Brasil, neste momento, representam simbolicamente duas faces da mesma jornada da alma.

O solstício de verão é associado à expansão, à luz e à exteriorização, enquanto o solstício de inverno costuma ser ligado ao recolhimento, à introspeção e ao silêncio interior. Que diferenças sente entre estas duas energias e como cada uma pode influenciar as pessoas?

A energia do verão convida à manifestação. É um período em que os projetos tendem a ganhar forma, as relações tornam-se mais intensas, a vida social se amplia e existe uma maior disposição para experimentar o mundo. A luz exterior parece estimular também uma necessidade de expressão interior. Já o inverno possui uma inteligência diferente. Ele nos convida a escutar aquilo que normalmente tentamos calar. Questões emocionais não resolvidas, medos, lutos, dúvidas existenciais e redefinições de caminho costumam emergir com mais força. Na minha experiência como terapeuta, percebo que muitas pessoas resistem ao inverno da alma porque confundem recolhimento com estagnação. São coisas completamente diferentes. A semente não está parada quando está sob a terra. Ela está preparando o próximo florescimento. O inverno é o território da gestação.

Para quem está em Portugal neste período, que tipo de mudanças energéticas pode ser esperada com a chegada do verão e com o aumento da luz solar?

O aumento da luz costuma ampliar tudo aquilo que já existe. Isso significa que não apenas as alegrias tendem a se tornar mais visíveis. As inquietações também. Existe uma crença de que a luz revela apenas o que é belo. A experiência humana mostra exatamente o contrário. A luz revela o que está escondido.

Por isso, muitas pessoas sentem uma vontade súbita de mudar de vida, iniciar projetos, viajar, terminar relações que já não fazem sentido ou revisitar sonhos antigos. Portugal possui uma relação muito particular com o mar, com os ciclos naturais e com uma memória ancestral profundamente ligada à travessia, à descoberta e ao movimento. Não me surpreende que muitas pessoas sintam neste período uma espécie de chamado interno para explorar novos territórios da própria existência.

No caso do Brasil, que entra no inverno, como olhar para este momento como uma oportunidade de pausa, reorganização emocional e preparação para novos ciclos?

O inverno ensina algo que nossa sociedade esqueceu: a importância da pausa. Vivemos numa cultura que valoriza excessivamente a ação. Mas toda ação sem reflexão produz apenas repetição. O inverno é um excelente momento para avaliar escolhas, revisar relacionamentos, reorganizar prioridades e observar padrões emocionais que se repetem. É um período muito favorável para terapias, estudos, meditação, autoconhecimento e investigação interior. Quando a natureza reduz seu ritmo, ela não está perdendo força. Está concentrando energia. Talvez a grande pergunta do inverno seja: “O que precisa morrer em mim para que uma nova versão de mim possa nascer?” Essa é uma pergunta profundamente espiritual.

Muitas pessoas vivem entre Portugal e Brasil, ou mantêm ligações profundas com os dois países. Como conciliar, espiritualmente e emocionalmente, estas duas estações opostas que acontecem ao mesmo tempo?

A alma não vive dividida pelos fusos horários nem pelos hemisférios. Conheço muitas pessoas que têm raízes num país e projetos no outro. Pessoas que carregam Portugal no coração e o Brasil na memória, ou o contrário. Nesses casos, acredito que a resposta está em compreender que somos mais amplos do que a geografia. Podemos acolher simultaneamente a expansão e o recolhimento. Podemos celebrar a luz e respeitar a sombra.

Podemos construir algo novo enquanto encerramos um ciclo antigo. A maturidade espiritual surge justamente quando deixamos de escolher entre os opostos e aprendemos a integrá-los. A vida não exige que escolhamos entre verão e inverno. Ela nos convida a compreender o valor de ambos.

Que práticas, reflexões ou cuidados recomenda para atravessar este período de solstício com mais consciência, equilíbrio e abertura às mudanças que podem surgir?

Eu sugeriria algo muito simples, mas profundamente transformador. Primeiro: diminuir o ruído externo. Estamos excessivamente ocupados consumindo opiniões e cada vez menos disponíveis para escutar nossa própria consciência. Segundo: observar a própria vida com honestidade. Quais áreas estão florescendo? Quais estão secando? O que merece mais energia? O que já cumpriu seu propósito? Terceiro: estabelecer um momento de silêncio diário. Não para fugir do mundo, mas para reencontrar a própria direção. E, por fim, lembrar que todo solstício representa uma passagem. As antigas tradições compreendiam esses momentos como portais simbólicos de transformação. Não porque algo mágico aconteça no céu, mas porque a natureza oferece um espelho perfeito para a alma humana. Quando observamos os ciclos da Terra com atenção, começamos a compreender melhor os nossos próprios ciclos. E talvez essa seja uma das maiores sabedorias espirituais: perceber que a vida possui seu tempo para florescer, seu tempo para recolher, seu tempo para partir e seu tempo para recomeçar. O sofrimento surge quando tentamos viver uma estação que já terminou ou resistimos àquela que acaba de chegar.

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